Comportamento

Vício em jogo fez mulher perder R$ 8.000 em um dia e apostar 72h seguidas

Reprodução/TV Globo
Lilia Cabral na pele de Silvana, em "A Força do Querer" Imagem: Reprodução/TV Globo

Bárbara Stefanelli

Do UOL

16/05/2017 04h00Atualizada em 22/05/2017 14h06

A personagem Silvana, vivida por Lilia Cabral na novela “A Força do Querer” (Globo), é uma arquiteta conhecida e cheia de dinheiro. Apesar do sucesso na profissão e no relacionamento, é casada e tem uma filha, ela tem uma questão que atormenta sua vida: o vício nos jogos de cartas.

Na trama, já chegou a perder R$ 10 mil no jogo, já penhorou joias da família para pagar dívidas e, para o marido, interpretado por Humberto Martins, vive inventando mentiras para não ser descoberta. Fora das telas, a manicure Raquel*, 45, compartilha com Silvana o drama de ser uma jogadora compulsiva, porém numa realidade infinitamente menos glamourosa.

Ela ganha R$ 100 para fazer pé e mão de suas clientes. Por semana, recebe por volta de R$ 1.000. No jogo, no entanto, já chegou a gastar oito vezes mais do que recebe: R$ 8.000,00 em uma noite. 

Eu ganho e não vou embora. Esqueço de tudo, fico fissurada e não consigo sair de lá. É algo que me prende.
*Raquel

A manicure começou jogando baralho com a família e, aos 30, foi apresentada a uma casa de jogos por um primo. Não parou mais com as máquinas de caça-níqueis. Uma vez chegou a ficar três dias dentro de uma desses locais clandestinos. "Fiquei sem tomar banho, mal comia. Nem dormi. A gente fica lá sentado, jogando, e até esquece de comer. Fico acabada.

Um vício como qualquer outro

Ao UOL, a atriz Lilia Cabral disse que começou a estudar a personagem em agosto de 2016 e que se sentiu motivada em levar o tema para a sociedade. “A minha preparação foi feita em cima de quem gosta de jogar, a Silvana curte a adrenalina do jogo, para ela é uma válvula de escape.”

As pessoas que passam pela compulsão do jogo têm muita dificuldade de sair dessa situação. Acho que tratar disso em uma novela faz muita gente se identificar e também serve de alerta para as pessoas que têm parentes nessa situação.
Lilia Cabral

Para a autora da novela, Gloria Perez, essa foi uma maneira de, além de retratar o vício em jogo, falar sobre algo maior: a falta de controle. “O foco não é o jogo, é a compulsão, essa necessidade cega, impulso, que leva uma pessoa a se tornar dependente de alguma sensação.” E continua: “No caso de Silvana, a compulsão é pelo jogo, mas poderia ser por bebidas, drogas, sexo, compras, etc.”. 

Causas diversas

A personagem de "A Força do Querer" retrata bem o perfil das pessoas mais afetadas pelo vício em jogo. De acordo com Mirella Martins de Castro Mariani, psicóloga do Ambulatório do Jogo Patológico do IPq (Instituto de Psiquiatria do HC, em São Paulo), que atua há 20 anos e já atendeu 2.000 pacientes, são homens e mulheres, entre 45 e 47 anos, que mais procuram ajuda.

As causas são relativamente as mesmas entre jovens, adultos e idosos: ansiedade, compulsão e escape. O que muda são os sintomas. “Em geral, as mulheres vêm ao tratamento um pouco mais deprimidas, já os homens chegam com o nível de ansiedade maior”, explica Mirella. E continua: “Elas nos procuram depois que começam as cobranças e desentendimentos familiares, enquanto os homens têm mais queixas voltadas a dinheiro, de que não conseguem ser tão provedores quanto gostariam.”

Mirella também aponta a genética como um dos principais fatores que leva alguém a se viciar em jogo. “Em todos estudos que fizemos, tem histórico de familiares com transtorno do jogo ou outra dependência química ou comportamental.” A dependência também se torna mais rápida conforme mais rápida a possibilidade de recompensa, como é o caso das máquinas, que, aliás, são proibidas no Brasil. 

