Comportamento

"Se eu morrer vão saber quem matou": idoso denuncia agressões homofóbicas

Denise de Almeida e Helena Bertho

Do UOL

30/04/2017 11h02

“Aqui não é lugar de viado”, teria ouvido Eduardo Michels, 62 anos, de um dos vizinhos ao tentar sair do lugar onde mora, com medo, após sofrer ameaças. Ele nem teve tempo de fugir. Em entrevista ao UOL, Eduardo conta que, ao lado de seu companheiro, Flavio Micelli, 60, foi agredido fisicamente por cerca de 20 homens no dia 21 de abril, no Rio de Janeiro.

Enquanto parte do grupo teria imobilizado Eduardo, prendendo-o pelo braço e pescoço, Flavio foi derrubado ao chão e levou uma série de chutes. Ferido e com hematomas, Flavio foi até a delegacia, mas saiu de lá com um Boletim de Ocorrência onde ele aparece como autor, em vez de vítima. 

Arquivo pessoal
Eduardo Michels e Flavio Micelli acusam vizinhos de terem praticado agressões motivadas por homofobia Imagem: Arquivo pessoal

Enquanto deixava o imóvel, localizado em um condomínio na zona norte da capital fluminense, Eduardo deixou a câmera de seu celular ligada, por temer pela segurança do casal. Foi assim que gravou o vídeo acima, onde é possível ouvir xingamentos e notar o princípio das agressões físicas.

"Isso que aconteceu foi linchamento. Não foi uma briga só, foi uma coisa premeditada. Eles ainda gritavam: 'aqui não é lugar de viado! Vai dar o c... em outro lugar'. Eles chutaram muito o abdômen e a região genital dele. Falavam: ‘isso aqui você não vai mais usar'. Chutaram a cabeça dele também. Ele não morreu por milagre", conta.

Festa terminou na delegacia

O condomínio que foi palco do tumulto recebia uma festa de um dos moradores naquele dia. Eduardo relata ter sido intimidado por um dos vizinhos desde aquela manhã, que gritava em sua janela palavras de ameaça. 

Segundo Eduardo, eles conseguiram se livrar dos agressores com a ajuda de algumas senhoras que estavam na festa e conseguiram intervir.

"Tem dois anos e meio que moro lá. Nesse tempo, sempre hostilizaram a gente. Desde que nós entramos, os moradores torceram o nariz. É um prédio pequeno, de três andares, e na verdade vivem umas três ou quatro famílias ali", ele explica.

Após um ano incomodado com o alto volume do som nas festas que sempre aconteciam por lá, Eduardo diz que procurou a imobiliária, reclamando, e a empresa notificou o condomínio. "Depois disso, eles aumentaram o ódio e começaram a jogar lixo, urina e gasolina na nossa casa. Riscavam fósforo para botar fogo. Sempre que passavam por nós nos chamavam de 'viado'".

A polícia foi chamada tanto pelo casal quanto pelos vizinhos e parte deles foi parar no 20º Distrito Policial da cidade. "Escoltaram a gente até a delegacia e fizeram um Boletim dizendo que nós que éramos os agressores. Temos 60 anos e nós teríamos agredido um bando de homens mais novos. Nós é que estamos todos machucados!”, conta, indignado.

Eduardo diz que Flavio e a irmã, de 73 anos, foram coagidos a assinar o documento, mesmo discordando de seu conteúdo, ou, do contrário, iriam presos. Na hora de fazer o exame de corpo delito, Eduardo conta que o médico não quis nem que Flávio levantasse a camisa para mostrar seus hematomas.

Acusação de cárcere privado e segundo B.O.

Arquivo pessoal
Após ser agredido com chutes e socos, Flavio Micelli, 60, tem hematomas pelo corpo Imagem: Arquivo pessoal
Na última segunda-feira (24), Eduardo voltou a sua casa, mas foi impedido de sair dela. Ele acusa o síndico do local, segundo ele, um dos envolvidos no episódio de violência, de tentar mantê-lo em cárcere privado.

Eduardo diz que desligaram a energia do apartamento, cortaram o interfone e trocaram a fechadura da portaria, sem dar uma cópia das novas chaves a ele. Ele pediu socorro à cunhada e ao companheiro, que procuraram novamente a delegacia. "Mas quando eles chegaram lá, os vizinhos já estavam confraternizando com o pessoal da PM. Eles ouviram a mesma ameaça sobre serem presos, dizendo que nós somos agressores. Qualquer louco vê que isso não tem sentido".

"Uma pessoa normal não ia fazer uma tentativa de homicídio contra o vizinho. Por mais ódio que tivessem, desligar a luz e colocar em cárcere privado? Achei que eles fossem me matar. A sorte é que eu tinha um celular e comecei a chamar várias pessoas pelo Facebook. Eu sou ativista pelos Direitos Humanos e trabalho numa ONG há 37 anos. Comecei a mobilizar gente, até que conseguiram me soltar, quase a 1h da manhã. O Secretário dos Direitos Humanos soube e mandou uma patrulha aqui para me escoltar e eu poder sair", relata Eduardo.

O ativista ainda aponta estar sendo perseguido. "Para me intimidar, já passaram agora duas pessoas de farda, olhando para o prédio onde eu estou escondido. Eles sabem onde eu estou".

“É uma dor de todos os lados", diz, sobre a humilhação sofrida. "Eu não tenho mais medo de nada. O máximo que eles podem fazer é me matar. Mas, pelo menos, se eu morrer vão saber quem me matou. Se eu ficasse calado seria pior. Estudei Direitos Humanos a vida inteira e trabalho em uma ONG de Direitos Humanos. Vou ficar calado? Não posso, não!"

Eduardo conta ainda que a Defensora Pública pediu uma medida cautelar, para que possa entrar no imóvel e retirar suas coisas, mas que ainda não obteve resposta. "Eu saí só com a roupa do corpo e os documentos. Estou sem acesso a nada. Agora a imobiliária me comunicou que eu tenho uma ordem de despejo. Pago tudo em dia e eu só fui lá pedir a chave. Acredito que eles combinaram tudo".

O outro lado

O aposentado Jorge da Matta, 62, era quem estava dando a festa no momento em que a agressão teria acontecido e é dele a voz que se ouve no vídeo dizendo para que o casal parasse de gravar. Procurado pela redação, ele alega que na verdade foi Flávio quem o agrediu e não o contrário. "Quando eu fui procurar saber porque ele estava me filmando, meu sangue subiu e eu falei aquelas coisas, mas não fiz nada. Ele me jogou no chão. Então eu agarrei sua camisa e ele caiu também, por isso se machucou, isso está no boletim de ocorrência. Por que alguém culpado iria chamar a polícia?", diz ele. 

Segundo Jorge, Eduardo teria um histórico de problemas no condomínio, inclusive por já ter feito comentários racistas sobre ele. Sobre a troca da fechadura, o aposentado, que é subsíndico, diz que foi realizada porque a anterior estava quebrada. "E pedimos para os moradores retirarem as chaves com o síndico. Ele não é o locatário do imóvel, por isso não foi entregue a ele, mas ele diz que foi cárcere privado". 

A Polícia Civil do Rio de Janeiro foi questionada sobre a denúncia de que Flávio e sua irmã teriam sido forçados a assinar o boletim de ocorrência e respondeu que "As investigações estão em andamento, para apurar os crimes de lesão corporal e ameaça. Todos os envolvidos no caso estão sendo ouvidos na unidade policial. Os agentes também procuram possíveis imagens e testemunhas que possam ajudar nas investigações". 

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