Comportamento

Baleia Azul virou piada, e isso complica ainda mais a situação das vítimas

Reprodução/Facebook
Meme sobre "Baleia Azul" que circula em grupos de Facebook e WhatsApp banaliza o sofrimento dos jovens Imagem: Reprodução/Facebook

Thamires Andrade

Do UOL

24/04/2017 18h06

Enquanto alguns pais brasileiros têm se preocupado muito com o "Baleia Azul" --série de 50 tarefas, que vão desde automutilação a suicídio--, outros tem compartilhado algumas piadas referentes ao "jogo virtual". Os “memes” vão desde insinuações de que falta surra para os jovens de hoje em dia ("Baleia Azul é para essa geração mole de hoje. Na minha época o desafio era sobreviver à havaiana azul") até a criação de um novo desafio, da "Preguiça Azul", em que os jovens devem cumprir 50 desafios, dentre eles cumprir as tarefas de casa, obedecer aos pais e não se matar. Mas, afinal, essas piadas e brincadeiras ajudam a lidar com a questão ou banalizam o problema?

Na opinião das especialistas ouvidas pelo UOL, essas atitudes só tem o poder de banalizar o problema. "Fazer piada com esse tema é uma forma da sociedade amenizar, dar um tom mais suave ao problema. Mas nós precisamos falar de forma aberta e séria sobre o suicídio", fala Sabrina Gonzalez, psicóloga clínica e hospitalar.

De acordo com relatório sobre prevenção ao suicídio feito pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a cada 40 segundos uma pessoa no mundo comete suicídio. "É um índice muito alto para desconsiderar. A gente vive em uma sociedade que se comove vendo um filme, mas é incapaz de se comover com o sofrimento do outro, de ter empatia e compreensão", afirma Sabrina.

Desvalorização do sentimento dos jovens

Para Sabrina e Thais Quaranta, psicóloga e neuropsicóloga especializada em crianças e adolescentes, esses “memes” desconsideram e desvalorizam o sentimento dos jovens em situação de vulnerabilidade que buscam o "Baleia Azul".

“O jogo da "Baleia Azul" não é o real problema do nosso jovem, mas sim o que está por trás dele. Por que ele entra nisso? Tem uma depressão escondida ali a ponto de ele querer tirar a própria vida. Ao fazer piadas, desconsideramos o sofrimento do outro. É dizer que o que ele sente é frescura, que não é sério. Sendo que o suicídio é uma questão de saúde pública", afirma Sabrina.

É importante deixar os preconceitos de lado e entender que um jovem que busca por esse ‘jogo’ não quer só chamar atenção. "Temos que tomar cuidado com essas brincadeiras, pois não sabemos quem está do outro lado, em uma situação de vulnerabilidade emocional e fraqueza. Esse 'jogo' atrai pessoas com ideações suicidas e problemas emocionais graves", fala Thais.

Impactos negativos

Essas piadas em tons pejorativos só agravam o quadro desses jovens, segundo Thais. Ela explica que eles se colocam em posição de inferioridade e a situação fica ainda pior quando quem compartilha são os pais do adolescente. “Quando essa mensagem vem do pai ou da mãe, que são pessoas de muita confiança e que tem uma opinião que o adolescente valoriza, isso pode fazer com que ele desista de falar o que está sentindo ou pensando”, fala.

Para Sabrina, essas brincadeiras também podem passar a ideia de que a vida do jovem não vale nada. “Essas piadinhas são prejudiciais. Quem entra nesse jogo acha que a vida não vale a pena e eles não conseguem sair disso. Não por falta de vontade, mas por que ao entrar em um estado depressivo, ocorre uma espécie de lesão no cérebro que dificulta essa ação de achar respostas e soluções para os problemas. Essas brincadeiras só fazem com que o jovem pense que a vida dele não vale nada mesmo”, explica.

Papel dos pais

Para Deborah Moss, neuropsicóloga e mestre em psicologia do desenvolvimento infantil pela USP (Universidade de São Paulo), os pais devem aproveitar a enxurrada de notícias sobre o jogo da "Baleia Azul" para discutir sobre os temas que envolvem o desafio com os filhos. "Não dá para fazer piada nem para acreditar que todo adolescente participará do 'jogo'. Mas dá para aproveitar e falar não só sobre suicídio, mas sobre outras questões do cotidiano dos adolescentes, como o bullying virtual. Os pais podem destrinchar com o jovem o que está acontecendo e reforçar que ele tem um canal aberto para falar sobre qualquer coisa que não tiver indo bem", diz.

Na opinião de Deborah, uma conversa sem alarmismo e enfatizando o que está acontecendo pode ser muito positiva, mas ela acredita que é importante que os pais reflitam o motivo de tantos jovens pensarem em atentar contra a própria vida.

"Hoje, os adolescentes sofrem muito e não dão conta das frustrações e das pressões que o mundo real impõe. Por isso, os pais têm de buscar respostas lá atrás, na época em que eles eram crianças, para descobrir o que está acontecendo. Por que tem jovem que não obedece ao pai e a mãe e está obedecendo um ser virtual que propõe 50 desafios?", questiona.

Ainda que não tenha uma resposta certeira para o problema, Deborah acredita que os valores que os pais passam inconscientemente para os filhos pode ser um dos problemas na hora de educar a prole. "Os pais querem ser amigos dos filhos e não dá. Para ser legal, tem que ser permissivo, deixar fazer tudo! Acredito que o adulto tenha perdido essa autoridade frente ao jovem, pois ele quer jovem, põe botox, o ideal do adulto é o jovem e isso é um perigo para a sociedade", acredita.

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