Comportamento

'Blogueirinhas' bombam no Instagram e viram estrelas da moda infantil

Denise de Almeida

Do UOL, em São Paulo

22/05/2017 11h01

Uma soneca estendida pela manhã para estar linda na sessão de fotos à tarde. No fim de semana, presença VIP em eventos promovidos por grifes, desfiles, pose para mais fotos com fãs e um monte de presentinhos, para encerrar. Tudo devidamente registrado e publicado no Instagram, com as arrobas de lojas e fotógrafos marcadas em posts que rendem mais de mil curtidas.

Essa poderia ser a agenda de blogueiras de moda famosas, como Camila Coelho, Thassia Naves ou Lalá Rudge. Mas é parte da rotina de crianças que bombam nas redes sociais mostrando looks fashionistas e uma série sem fim de produtos infantis.

Aos 3 anos, a pequena Zayra (mais conhecida como @zayra_oficial) é uma das estrelas da moda mirim que surfam nesta onda. A garota de Natal (RN) acumula 74 mil seguidores, quase a capacidade máxima do estádio Maracanã, no Rio de Janeiro. 

Já a baiana Dudinha (@dudinhayamazaki), 4, tem 69 mil seguidores. Ela acaba de "assinar" sua primeira coleção de roupas em parceria com uma grife de Salvador. "As pessoas chegam na loja e falam 'eu quero a coleção da Dudinha'. São quatro estampas, em vários modelos e tamanhos", conta a mãe da menina, Patrícia Yamazaki. Não que a menina tenha feito a curadoria das peças. "Foi tudo escolhido por mim. Mas são bem a cara dela", garante a mãe.

Patricia trabalhava com turismo, mas abandonou a carreira quando Dudinha nasceu e hoje se dedica à administração do Instagram e da agenda da filha. Ela define a menina como "mini digital influencer". 

Aos 10 anos, a pernambucana Maria Luiza (@malulevyoficial) tem 42 mil seguidores. "Ela já tem parcerias fixas com marcas de óculos, que nos mandam toda a coleção, e de biquíni também", conta a mãe, Catharine Levy. "A Malu é convidada para eventos promovidos por lojas e isso atrai crianças que são suas fãs no Instagram. As mães levam os filhos para vê-la e acabam comprando um sapato. Os lojistas estão fazendo muito isso", diz Catharine.

"Mãe, como é que ele me conhece?"

Reprodução/Instagram
Zayra tem 3 anos e 74 mil seguidores, quase a capacidade máxima do Maracanã Imagem: Reprodução/Instagram
Com quase 24 mil seguidores, a goiana Hylanna (@hylanna_campos), 7, também faz participação VIP em eventos, campanhas de moda e desfiles.

Lucielma Campos, mãe da garota, diz que ela ainda estranha a fama. "Quando tem muita gente olhando e chamando o nome dela, ela fala: 'mãe, como é que ele me conhece?'", diz. "Explico que é pelas redes sociais. O povo vai cumprimentá-la, pede foto. Minha filha acha legal". 

A fama das celebridades adultas da internet inspira os sonhos e as ambições das mamães das influenciadoras de moda mirins. "Ser como a Camila Coelho é um sonho. Antes eu não pensava muito, era só uma brincadeira, mas hoje eu corro, batalho para estar ao lado da minha filha. Costumo dizer que eu vivo 25h por dia no Instagram dela", afirma Sara Santos, mãe de Zayra.

Sara tinha uma loja de roupas fitness, mas largou o negócio quando Zayra nasceu. Hoje, trabalha cuidando da agenda da garota. "O pessoal pensa que é uma brincadeira e não é. É trabalhoso você conseguir seguidores e curtidas". 

A mãe da minifashionista diz que há quem compre seguidores para as algumas das estrelinhas da moda, para dar uma valorizada no perfil da criança. "Qual retorno vou dar para o parceiro se eu tiver um monte de seguidor falso? Nenhum! Tenho parceria com lojas de calçados e roupas, então tenho que mostrar as peças deles com a Zayra e o pessoal ir na loja comprar e dizer que foi através dela. Isso é muito bacana. Eu gosto e, enquanto ela tiver gostando, estou com ela também".

