Comportamento

"Me sinto grato todos dias por ter retirado os seios", relata jovem trans

Arquivo Pessoal
Jonas Vilela, 26 anos, resolveu retirar as mamas e assumir sua identidade masculina Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Stefanelli

Do UOL, em São Paulo

29/05/2017 04h00

Na novela "A Força do Querer", Ivana (Carol Duarte) vive o drama da inadequação ao corpo feminino. Em uma das cenas mais impactantes, a personagem - em descoberta de sua transexualidade - esmurra os seios.

O universitário mineiro Jonas Vilela, 26 anos, entende a angústia pela qual passa Ivana. Há dois anos, quando ainda era Josiane, ele tomou a decisão de retirar as mamas. Foi o primeiro passo rumo à identidade masculina, com a qual sempre se identificou. Ao UOL, o universitário falou sobre os altos e baixos pelos quais passou em sua transição.

"Desde criança não me conformava em limitar meu corpo a comportamentos 'de menina'. Não podia sentar de pernas abertas, era obrigado a usar saias, vestidos e blusas de alcinhas. Quando cresci, passei a escolher minhas roupas nos setores masculinos das lojas. Como sempre tive uma aparência meio andrógina, isso contribuía para que os vendedores achassem que eu era um rapaz.

Sempre me senti atraído pelo sexo feminino, mas me entendia como uma mulher lésbica e masculinizada. Nunca me achei um homem preso no corpo de uma mulher e não me entendo dessa forma. O que aconteceu foi que me dei conta de que existiam outras formas de me expressar e de modificar meu corpo como eu queria.

Tenho dois amigos íntimos e uma prima que me ajudaram muito nessa transição. Eles nunca me julgaram e sempre se mostraram orgulhosos de mim. São pessoas cuja amizade é incondicional, tenho sorte de tê-los. Mas foi a minha namorada [a youtuber Nátaly Neri, no vídeo abaixo o casal conta como se conheceu] a pessoa mais fundamental nesse processo. Estamos juntos há quatro anos e meio e ela nunca me abandonou.

Quando decidi fazer a cirurgia de retirada das mamas e dar início ao tratamento hormonal tinha muitas dúvidas. Se eu conseguiria ter uma vida digna depois da transição para o sexo masculino era uma delas. Infelizmente muitas pessoas trans vivem de modo marginalizado e ainda há muito preconceito."

"Ainda me pego apreciando meu peitoral"

"Mas não havia outra saída. Eu simplesmente não me sentia conectado aos meus seios, preferia não tê-los. No final de 2015, resolvi fazer a minha cirurgia de retirada das mamas e livrar meu corpo desta característica tão feminina. Nunca tive certeza se me operar seria a decisão certa a tomar.

Reprodução/Instagram
Jonas Vilela exibe o resultado de sua cirurgia de retirada de mamas Imagem: Reprodução/Instagram
A única forma de saber, com certeza, seria operando, então operei. Disse a mim mesmo que me responsabilizaria por essa atitude e que, se me arrependesse, não culparia ninguém. Antes da cirurgia, já havia me preparado psicologicamente para isso.

A terapia é obrigatória quando se trata de redesignação sexual. Caso você queira se hormonizar ou se operar, precisa ter um laudo psiquiátrico. Só fiz terapia para conseguir o laudo necessário, hoje em dia não faço mais.

Outro ponto que foi fundamental na minha decisão foi compreender que seios são apenas seios. Tê-los ou não, não mudaria nada. Não tê-los não me faria homem, da mesma forma que tê-los não me faria mulher.

Não há um dia sequer que eu na me sinta grato por ter tomado essa decisão de retirar os seios. Minha namorada foi quem me acompanhou durante a cirurgia e me deu o suporte necessário durante o pós-operatório." 

"Achava que as pessoas julgavam minha sem-vergonhice"

"Felizmente, não tive nenhuma complicação e, em um mês, já tinha recuperado todos os movimentos e força.

Vestir uma roupa depois da retirada dos seios, foi uma experiência interessante. Parecia que eu tinha nascido daquele jeito, sem seios. A camisa caiu suave e lindamente em mim. Sentir o tecido contra meu peitoral foi delicado e prazeroso. Mas teve também o outro lado.

No começo, me sentia nu, achava que as pessoas olhavam e julgavam minha sem-vergonhice de sair com os mamilos despidos, mesmo estando de camisa. Faz um ano e meio que fiz a cirurgia e eu ainda me pego apreciando o reflexo do meu peitoral nos espelhos e vidraças da rua, quando saio sem camisa".
 
João Miguel Júnior/TV Globo
Ivana (Carol Duarte) se incomoda com a própria imagem refletida no espelho, em "A Força do Querer" Imagem: João Miguel Júnior/TV Globo

"Nunca falei sobre isso com a minha mãe"

"Oficialmente, minha família ainda não sabe da mudança, inclusive minha mãe. Não temos muita relação, apesar de ainda morarmos juntos. Quando voltei para casa depois da cirurgia, eu já estava bastante recuperado. Fiquei na casa da minha namorada em São Paulo nas semanas pós-cirurgia. Minha mãe não demonstrou perceber nada.

Eu não tento esconder nada dela, as evidências estão por toda parte. Tenho meus hormônios guardados no guarda-roupa, basta ela abrir para ver. Talvez ela já tenha aberto, mas acredito que ela não queira falar sobre isso ainda.

Não odeio meu corpo e me sinto muito confortável com meu sexo. Sequer considero fazer uma cirurgia de redesignação genital [Segundo Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas de SPa maioria dos homens trans não faz essa cirurgia, pois esperam uma melhora técnica do procedimento. O método mais comum é o aumento do clitóris aliado ao uso de hormônio masculino, que faz com que ele cresça até 6 cm e fique semelhante a um pênis pequeno].

Contudo, comecei a tomar hormônios há um ano. Iniciei com uma dose baixa e venho gradativamente aumentando, conforme me sinto mais confortável, tentando não pôr em risco minha saúde. Como muitas pessoas dentro da comunidade trans, comecei a hormonização sem o auxílio de um médico. Hoje, no entanto, já faço com a ajuda de um endocrinologista.

Acredito que, quando se trata da transição, não há uma narrativa preestabelecida, não há limites. Você pode ou não se operar, pode ou não mudar seu nome, pode ou não tomar hormônios e pode ou não combinar todas essas coisas. Faça o que quiser e como se sentir mais confortável."

"Quero ter uma vida simples e digna"

"Passei a usar o nome 'Jonas' quase sem perceber. Era o apelido do meu avô e eu raramente tinha contato com alguém que tinha esse nome. Todas as vezes que o ouvia, achava um nome bonito. Dizia a mim mesmo que chamaria um filho assim, pois essa era a melhor perspectiva que tinha na época. Quando me dei conta que eu mesmo poderia usá-lo, usei.

Me sinto uma pessoa privilegiada por não ter sofrido tanto preconceito. Meu círculo social é reduzido, composto basicamente por universitários de humanas, que, geralmente, são mais abertos a essas questões, e tudo isso me poupa de muitos preconceitos.

Não sou uma pessoa que visa um futuro muito distante, nem tenho grandes sonhos para os anos seguintes. Tento me preocupar mais com o agora, em ser grato pelo que já tenho e pelas pessoas que me rodeiam. Quero apenas viver uma vida simples e digna e encontrar satisfação nas coisas que faço."

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