Comportamento

A vida de Zé Mayer vai mudar? Casos famosos de assédio indicam que não

Paulo Belote/Divulgação/TV Globo
Imagem: Paulo Belote/Divulgação/TV Globo

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

10/04/2017 13h24

Afastado da Globo por tempo indeterminado depois da denúncia de assédio da figurinista Su Tonani, o ator José Mayer deve estar se questionando que consequências a longo prazo o escândalo trará para sua carreira. Será que vai perder oportunidades de trabalho? Será que voltará à Globo? Ou outras emissoras terão interesse em sua atuação? Será que marcas ainda vão contratá-lo para campanhas? Ou sua imagem está riscada para sempre?

Casos antigos de denúncia de assédio, abuso e violência física envolvendo famosos, no entanto, mostram que Mayer tem muitas chances de sair ileso do caso. O mais comum é que, com o tempo, a sociedade esqueça o que aconteceu. "Dado Dolabella enfiou a mão na minha cara e seis meses depois ganhou dois milhões", falou Luana Piovani em sem canal no Youtube ao comentar o assunto.

A "passada de panos quentes" pode ser explicada, principalmente, pelo fato de o assédio e a violência contra mulher serem considerados normais pela sociedade. "Essas pessoas são representantes de uma sociedade que tem como uma das suas estruturas de funcionamento o machismo. Existe uma naturalização disso. O pensamento é de que todos nós conhecemos alguém que já fez isso. O famoso, é só mais um", explica Maíra Kubik, professora de Estudos de Gênero na Universidade Federal da Bahia.

A "brodagem" ajuda a indústria a passar "panos quentes"

Especialistas acreditam que minimizar atitudes como a de Mayer é comum, pois existe uma tendência de culpar a vítima. Para Mônica Oliveira, pesquisadora de teoria política na Unifesp, "a mulher com 11 anos já é considerada adulta o bastante para provocar um homem, mas um homem adulto não é maduro o bastante para ter controle sobre si mesmo. Ele tem direito a errar, é o instinto, a mulher provocou".

As denúncias de assédio e abuso costumam não contar com testemunhas ou provas materiais, por acontecerem em ambiente privado. Nesse contexto, a única prova existente é a palavra da mulher. Para a socióloga e professora da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, Juliana do Prado, "é muito mais plausível, numa sociedade como a nossa, que reverencia a masculinidade, que as mulheres que denunciam os homens que as assediaram sejam tratadas como loucas".

Muitos casos se transformam em debates de "é a palavra dela contra a dele". E nesses contextos, homens tendem a proteger outros homens. "As masculinidades são, em grande parte, resultado de experiências de homens com outros homens. Existe, portanto, um aspecto compartilhado que caracteriza o que podemos denominar de camaradagem masculina, o que nos auxilia a entender, por exemplo, o apoio mútuo, a proteção e defesa que se dá de homens para homens, especialmente em se tratando de abusos, assédios e atitudes machistas", explica Juliana do Prado.

"E como a indústria do cinema e da TV são hegemonicamente masculinas, acaba-se colocando panos quentes", conclui Maíra Kubik.

Com o feminismo, o cenário está mudando

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Apesar do histórico, as especialistas acreditam que o contexto está mudando. "O que foi muito forte nesse caso [de José Mayer] foi a reação. Houve uma necessidade de dizer 'basta'. O que mostra uma potência do movimento feminista. Pode ser que agora a gente tenha uma reação diferente. Talvez não nesse caso, mas outras pessoas que daqui em diante não passem por isso", analisa Maíra.

Com a popularização do feminismo na internet, os casos têm ganhado cada vez mais repercussão e a cobrança por atitude das instituições também tem sido maior. A resposta da Globo em relação ao caso de José Mayer veio por causa da pressão feita pelas atrizes da emissora na TV em apoio a Su.

"As mulheres estão ganhando mais voz, denunciando, requerendo direitos, não aceitando relações abusivas e, cada vez mais, se constituindo em redes de socialidade. Se as relações de masculinidades sempre foram marcadas por camaradagem, assistimos atualmente, às possibilidades mais ampliadas de que as mulheres compartilhem experiências e se apoiem", afirma Juliana do Padro.

Se os casos antigos de assédio dizem a Mayer que ele pode ficar tranquilo, a repercussão de sua história conta algo diferente: talvez ele seja um dos primeiros a encarar as consequências a longo prazo da violência contra a mulher. 

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