Comportamento

"Sou mulher transgênera, pastora e mãe de duas crianças"

Neto Lucon
Alexya Salvador é pastora da Igreja da Comunidade Metropolitana. Imagem: Neto Lucon

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

31/03/2017 04h00

A religião sempre foi parte essencial na vida de Alexya Salvador, 36, que só conseguiu se identificar como mulher depois de conhecer a igreja inclusiva da qual hoje é pastora. Em depoimento ao UOL Estilo, ela conta sua história.

"Quando subimos as escadas da igreja e nos deparamos com uma drag queen no altar animando os fieis, tive certeza de que havia encontrado o meu lugar. Olhei para os casais gays de mãos dadas e travestis que oravam e sorri para Roberto, meu namorado, explodindo de alegria, porque finalmente poderia viver minha fé.

E digo finalmente, porque a relação entre minha fé e minha identidade sempre foi complicada e o caminho até ali foi bem longo. Nasci no interior, em Mairiporã, em uma família muito religiosa e conservadora, eu sempre vivi uma confusão interna: sabia que não era menino, mas minha fé sempre me dizia que era errado isso que eu sentia dentro de mim.

Eu ganhava carrinhos de brinquedo dos meus pais, mas durante a noite pegava escondida as bonecas da minha irmã para brincar de casinha, sonhando com o dia em que seria mãe.

Na adolescência ficou tudo mais difícil, é claro. Enquanto meus colegas de escola me batiam e xingavam, eu odiava tudo o que os hormônios estavam fazendo com meu corpo. Ao mesmo tempo, eu tinha uma relação muito forte com a religião, sentia um verdadeiro chamado dentro de mim.

Então, no final do colégio, tomei uma decisão que uniria minha fé com uma tentativa de solucionar meus problemas: entrei para o seminário, seria padre. Nem preciso dizer que não deu certo, né? Depois de quatro anos sem conseguir reprimir quem eu era, falei para mim mesma que não seria um desses padres que causam escândalo para a igreja e larguei o seminário.

Contei metade da história e me assumi gay

Assim que voltei para a casa dos meus pais, resolvi parar de me esconder. Chamei meus pais no quarto, fechei a porta e comecei a chorar. 'Mãe, pai, eu não sou como meus primos.' Minha mãe disse que já sabia e eu respirei aliviada. Ia contar que sou mulher quando meu pai falou: 'Se você for veado, eu até aceito. Mas se vestir de mulher, eu mato'. Minha coragem acabou ali, pelo menos me assumir gay já era um começo e acabei contando só metade da história.

Eu tinha 22 anos na época e, apesar de ainda ter de reprimir toda a minha vontade de poder ser uma mulher em todos os sentidos, agora podia viver a parte amorosa da vida. Tive alguns relacionamentos que não deram certo até os 28, quando conheci o Roberto.

Nossa história é coisa de filme: nos vimos pela primeira vez na estação de metrô da Sé, enquanto fazíamos a baldeação. Nossos olhares se cruzaram, ele veio me perguntar as horas, puxou conversa e nos apaixonamos. Mas eu voltei para o interior e namoramos por cinco meses à distância, até que em 2009 decidimos morar juntos.

Após quase dois anos juntos, tomamos a decisão de nos casar. Mas como a religião sempre foi importante para mim e eu estava afastada desde o seminário, resolvi procurar alguma igreja que fazia casamentos gays. E foi assim que descobri a Igreja da Comunidade Metropolitana, que abraça toda a diversidade de gente que existe!

"O Alexander morreu, a partir de agora sou Alexya!"

Na igreja eu passei a ter mais contato com drags e travestis e tive até a oportunidade de me vestir de mulher pela primeira vez, em uma atividade. Ao mesmo tempo em que isso foi confirmando minha certeza de que eu sou uma mulher, foi aprofundando meu desgosto em viver como homem. Entrei em depressão e fiquei muito mal, porque eu não era aquele homem que precisava ser o tempo todo. Mas eu não conseguia escapar, porque tinha dois grandes medos: perder meu pai e meu marido. Até que cheguei no limite.