"Caí nesse mundo por acaso"

Reprodução/Instagram
Malu tem 10 anos, 42 mil seguidores e o sonho de ser uma estilista famosa Imagem: Reprodução/Instagram
Malu não quer ser blogueira para sempre, segundo a mãe. "No futuro, ela quer estudar faculdade de moda em Paris. Ela disse 'mãe, quero ser uma estilista famosa'. Falei que ela está no caminho certo, porque já será conhecida. Para qualquer profissão que ela venha a escolher isso já vai abrir mais portas. Mas claro que sem atrapalhar os estudos", acredita Catharine. 

"Não tinha noção de que existia esse mundo. Comecei a postar looks da Dudinha no meu perfil pessoal, porque eu sempre gostei de moda", revela Patricia. Então, aos 2 anos, a menina ganhou seu próprio Instagram. "Eu dizia de onde a roupa era e marcava as lojas, que começaram a ver. Caí nesse mundo por acaso. Aí as lojas chamavam ela para participar de lançamento de coleção e eu ia. De repente, quando me dei conta, Duda já estava bastante conhecida".

Patrícia diz que aprendeu na marra a administrar a vida de mãe de miniblogueira. "Fui aprendendo com o tempo o jeito da foto, qual fica boa e qual fica ruim, o que postar ou não, o que escrever. Eu gosto de escrever como se fosse ela falando. Todo mundo sabe que não é ela, ela não sabe nem ler, não foi alfabetizada ainda". 

"Não é que a criança viva 24 horas montada"

Sara revela que, embora a fama tenha um lado bom, sofre com as muitas críticas que recebe. "Às vezes você coloca alguma roupa e chovem críticas. Não é que a criança viva 24 horas montada. Você chega lá em casa e ela está de calcinha, está suja, está arrepiada, porque é criança, é normal". 

Mas, quando participam de eventos, as crianças agem como profissional. "Ela pergunta 'mãe, eu tenho que tirar a foto para depois brincar, não é isso?'. Porque em todo evento criança tem que brincar, então, se não tirar foto logo, o cabelo fica todo bagunçado. Mas ela entende", garante Sara. 

Reprodução/Instagram
Aos 7 anos, Hylanna já tem 23,8 mil seguidores Imagem: Reprodução/Instagram

A mãe de Hylanna conta que a filha compreende que é um trabalho e gosta dele. "Ela só reclama quando é muito puxado, como gravação de comercial, que são cinco ou seis horas. Aí ela acha isso chato e fica estressada, quer brincar, diz que cansou de trabalhar. Para que ela entenda, explico que hora de trabalhar é hora de trabalhar. Primeiro ela tem que fazer o trabalho dela, para depois brincar. Mas sempre tento não forçar muito, porque ela é pequenininha. Tudo é no tempo dela", explica Lucielma. 

Patrícia diz que a filha vai para os eventos para se divertir. "Eu digo sempre: 'filha quando a gente chegar você vai tirar suas fotinhos e depois você fica à vontade para brincar'. Ela é criança, então quero que isso seja preservado". 

"Presentinhos" e muitos fãs no Instagram

A mãe afirma que Dudinha recebe muitos "mimos", como as blogueiras adultas. "Ela ganha de tudo, mas não sabe que aquilo que está chegando ela tem a obrigação de tirar foto e postar. Ela não sabe o que é Instagram direito", explica Patricia. "No dia do lançamento das roupas que levam o nome dela, tentei explicar: ‘filha, as roupinhas vão ter seu nome'. Mas ela não tem ideia da grandiosidade que é isso".

Ainda assim, Dudinha adora ver a própria imagem exibida por aí, diz Patrícia. "Algumas lojas colocam uma foto grande no meio do shopping ou banners. Quando ela se vê nessas propagandas, fica alucinada". 

Segundo as mães, as crianças menores não conseguem entender o assédio dos seguidores quando as encontram. "Ela tira fotos com fãs, mas não sabe porque estão pedindo isso. Se ela fica ressabiada, falo: 'filha, vem tirar foto com a amiguinha'. Faço questão, porque Duda não é uma estrela, não é uma global. Se as pessoas têm um carinho com ela, eu tenho que retribuir de algum jeito", revela Patrícia.

