Comportamento

"Não preciso ser igual a todos! Sou cadeirante, travesti e quero inspirar"

Arquivo Pessoal/Tássio Lopes
Imagem: Arquivo Pessoal/Tássio Lopes

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

26/05/2017 04h00

A mineira Leandrinha Du Art, 22, sofre de uma síndrome rara, que atrapalha o desenvolvimento dos seus ossos, mas sua autoestima e força são proporcionais às dificuldades pelas quais já passou. Sem medo de julgamentos, ela usa sua imagem para inspirar outras mulheres a se amarem. 

"Sou uma cadeirante, mulher trans e tenho uma síndrome muito rara. Eu sou uma pessoa diferente, querendo ou não. E para que eu vou me matar tentando ser uma pessoa igual às outras? Por que eu vou tentar passar desapercebida, sendo que a minha própria condição faz com que as pessoas olhem para mim?

O que eu faço é aceitar que sou diferente e coloco toda minha essência para fora. Por que não valorizar o meu corpo? Meu corpo é uma vitrine. Eu quero que outras mulheres me olhem e pensem: 'ela está bem com ela mesma, por que eu não posso?'.

E é isso que acontece, hoje recebo mensagens de mulheres de todo o Brasil, contando que me conhecer fez com que mudassem a relação com seu próprio corpo. Isso me deixa muito feliz, porque eu mesma já precisei passar por esse processo de aceitar e amar quem eu sou.

Tanto que hoje posso me chamar de travesti sem medo. Para quem não sabe, mulher trans e travesti significam a mesma coisa,  mas a sociedade chama de travesti a prostitua da esquina, ela está marginalizada. De maneira geral, não é legal usar esse termo. Mas quando eu uso é para chamar atenção das pessoas, para que elas reflitam. Por que eu sou a mulher trans e a moça da esquina é travesti? Qual a diferença? Foram só as oportunidades. E eu tive muita sorte com as oportunidades que tive. 

"Passei minha infância no hospital"

Nasci com uma síndrome rara chamada Síndrome de Larsen, que afeta o desenvolvimento dos ossos. Por causa dela, passei praticamente minha infância no hospital: foram 23 cirurgias para corrigir os meus problemas ósseos. Isso me fez amadurecer muito. Afinal, eu tinha de lidar com o medo de morrer desde muito cedo e acabava não conseguindo ter preocupações típicas de crianças.

A minha relação com meu corpo também não era simples. Eu me olhava no espelho e não me identificava. Tinha vergonha do meu corpo. Meus braços têm uma má formação por causa da síndrome e eu não queria que ninguém visse. Só usava roupas largas para disfarçar. Além disso, eu já não me identificava como menino, mas eu não conseguia ainda entender quem eu era.

Na adolescência eu sofri mais ainda. A época da escola foi uma das piores, porque para uma pessoa trans é muito pesado. As pessoas te olham, elas sabem que você é diferente e te julgam por isso. Em um momento em que nem eu entendia muito bem quem eu era, vivia um processo de me entender, me aceitar.

Arquivo Pessoal/ Tássio Lopes
Imagem: Arquivo Pessoal/ Tássio Lopes
"O menino mais bonito da escola quis ficar comigo"

Sozinha era como eu me sentia. Para mim, eu era um menino que não gostava de meninas. Mas ao mesmo tempo, olhava para as meninas e pensava 'quero ser como elas'. Eu me desejava como menina. Isso só piorava minha relação com meu corpo.

Tudo começou a mudar quando eu tinha uns 17 anos. Um menino, o mais bonitinho da sala, um dia me cercou no banheiro e disse: 'tenho tantas bocas para beijar, mas eu quero beijar a sua e você não quer'. Eu não quis, mas aquilo me fez refletir. Se até o cara mais lindo da escola queria ficar comigo, por que eu não podia me dar valor?

E depois disso eu comecei a me cuidar mais, a mostrar meu corpo. E me assumi gay também. Só não comecei minha transição porque eu ainda estava entendendo quem eu era. Faltava informação, faltava ter pessoas parra quem eu olhasse e pudesse me identificar. Então fui devagar entendendo a minha relação com o ser menina.

Um processo que levou ainda um ano para que eu entendesse que sou trans e começasse minha transição. E devo dizer que tive muita sorte, pois desde o primeiro minuto, meus pais estiveram ao meu lado, dando apoio. Minha mãe até disse que já sabia! Hoje ela me ajuda a escolher minhas calcinhas.

Arquivo Pessoal/ Tássio Lopes
Imagem: Arquivo Pessoal/ Tássio Lopes
"Eu beijo quem eu tenho vontade, dou para quem eu tenho vontade"

Já me vestindo e me impondo como Leandrinha, comecei a lidar melhor ainda com minha autoestima e também passei a encarar a questão da minha sexualidade. Como eu vou me sentir desejada? Como as pessoas vão passar a me desejar?

Nessa época, comecei a ter vida sexual. O que foi um processo bem lento, porque eu ficava insegura, tinha receio de ser rejeitada. Mas fui percebendo que era a minha postura que fazia diferença. Quando passei a me dar conta do quão gostosa eu sou, do quão poderosa eu sou, o olhar das pessoas mudou. Eu percebi que tinha em mim o poder de seduzir.

O triste é que as pessoas, em geral, ainda olham para quem tem deficiência como se não tivesse sexualidade, como coitadinhos. Mas euzinha não deixo nada para trás. Eu faço o que eu tenho vontade, eu beijo quem eu tenho vontade, eu dou para quem eu tenho vontade. E ainda escrevo contos eróticos sobre o que vivo.

"Eu escolhi ser feliz"

Então hoje eu sou essa pessoa aqui, que não faz questão nenhuma de ser igual. Minhas roupas são diferentes, meu cabelo é coloridão e é minha assinatura e eu amo posar para fotos. As mulheres olham para a minha imagem e se identificam de alguma forma, mesmo eu não sendo padrão. Mas o que é padrão? Mulher alta, loira, com peitão? Eu não sou padrão mesmo. Me aceito do jeito que sou e quero que as outras mulheres se aceitem do jeito que são.

A vida é isso. Ou a gente a gente se aceita, ou a gente vai pro quarto se isolar do mundo e de todos e viver uma vida infeliz, deixando de aproveitar o que há de bom. Eu escolhi ser feliz e espero inspirar muitas mulheres a fazerem essa escolha."

 

Você também tem uma história interessante? Conte para nós! Envie para sua-historia-estilo@bol.com.br

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