O contato com o ambiente do jogo também é outro fator que favorece: “Quanto mais a pessoa se expõe, mais chances ela tem de se transformar em um paciente”. O vício em jogo, no entanto, atinge apenas 1% da população mundial e as máquinas são altamente viciantes, principalmente entre as mulheres, de acordo com o Ambulatório do Jogo. 

Apostas cada vez mais altas

De acordo com Mirella, em geral, as pessoas sabem que têm um problema, apesar disso, continuam jogando para recuperar o valor perdido. “O jogador compulsivo passa a ter uma preocupação excessiva com o jogo e perde o controle, fazendo apostas cada vez maiores para obter satisfação.” A profissional compara o ato com sair para beber: “É como uma pessoa que antes tomava de um a dois chopes em um happy hour e, quando vê, tem que tomar de cinco a seis copos para se divertir”.

No consultório, profissionais da área de saúde usam os critérios do DSM-IV --manual usado por profissionais da área da saúde - para chegar a um diagnóstico de transtorno de jogo. Uma pessoa que preencher mais de quatro dos itens listados abaixo, pode estar precisando de ajuda.  

  1. Necessidade de jogar com quantidades crescentes de dinheiro, a fim de obter a excitação desejada;
  2. Fica agitado ou irritado quando tenta diminuir ou parar de jogar;
  3. Tem feito repetidos esforços infrutíferos para controlar, diminuir ou parar de jogar;
  4. Fica muitas vezes preocupado com o jogo --por exemplo, tem pensamentos persistentes de reviver experiências de jogo passadas, fragiliza-se ao planejar a próxima aventura, pensando em maneiras de obter dinheiro para jogar;
  5. Muitas vezes, sente-se angustiado quando joga (impotente, culpado, ansioso e deprimido);
  6. Depois de perder dinheiro no jogo, frequentemente volta outro dia para recuperar perdas;
  7. Mente para esconder a extensão do envolvimento com jogos de azar;
  8. Colocou em risco ou perdeu um relacionamento significativo, emprego ou oportunidade de educação ou carreira por causa do jogo; e,
  9. Depende de outros para prover dinheiro para reviver situação financeira desesperadora causada pelo jogo.

O tratamento dura para sempre

Psicólogos e psiquiatras são os profissionais mais habilitados para tratar o transtorno de jogo. Em São Paulo, o Ambulatório do Jogo Patológico (o contato pode ser feito por e-mail ou telefone, veja abaixo) atende gratuitamente. Quem procura o centro, passa primeiro por uma triagem para, então, começar o tratamento que envolve psicoterápico e consultas semanais. De dez pacientes que procuram ajuda, sete permanecem na terapia e 75% tem uma resposta positiva. “Em torno de seis meses, o paciente já está estável.”

Outra alternativa é fazer parte dos grupos do Jogadores Anônimos, que funciona no esquema de reuniões. Nestes encontros, as pessoas podem conversar sobre o que acontece com elas e ouvir o depoimento de jogadores que passaram pela mesma experiência. De acordo com a administradora Gianne Bassan, que hoje coordena uma das salas do JA, normalmente, são os familiares que fazem o primeiro contato. “Dificilmente é o próprio jogador que liga.”

“As pessoas têm que participar sempre. Mas muitos chegam e não ficam. Às vezes, a pessoa acha que não chegou no fundo do poço e acha que pode jogar mais um pouquinho.” Gianne passou a frequentar os encontros há 14 anos. Na época, ela própria tinha problema com jogo --começou com o bicho e foi parar nas máquinas. “Eu não fiz outro tratamento, só fui às reuniões e nunca tive uma recaída. Na época, eu frequentava o JA praticamente todos os dias. Hoje só vou uma vez por semana, nesta sala que coordeno. É um tratamento que dura para sempre.”

JA (Jogadores Anônimos)
http://www.jogadoresanonimos.org.br/
Rio de Janeiro - (21) 2516-4672
São Paulo - (11) 3229-1023
Fora de SP e Rio, fazer contato pelo e-mail: contato@grupojaonline.com.br

Programa Ambulatorial do Jogo
(11) 2661-7805
E-mail: proamjo_secretaria@gmail.com

Virando o Jogo
http://viraojogo.org.br/portal/
Programa criado pela Associação Viver Bem, a Caixa Econômica Federal e o Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (PRO-AMJO) com o objetivo de alertar sobre os problemas relacionados ao jogo, bem como acolher o jogador com problemas. Contato por e-mail através do site.

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