Catharine diz que Malu sabe que tem muitos seguidores e, embora não tenha a real dimensão desse alcance, já criou outro Instagram pessoal, para poder interagir só com as amigas.

"Existem muitas pessoas que a seguem e que ela não conhece, até gente de fora. É uma coisa que eu monitoro muito. Quando chega algum perfil, como eu costumo dizer, 'mal-assombrado', eu vou lá e bloqueio. Tento fazer isso, mas é difícil você controlar quem são os seguidores. Temos grupos de mães de miniblogueiras no WhatsApp e a gente coloca lá 'olha, esse perfil aqui só segue crianças, não tem nenhuma foto'. Aí você vai lá e bloqueia", explica a mãe de Malu.

Rivalidade velada entre mães 

Como entre as mães de misses ou de atores infantis, as responsáveis pelas miniblogueiras contam que também existe certa competitividade nesse meio, embora ela seja disfarçada. "Rivalidade entre as mães existe, mas é velada. Entre as crianças não há: onde elas se encontram brincam e ficam gravando vídeos. Minha filha mesmo estuda com três blogueirinhas e, além de estarem juntas, vão para o evento juntas", diz Catharine. "Mas quem faz a rivalidade é a mãe. Essas coisas acontecem, mas eu não passo para a Malu, ela nem imagina, e eu fico na minha. 

Reprodução/Instagram
"Caí nesse mundo por acaso. Quando me dei conta, Duda já estava bastante conhecida", conta a mãe Imagem: Reprodução/Instagram

A remuneração das "blogueirinhas" acontece principalmente por permuta ou parceria. Para cada foto de look postado no Instagram de Zayra, por exemplo, a garota ganha mais cinco peças. "Se olhar lá, ela não tem foto com look repetido e eu posto todos os dias. Então pensa, são 365 looks por ano, praticamente. Vestir ela assim seria uma despesa muito grande, tem looks de R$ 200, de R$ 500", conta Sara.

"Hoje as postagens são trocadas por mimos e outros produtos, mas acho que já chegou mesmo ao patamar de cobrar, porque senão não vai valorizar o Instagram dela. A partir de um evento que ela vai fazer agora, vou fechar uma parceria fixa e ela vai começar a cobrar por postagem", revela Catharine.

Muitos fãs mandam também mensagens em privado para os perfis das crianças. "Perguntam principalmente o que ela usa no cabelo, quais produtos. Também recebo muita mensagem perguntando se vendo as coisas dela. Eu não vendo! Não acho legal, porque se ela ganhou, se eu não paguei nada por isso, por que vou vender? Se a loja parceira descobre acho que isso seria péssimo também. As roupinhas dela eu dou para quem precisa ou para amigos que têm filhas", conta Patrícia.

Psicólogos alertam para a superexposição

Especialistas em comportamento infantil ouvidos pela reportagem criticaram a superexposição a que as celebridades mirins do Instagram estão submetidas.

"Estas meninas acabam sendo um outdoor ambulante de uma marca, de um produto", diz Ana Olmos, psicoterapeuta especializada em crianças, adolescentes e famílias. 

A psicóloga Luciana Rocha, que atende famílias, acredita que é preciso estar atento se a criança realmente está se divertindo ao fazer isso ou se é apenas diversão para os pais. "A partir do momento em que essa criança perde a individualidade dela, ela perde a infância, perde o direito dela de poder se divertir e ter os momentos dela. Então isso passa a ser prejudicial".

As especialistas dizem que esse comportamento pode despertar a competição entre as próprias crianças, por quem tem mais seguidores.

Ana explica que, ao mesmo tempo que a criança se exibe, ela também está em uma prisão, já que precisaria estar sempre correspondendo às expectativas alheias. "Ela já está localizada num lugar de glamour, com uma série de exigências. Tem que ser um símbolo, um modelo, a porta-voz de uma empresa, de um interesse comercial. É uma responsabilidade grande, uma condição adversa ao desenvolvimento da criança".

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