Comportamento

"Tive câncer nas minhas duas gestações, fui desenganada, mas sobrevivemos"

Arquivo pessoal
Magali precisou adiantar o parto da filha para tratar o tumor. Imagem: Arquivo pessoal

Helena Bertho

do UOL

24/03/2017 04h00

Aos 30 anos e com 8 meses de gravidez, Magali Aranaha descobriu que estava com um tipo grave de câncer de mama. O mesmo tumor reapareceu na segunda gestação. Conheça sua história e como ela enfrentou doença, dificuldades e medos

"Minha pequena Dâmyla acabou de fazer oito anos. E cada aniversário dela é para mim muito mais do que só um aniversário. É uma celebração da vida, porque minha filha foi uma guerreira para chegar a esse mundo e sua existência foi o que me salvou da morte. Literalmente!  Se não fosse por ela, eu não teria descoberto o câncer a tempo de tratar.

Quando eu estava no quarto mês da gestação da Dâmyla, uma gravidez muito sonhada e aguardada, notei um nódulo no meu seio. Mas como várias outras vezes nódulos apareceram e nunca foi nada, nem levei a sério. Meu médico tirou férias nessa época e, tranquilamente, decidi esperar que voltasse para checar isso.

Bem, entre férias e problemas de agenda, passaram-se quase quatro meses. Durante esse tempo, o pequeno nódulo foi crescendo, crescendo e crescendo. Dava para sentir de qualquer forma que eu tocasse meu peito. E quando o médico viu isso na consulta, na hora já me pediu um monte de exames com urgência.

Uma semana depois, com punção e ultrassom em mãos, voltei para mais uma consulta. Quem me recebeu não foi mais o ginecologista, mas sim um oncologista. E sem cuidado algum, ele jogou a bomba: você está com câncer. Um tipo de câncer agressivo que estava muito avançado.

“E o tratamento e a cura?”, perguntou minha mãe.

Não sei se tem cura', rasgou o médico, dizendo que a prioridade era fazer meu parto o quanto antes para tentar salvar a bebê. Segundo ele, eu estava desenganada, dificilmente poderia viver.

Decidi que não iria me tratar

Essa consulta tirou meu chão, eu não conseguia parar de chorar, em desespero. O medo era em dobro: pela vida da minha filha e pela minha! Mas como qualquer mãe, o meu foco inicial foi cuidar dela. Por isso nem pensei duas vezes e já marquei a cesárea para dali dois dias. 

Graças a Deus correu tudo bem na operação. Dâmyla nasceu perfeitinha, com oito meses e sem nenhuma complicação. Lembro quando a vi pela primeira vez, senti uma das coisas mais confusas da minha vida. Uma mistura da alegria por ver minha filha viva, com a tristeza de pensar que talvez eu não pudesse vê-la crescer.

Acho que foi um misto desse medo com a frustração com o médico sem tato, ou talvez a desesperança mesmo... Sei que saindo dali decidi que não ia me tratar. Deixaria minha saúde na mão de Deus e aproveitaria minha filha o quanto desse.

Por três meses curti intensamente minha filha, amamentando e mimando ela, enquanto tentava não pensar sobre aquele caroço enorme no meu peito. Claro que as pessoas que me amam não estavam tranquilas com isso e minha mãe acabou me convencendo a ir ao médico que havia tratado um câncer de uma amiga ela.

Se não tivesse engravidado, não descobriria o tumor

Totalmente diferente, atencioso e calmo, ele confirmou que era um caso grave e, por isso, me encaminhou para um hospital referência em São Paulo. Mas o principal foi que ele procurou me dar esperanças, disse que eu podia sim ser curada e que devia insistir.

Comecei então o tratamento em São Paulo. Lá os médicos me explicaram tudo melhor. O tumor no meu seio, que tinha chegado a 17 cm, era de um tipo que responde aos hormônios da gestação. Por isso ele tinha crescido tanto. Mas por isso também que ele foi descoberto. Se eu não tivesse engravidado, ele continuaria imperceptível e talvez eu só descobrisse quando espalhasse para outros órgãos!

