Comportamento

"Era travada na cama, me libertei e ensino mulheres a dar e receber prazer"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

24/05/2017 04h00

Cátia Damasceno, 41, é especialista em sexualidade e ajuda mulheres a vencerem as barreiras sexuais e de autoestima. Mas ela já foi travada, se achava feia e incapaz e aqui conta como foi sua trajetória de se liberar e encontrar sua sexualidade.

"Terminei a faculdade de fisioterapia com 21 anos e no dia seguinte, literalmente, me casei. Não porque eu estivesse apaixonada ou sonhando com isso, não. É que eu me achava tão feia, tinha a autoestima tão baixa, que queria era casar logo por medo do meu namorado desistir de mim e terminar sozinha para sempre.

Mas a verdade é que eu também não estava pronta para casar. Era virgem, não sabia nada sobre sexo e nem imaginava o que podia ou não fazer. Para vocês terem ideia, não sabia o que era camisinha. Não é de se estranhar que engravidei logo na lua de mel.

Se Deus quiser ele vai casar comigo, porque ninguém mais vai

Sou filha de militar e minha educação foi muito restritiva. Ninguém falava de sexo e sexualidade comigo. Lembro que quando menstruei a primeira vez, achei que tinha machucado 'meu barquinho'. Eu morava com minha tia, que me disse que aquilo era coisa de mocinha e me deu um absorvente. Inocente, achei que era um band-aid.

Eu nem imaginava como podia ter prazer. Mas já tinha. Mesmo sem saber o que era masturbação, eu fazia. Eu me tocava, sentia uma cosquinha legal, então fazia. Era natural, porque meu corpo estava pronto para ter prazer, o problema é que eu não estava pronta para me relacionar sabendo tão pouco.

Meus pais eram muito controladores, eu não podia sair, não podia namorar... E ainda por cima me achava muito feia, ao ponto de só usar roupas compridas para me esconder.

Então quando conheci meu primeiro marido, aos 17 anos, a única coisa que pensei foi: 'se Deus quiser ele vai casar comigo, porque sou tão feia que ninguém mais vai gostar de mim.' Na minha cabeça, casar significava também sair daquela prisão que era a criação em casa. Eu poderia passear, me divertir, conhecer gente.

A gente não fazia nada além do básico e eu ficava cada vez mais travada

O problema é que troquei meu pai por um marido tão opressor quanto ele. Eu não podia sair sem ele, não podia nada. Ele trabalhava fora e eu ficava em casa sozinha o dia todo. Ele estava sempre cansado, não queria fazer nada à noite ou aos finais de semana. Então eu praticamente nunca saía lá de dentro, era quase prisioneira. O pior é que para ele, eu sempre dizia 'sim'.

Na cama, as coisas também não eram fáceis. Eu não sabia fazer nada além do básico e ele nunca me procurava, não inventava nada, era sempre a mesma coisa. As poucas vezes em que eu colocava uma lingerie diferente, ele falava: 'que ridículo, isso é coisa de puta.' E eu ficava ainda mais e mais travada, sem coragem de tentar qualquer coisa nova. Mas eu sempre achava que as coisas podiam melhorar e ia aceitando, deixando meus desejos guardadinhos só para mim.

Ele dizia que ninguém ia me querer

Foi aos 22 anos que eu disse 'não' pela primeira vez. Tinha o aniversário de um primo para ir. Eu, doida para sair de casa, me programei para ir, combinei com a família, arrumei roupa e tudo. Daí ele chega em casa e diz que não vamos. 'Se você não vai, eu vou', falei.

Não sei de onde tirei a coragem. Ele me disse que se eu saísse não voltaria. Mas fui, preocupada que só, mas fui. E quando voltei, lá estava ele com meu filho, me esperando. Isso me mostrou que eu podia ter minha vontade própria, fazer o que queria. Foi como me soltar de uma corda invisível que me prendia.

Ele não gostou nada da minha liberdade recém-adquirida, de eu começar a dizer não e passamos a brigar o tempo todo. Discussões homéricas. Ele dizia que eu era feia, horrorosa, que ninguém ia me querer, que eu morreria feia, triste e infeliz. E eu acreditei, por um tempo.

