Comportamento

"Eu sobrevivi à Cracolândia", conta ex-dependente que viveu seis anos lá

Arquivo pessoal
Alex Braga viveu por seis anos na Cracolândia Imagem: Arquivo pessoal

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

25/05/2017 12h29

Por anos, Alex Braga, 43, viveu nas ruas consumindo crack. Há três anos, ele largou as drogas e conta em depoimento como foi viver na Cracolândia e também o que o motivou a tratar o vício.

"Eu dormia na rua, em banco de praça, debaixo de papelão. E lá na Cracolândia a vida era assim, eu precisava dormir com um olho aberto e outro fechado. Às vezes dava medo e eu ia embora, mas acabava voltando para comprar o crack. E o vício é enorme.

O vício começou com o álcool

Isso tudo começou com o álcool, quando eu tinha 12 anos. Um pouco mais velho, na escola, tinha os meninos que bebiam antes da aula, e eu fiz parte desse grupo. No segundo ano, me ofereceram cocaína. Então, embarquei nisso.

Entrei na primeira faculdade, de administração e comecei uma segunda, de Tecnologia de Informação. Aos 24 anos, tive uma fase de entrar para igreja e tentar parar de usar a droga, que foi quando conheci minha esposa começamos a namorar, mas depois de um ano, acabei voltando a usar.

A cocaína foi me consumindo cada vez mais. E ela era cara, acabava com o dinheiro que eu não tinha. Fui demitido do trabalho, vendi carro, gastei economias, fiquei sem nada. Até que um amigo me falou: 'experimenta o crack, é mais barato e o efeito é maior'. Foi aí que tudo desandou de vez. Aos 27 anos experimentei crack pela primeira vez.

Minha família ficou sem vida por minha causa

O crack era totalmente diferente da cocaína. Não existia mais 'consumo controlável'. Ele me causava uma compulsão 100% maior. A potência era muito grande, mas o efeito acabava rápido e eu precisava de mais.

A droga foi afetando minha vida cada vez mais, meu casamento acabou e fui viver com meus pais. E eles, coitados, faziam tudo o que ouviam para tentar me ajudar. Se alguém dizia que bater resolvia, me batiam. Se ouviam que era para chamar a polícia, chamavam. E eu seguia no vício. Meu pai me botava para fora de casa, minha mãe ficava com dó e deixava voltar. Eles perderam toda a vida social, ninguém mais convidava nossa família para nada. Eles realmente queriam me ajudar.

O pior é que eu tinha consciência do que acontecia. Eu me sentia muito triste pelo que estava fazendo, mas eu não conseguia parar. A tristeza era cada vez maior e isso só fazia a compulsão pela droga também ser cada vez maior, para não sentir aquilo que eu estava passando.

Uma hora aquilo tudo chegou ao limite. Meu pai fez um acordo com a minha mãe de que só me aceitariam se eu quisesse ajuda para largar o crack e eu acabei indo para a rua, para a Cracolândia.

Arquivo pessoal
Alex Braga quando usava crack diariamente Imagem: Arquivo pessoal
Precisei aprender a sobreviver na Cracolândia

Por que a Cracolândia? Porque o crack que é vendido lá é puro e mais potente do que o que tem em qualquer outro bairro, o efeito é muito maior. Existia esse ideal entre os usuários, um ideal de ir para lá.

Lá dentro a vida é assim, você tem que dormir com um olho aberto e outro fechado. Existe muita violência, todo mundo desesperado para ter a droga. E eu, uma pessoa de família, tive ainda toda uma dificuldade de aprender a viver na rua.

Passei fome e sede. Eu mexia no lixo para comer, eu bebia restos que achava por aí. Eu precisei aprender a malandragem de como é conseguir algo para comer, para beber. E lá dentro da Cracolândia você não acha nada, precisa sair para conseguir. Fuçar lixo ou roubar.

Lá dentro existia só as barracas de drogas, todas vendidas pela facção, e os barracos ou prédios ocupados, onde todo mundo ia para usar. Você pagava com droga para poder usar um espaço para fumar a pedra e às vezes ficava dias lá, até acabar o que tinha.

Outra coisa que exista era uma necessidade de beber. Aquelas garrafinhas barrigudas de pinga, sabe? Era muito difícil ficar sem o crack, eu precisava muito consumir alguma coisa para conseguir fazer a correria de arrumar dinheiro para comprar mais. Era impossível ficar sóbrio, dava vontade de me matar se eu não tomasse nada.