Um dia, em outubro de 2012 acordei, fui até meu pai e disse: 'Não dá mais, o Alexander morreu! A partir de agora eu sou Alexya'. Assim, do nada mesmo. Meu pai, que chupava laranja na hora, até engasgou. Ele ficou em silêncio por uma semana, mas depois me procurou, me deu um abraço e pediu perdão.

Já Roberto reagiu muito melhor. Vale contar que antes disso, eu já havia comentado com algumas pessoas sobre minhas angústias e todos me diziam que ele me largaria. Afinal, Roberto era gay, por que ficaria com uma mulher?

Mas ele surpreendeu e simplesmente disse que se era isso que eu queria, ele estaria ao meu lado. E assim comecei a minha transição, para poder ser fisicamente a mulher que sempre fui por dentro. Com calcinha, sutiã, unhas feitas e saia, eu finalmente era eu.

Neto Lucon
Roberto apoiou a transição de Alexya e juntos adotaram os dois filhos. Imagem: Neto Lucon
 Me tornei pastora e mãe

Depois disso minha vida começou a seguir. Fui estudar teologia e cada vez mais me envolvi na comunidade da igreja, pois finalmente minha vocação tinha espaço numa fé que me aceitava. Este ano passei a exercer o papel de pastora e no fim do ano serei ordenada reverenda, a primeira reverenda trans da América Latina!

Além da religião, também fui atrás do meu sonho de ser mãe. Em 2012 fomos a um abrigo e logo na primeira visita vimos o Gabriel, todo tímido e retraído, isolado das outras crianças. Me apaixonei na hora e saímos dali sabendo que seria ele. O processo de adoção é lento e complicado. Por um ano e meio, nós apadrinhamos nosso filho e podíamos ficar com ele somente aos finais de semana.

Gabriel tem algumas necessidades especiais, nunca vai conseguir ler ou escrever, mas é um doce, super sociável e se abriu completamente para nós. Mesmo antes de estar efetivamente morando em nossa casa, já me chamava de mamãe. Imaginem o quanto eu não chorei na primeira vez!

Os papéis saíram no fim de 2015 e ele agora vive conosco integralmente, enquanto finaliza o processo. E fui a primeira mulher trans de que se tem notícia nesse país a desfrutar a licença maternidade, podendo curtir meu filho por completo para fazer sua adaptação à vida nova.

Adotei uma criança transgênera

Mas eu ainda queria mais. Na verdade, sonhava adotar uma criança trans para dar a ela a infância que não tive. E comentei isso em uma entrevista na TV. Qual não foi minha surpresa quando uma juíza de Pernambuco me procurou para contar que tinha uma menina que acreditava ser trans em um abrigo de sua cidade.

Neto Lucon
No início de 2017, Ana recebeu sua nova certidão de nascimento com seu nome e gênero feminino. Imagem: Neto Lucon
Fiquei animada na hora e no dia seguinte já conheci Ana por Skype. Ela era um doce e eu de cara decidi dar entrada na adoção. Por três semanas nos falamos por telefone e internet todos os dias. Nesse período eu não a tratava nem como menino, nem como menina, só dizia “meu bem” ou “meu anjo”. Até que um dia ela apareceu no Skype toda nervosa e disse que tinha de me contar uma coisa e revelou que era menina.

Eu a acolhi e disse que estava tudo certo. Um pouco depois disso a adoção saiu e fui até lá, conhecê-la pessoalmente e trazer para casa.  

Isso foi em 2016 e desde então a Ana fez acompanhamento em um centro de referência em Campinas. Em casa, nós a tratávamos como a menina que ela é. E, agora no começo de 2017, isso passou a reconhecido pela sociedade: Ana pode mudar sua certidão de nascimento e é oficialmente uma mulher! E nada me deixa mais feliz do que saber que ela vai poder viver a infância e a adolescência com a paz de poder ser quem ela é, sem preconceito e medo!  E com a benção de Deus, que agora eu sei que ama a todos nós, do jeitinho que somos.

 

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