Apesar de grande e agressivo, os médicos acreditavam que daria para tratar. Precisaria de quimioterapia, radioterapia e uma cirurgia.

A quimioterapia tirou todas minhas forças

A quimioterapia foi muito violenta e nos primeiros meses eu fiquei totalmente incapacitada, não conseguia nem segurar minha filha no colo. Só ficava na cama, sem forças.

Arquivo pessoal
Durante o primeiro tratamento, Magali mal conseguia sair da cama para cuidar da filha. Imagem: Arquivo pessoal

Perdi cabelo e emagreci muito, mas minha maior tristeza era não estar sendo parte daquela primeira fase da vida da menina. Mas fazer o quê?

Segui firme e, depois de seis meses de quimioterapia, meu tumor havia diminuído bem e pude operar. Mais um baque: tive que retirar a mama direita toda. Mas tudo bem, o câncer se foi e os médicos fizeram uma reconstrução que ficou ótima. Ainda vieram as sessões de radioterapia, mas elas nem me fizeram mal. No fim das contas, um ano depois de ter minha filha eu estava curada!

Não fosse por algumas mudanças no corpo, a vida podia seguir normalmente agora. A principal alteração foi que a químioterapia me deixou estéril e adiantou minha menopausa. Com 30 anos, eu não menstruava mais, tinha os famosos calores e não poderia ter mais filhos. Uma pena, eu queria mais um. Mas, mais uma vez, o que importava era estar viva e saudável.

Decidi arriscar e tive câncer outra vez

Arquivo pessoal
Os médicos avisaram que a segunda gravidez seria arriscada, mas Magali quis tentar mesmo assim. Imagem: Arquivo pessoal

E por cinco anos, vivi extremamente feliz com isso. Curti minha filha, brinquei muito com ela, levei para a escola... Era até difícil lembrar que em um momento eu achei que morreria. Mas a vida é cheia de surpresas, né?

Aso 35 anos eu voltei a menstruar e aquele sangue tinha só um significado para mim: eu poderia ter meu segundo filho. Procurei meu médico, fiz exames e confirmei que podia mesmo engravidar, no entanto, existia risco de um novo tumor. O médico me falou do risco, mas disse que eu podia tentar e a gente acompanharia tudo de perto.

Eu decidi pelo risco e paguei o preço.

Aos quatro meses foi encontrado o tumor na mama esquerda. Pelo menos dessa vez estava bem pequenininho e eu estava nas mãos de ótimos médicos. Mesmo assim, câncer é câncer e só o peso dessa palavra já trouxe todo o medo de volta.

Depois do segundo filho, veio a cura  

O caminho seria diferente dessa vez. Os especialistas decidiram esperar alguns meses até que meu filho tivesse mais formado para então fazer uma cirurgia e retirar o meu tumor, assim poderiam evitar que ele crescesse demais e prejudicasse a gravidez.

Quando o Klaus tinha seis meses de gestação, operamos. Lembro do medo que senti antes da anestesia e apaguei rezando para que tudo corresse bem, principalmente com meu filho.  E correu!

Arquivo pessoal
Quatro anos depois de vencer o câncer, Magali e os filhos estão completamente saudáveis Imagem: Arquivo pessoal
Dois meses depois fiz uma cesárea para dar à luz o meu segundo filho, que nasceu também perfeito e saudável. Nada descreve o que senti quando trouxeram ele para o quarto, aos berros, e o peguei no colo. Ele ficou quietinho na hora!

Assim que me recuperei do parto, já comecei a quimioterapia. Dessa vez passei um pouco melhor, mas não pude amamentá-lo. Em seguida a radioterapia. Todo o processo foi mais fácil, porque eu já estava, de certa forma, preparada e também porque encarei com mais leveza.

E no início de 2014, finalmente a cura. Dessa vez, definitiva! Quatro anos já se passaram, acompanho minha saúde direitinho e tudo segue perfeitamente bem. Do que vivi ficou a felicidade por estar viva e meus filhos, fruto das minhas maiores lutas.

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