Fui atrás da minha independência

Até que as coisas começaram a ficar bem difíceis e eu decidi arrumar um emprego, para poder me separar. Mas como nunca tinha trabalhado, não consegui nada na minha área e fui dar aula de inglês. Com o dinheiro, porém, pude começar uma especialização em uroginecologia, para trabalhar com o fortalecimento muscular de mulheres grávidas e facilitar o parto e sua recuperação, por meio da técnica do pompoarismo.

Eu estava para me separar quando engravidei do segundo filho, então decidi tentar mais um pouco. Mas nada mudou e eu me sentia acabada, morrendo aos poucos por não poder viver. Então no aniversário de um ano do filho mais novo, assinamos a separação.

Fui fazer curso de massagem e strip-tease

Nesse meio tempo meu pai tinha morrido e com sua herança eu havia aberto uma clínica de fisioterapia para grávidas. Mas eu ainda não estava estabilizada. Tinha dias que eu chorava sozinha pensando se conseguiria alimentar meus filhos. Mas devagar as coisas profissionais iam fluindo.

No entanto, uma outra área da minha vida estava bem acabada: minha sexualidade e a autoestima. Com o seio caído de amamentar e cicatriz de cesárea, eu achava que ninguém ia querer ficar comigo. Além disso, eu não sabia fazer nada na cama. Como eu ia me relacionar com alguém?

Resolvi que eu tinha que me fortalecer e também me preparar para quando algo rolasse. Então fui procurar uns cursos: massagem, strip-tease, sedução... Sem falar no pompoarismo que eu praticava por questões de saúde, sem saber ainda que era bom para o sexo também.

Comecei uma fase de muitos aprendizados. E realmente cheguei à conclusão de que não sabia nada, foram anos de arroz e feijão e eu precisava me atualizar!

Fui aprendendo, destravando e colocando em prática as lições. Brinquei muito entre os meus relacionamentos e os homens todos elogiavam. Dava para ver que eu estava aprendendo direitinho.

Comecei a dar aulas de sexo

Um dia, uma paciente que tratou comigo durante a gravidez me procurou perguntando se eu poderia dar umas aulas de ginástica íntima para mulheres que não estavam grávidas, pois poderia ser bom para o sexo. Eu fiquei surpresa e caiu a ficha que elas podiam ter razão. Topei e formei minha primeira turma com três mulheres.

Elas contaram para amigas, que contaram para outras amigas e, de repente, eu estava dando cursos de pompoarismo para um monte de gente!

Nas aulas, eu conversava com as mulheres, ouvia suas histórias e percebia que muitas passavam pelo que eu passei também. Por isso, aconselhava com base no que vivi e aprendi. Até que isso foi se tornando algo cada vez mais forte e profissional, era algo que eu fazia muito bem!

Agora não falta sexo e novidade no meu casamento

Passei dez anos solteira, tempo que aprendi e brinquei muito. Até que conheci meu marido atual, com quem vivo um relacionamento que é outra história: sexualidade é assunto importante, que a gente fala e, claro, pratica. Tudo o que aprendi nesse tempo todo vira prática na nossa cama.

Já tivemos mais dois filhos e estamos juntos há dez anos, mas cuidamos para o fogo não apagar. Temos uma regra de todo ano fazer uma lua de mel, só nós dois, para curtir sozinhos. E sempre invisto em lingerie, géis e acessórios eróticos. Outro dia mesmo falei para ele: 'Gatão, quando vamos fazer umas coisas loucas?'

É que com os meninos, fica difícil ter tempo, mas a gente sempre procura ter o nosso momento. Quando trancamos a porta do quarto, ninguém tem que saber o que acontece ali dentro. E isso é essencial, não só para nossa relação, mas também para mim. Hoje eu sei tudo o que posso na cama, o que gosto e não deixo nada me forçar a ser diferente não.

Também aprendi que o amor é a energia que move o mundo e a sexualidade está ligada a isso. Ao encontrar minha sensualidade, fiz meu mundo funcionar melhor e é isso que quero passar para as mulheres com quem trabalho.  

 

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