Comportamento

"Aqui ninguém é de ninguém": dança e muita paquera em baile da 3ª idade

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

02/06/2017 04h00

A mulher de Antônio Macedo, 77, era ciumenta e não gostava de dançar. Ele sempre gostou. Passaram 33 anos juntos, até que ela morreu. Ele deixou de lado outra paixão, o futebol, e hoje dança. Muito. “Bem melhor estar com esse monte de mulher cheirosa do que no meio de um monte de homem suado”, diz o senhor elegantemente vestido para mais um baile da terceira idade do Parque da Água Branca, em São Paulo.

No sábado (20), Macedo chega com Maria, 60. É sua companheira de dança. “Estamos só ficando. Aqui ninguém é de ninguém”, ele esclarece. No baile de quinta-feira (25), ele estava acompanhado de Terezinha, 52. Durante quatro horas, ele circula pelos dois galpões do evento sorrindo, conversando e, claro, botando suas companheiras para dançar. Toninho gosta especialmente de samba e pagode, mas não escolhe gênero para gingar. “Danço o que aparecer pela frente.”

Traje elegante

Há cerca de 20 anos, senhores elegantes dançam das 13h às 17h, toda terça, quinta e sábado. Homem só pode entrar de calça social, e mulher deve evitar vestidos ou saias curtas. Aos sábados, dia mais movimentado, cerca de 1.100 pessoas bailam ao som de uma banda, que toca samba, pagode, forró e valsa, entre outros ritmos. A animação dos dançarinos é de fazer inveja a muita gente jovem que “morre” depois de pouco tempo na balada.

Só quem tem mais de 50 anos pode entrar. E não imagine que, por serem mais velhos, eles não causam situações parecidas com as de baladas frequentadas por jovens. Como os do Villa Country, famosa casa noturna logo ali do outro lado da avenida Francisco Matarazzo. É o que conta Marco Antônio Lucena, voluntário da entidade que organiza o baile. Para evitar problemas, nenhuma bebida alcoólica é servida no local, e quem chega bêbado não passa da porta.

Clima de paquera

Quase ninguém esconde que está ali também para arrumar namorados ou ficantes. O flerte está no ar. “Não dá nem para entrar que a mulherada já te agarra para dançar”, diz Jorge Soares, 90, que reclama de muitas mulheres sumirem. “O ruim é que você conhece a mulher e depois não a encontra nunca mais”. Até ali, ele não havia encontrado uma frequentadora com quem, dá a entender, tinha um caso em andamento. “Já arrumei uma aqui com quem passei quatro anos”, conta ele.

José Machado Silvério, o Gaúcho, 80, lembra os sambistas da velha guarda. Ele vai acompanhado de Benê, 77. “Danço aqui há 12 anos”, diz ele, para quem as amizades são a melhor parte do baile. Ao escutar sobre a elegância de seu parceiro, Benê diz que tal qualidade se deve ao fato de ele ser “alto e magro”.

As duas pistas ficam abarrotadas de gente dançando. Ao redor delas, vários idosos ficam sentados. Estão tímidos demais para dançar ou aguardam o convite de alguém. A maioria das duplas dança em ritmo suave. Do lado de fora, pessoas literalmente barradas no baile observam tudo com os rostos grudados nas janelas. Eles não puderam entrar por problemas com álcool ou porque não têm a carteirinha necessária.

Trem, ônibus e metrô

Grande parte dos frequentadores é das classes C e D, de bairros distantes onde opções de lazer para a terceira idade são escassas. Eles não se incomodam com longas viagens de trem, metrô e ônibus. Antônio Rodrigues da Silva, por exemplo, tem 78 anos e mora no Jabaquara, na Zona Sul, enquanto a namorada Josefa Pereira Pinho, 65, vive em Carapicuíba, na Grande São Paulo.

O casal frequenta o baile há muitos anos. No começo, ambos eram casados com outras pessoas e apenas amigos. Mas o tempo passou, eles ficaram viúvos e seguem dançando grudadinhos, agora como namorados. “Cada vez saímos da casa de um de nós. A gente se encontra e vem junto para cá”, diz Josefa. Bolero e lambada estão entre as especialidades de Rodrigues. “Eu que ensinei ela a dançar”, diz, orgulhoso, enquanto a namorada faz cara que de quem não concorda muito.

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