Por seis anos, usei crack todos os dias

Eu ia para a Cracolândia e ficava lá duas ou três semanas. Aí começava a sentir medo, medo de ser assaltado, de me baterem dormindo. Daí eu voltava para Itaquera, algumas vezes a pé, levando mais de dia no trajeto e dormindo nas ruas. Aqui tinha um prédio ocupado que era quase uma mini-Cracolândia e eu ficava uns tempos por lá.

Sempre que conseguia mais dinheiro voltava para o centro, para gastar tudo em crack. E eu usava muito, não ficava um dia sem. Então o dinheiro do aluguel acabava rápido e eu cometia furtos, participava de roubos em grupo, para poder comprar mais.

E foram seis anos assim, dormindo na rua, fumando todo dia e fazendo o que precisava para poder fumar. Um tempo em que eu não me enxergava, nunca estava sóbrio o suficiente para poder me olhar.

Fiquei um dia sem usar e conseguir enxergar minha situação

Em 2014 teve um dia em que eu estava chegando em Itaquera, andando na rua, todo sujo, indo até uma favela para achar droga, com os pés cheios de bolha, quando um carro passou por mim. Ele parou e quem dirigia era um companheiro que usava droga comigo na época da cocaína.

Ao me ver daquele jeito, ele disse que era psicólogo, especialista em dependência química e se propôs a me ajudar. Me colocou dentro do carro, me levou para a porta de casa e disse que voltaria no dia seguinte.

Vê-lo daquele jeito, bem, mexeu comigo. Tanto que eu fiquei ali na porta de casa. Dormi na calçada e não usei nada naquela noite. E ali eu comecei a lembrar da minha família, pensei no meu filho, em tudo que eu podia ter, como aquele me amigo, mas não tinha. Parecia que era a primeira vez em muitos anos que eu olhava para mim.

Começou a chover e eu comecei a gritar pelos meus pais. Eles abriram a porta e eu pedi ajuda. E, mesmo sem ter condições de me internar, meu pai disse que estaria comigo o tempo que precisasse.

De fato, ele deu entrada em sua aposentadoria e, com ajuda daquele amigo psicólogo, comecei no dia seguinte meu processo de recuperação. Eu já estava com 40 anos.

Meu pai passou três meses do meu lado para ajudar

Por três meses fiquei ali em casa, com meu pai o tempo todo. Eu só sentia a abstinência, um desespero enorme para usar. Mas meu pai me ajudava e esse amigo foi me orientando a buscar outras fontes de ajuda.

Ele me orientou a procurar um grupo de ajuda, chamado Amor Exigente, onde pude encontrar o apoio de outras pessoas que passavam pelo mesmo que eu. Uma identificação que me dava forças para seguir lutando. Ver gente que tinha conseguido ficar sem a droga era estimulante para mim.

Também fui ao AME Vila Maria, onde médicos me deram remédios para ansiedade e para abstinência. Confesso que no começo eu fui relutante, não queria mais química, mas me convenceram de que aquilo me ajudaria a não voltar para o crack. E, de fato, foi importante.

Hoje trabalho ajudando outros dependentes

Foi um ano e meio no processo de recuperação. Além dos grupos, do tratamento e do apoio da minha família, esse meu amigo me arrumava ocupação, atendendo o telefone da rádio onde ele trabalha. Com isso, ele me ajudava a manter minha cabeça ocupada e sentir vontade de seguir com a vida. Estudei muito também nesse período, aprendendo tudo o que podia sobre dependência química, para entender o que eu mesmo vivia.

Minha família também passou a frequentar grupos de apoio e, aos poucos, fui retomando o contato com meu filho mais novo, que também ia para um grupo de crianças. Isso tudo me reaproximou da minha esposa e reatamos nosso casamento.

Depois da recuperação, eu fui estudar e me tornei acompanhante terapêutico para dependentes químicos, passando a oferecer ajuda a pessoas que encaram tudo o que vivi.

Estou há três anos longe das drogas e da Cracolândia e hoje entendo que é preciso um conjunto de fatores para poder sair dali. É preciso conseguir olhar para si mesmo, para ter vontade de largar as drogas. É essencial ter apoio da família e contato com outras pessoas, com um grupo de gente que te entende e com quem você se identifica. E também é importante ter perspectiva, que te faça acreditar que você tem motivo para querer lutar. 

 

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