Comportamento

Medo ao se vestir: geógrafa conta como o assédio moldou seu guarda-roupa

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Do UOL

20/04/2017 04h00

A geógrafa Flávia Guimarães, de 32 anos, passou por tantas situações de assédio que o simples ato de usar vestido ou saia se tornou um grande desafio. Desde muito nova, ela encarou atitudes disfarçadas de "elogios", comentários supostamente despretensiosos e olhares invasivos, que lhe causaram traumas e privações. No relato abaixo, Flávia compartilha sua história:

"O primeiro caso que me marcou aconteceu quando eu tinha 14 anos. Fui ao cinema com meus amigos e me sentei na ponta. Um desconhecido se sentou do meu lado e me olhava muito, o que me incomodou bastante. De repente ele começou passar a mão na minha perna e a levantar meu vestido. Eu o cutuquei e ele parou. Depois, continuou e chegou ao ponto de subir e puxar a lateral da minha calcinha. Cutuquei de novo e olhei para ele, que me ignorava e fingia que estava assistindo ao filme.
 
Eu era muito nova e não tive reação. Não consegui falar nada e nem sair do lugar. Tentei cutucar a amiga que estava sentada do meu lado, mas ela não entendeu o que estava acontecendo. Também tentei falar com ela, mas como eu estava com medo de que o cara ouvisse, falei tão baixo que ela não ouviu. Minha sorte foi que o filme acabou cerca de dez minutos depois. 
 
Foi muito ruim. Eu não sabia ao certo o que sentir, porque era muita coisa: vergonha, medo, nojo e raiva. Desde esse episódio, comecei a evitar saias e vestidos e a sempre usar calças. Ficava muito 'encanada' de algum cara querer passar a mão em mim e com medo de chamar a atenção. Até hoje, se algum homem se senta do meu lado em uma viagem de ônibus, por exemplo, fico totalmente desconfortável e nem consigo dormir. Fiquei praticamente dos 14 aos 29 anos sem usar vestido ou saia no dia a dia, somente em situações pontuais, como casamento ou formatura.
 
Em 2011, quando eu tinha 26 anos, decidi mudar e, pela primeira vez, usei um vestido no trabalho. Fui até a cozinha pegar algo para beber e meu chefe veio atrás de mim. Ele me olhou dos pés à cabeça e disse que eu estava muito ‘gostosinha’ e que deveria usar a peça mais vezes.
 
Fiquei muito tensa. Na minha cabeça, a vontade era xingar, mas era meu chefe. E se ele me mandasse embora? Foi uma situação delicada. Acabei dando um sorrisinho amarelo e saí. Depois disso me senti frustrada por não ter reagido. Nunca mais usei vestido para trabalhar, o que é um absurdo. Não podia me privar por causa dele. Mas também não queria passar por isso de novo. 
 
Estou mudando e voltei a usar saia e vestido com mais frequência. Leio sobre o assunto, sobre outras mulheres que sofrem assédio e sobre feminismo. Passei a entender que o problema não é comigo. Estou aprendendo a me impor mais, a falar e a reagir quando alguém faz algo. Ainda não me sinto 100% confortável de vestido e continuo com receio de mostrar as pernas. Uso muita legging por baixo. A calça ainda me deixa mais tranquila, mas me esforço para melhorar isso."
 

Como superar o trauma

Ler e buscar ajuda psicológica é muito importante para superar o problema e voltar a sentir a liberdade de vestir o que quer, sem insegurança. O psicólogo Roberto Debski explica que basta viver uma situação marcante uma vez para adquirir um trauma para vida toda: "Isso acontece quando a gente passa por uma experiência emocional ruim e muita intensa, criando uma associação. É um processo rápido de aprendizagem negativa. No caso da Flávia, ela sentiu vergonha, medo e raiva, por isso essas emoções acabaram sendo associadas à roupa que estava vestindo". Debski ressalta, ainda, que é importante se fortalecer para conseguir se posicionar e dessensibilizar o trauma do assédio.
 
"Assédio é uma ameaça. É uma experiência emocional dolorosa. É uma violência que pode gerar efeitos físicos e psíquicos", explica a psicóloga Sirlene Ferreira. Mas, segundo os dois psicólogos, é preciso entender que a culpa não é da mulher, e sim do agressor, que age de maneira abusiva. Para Sirlene, a união das mulheres é muito importante. "Estamos vivendo um momento muito bom. As mulheres estão conseguindo falar mais sobre assédio. Até então, carregavam o trauma em silêncio por anos e anos. Hoje, estão tendo coragem para colocar isso para fora", explica.

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