Comportamento

"Venci um câncer e criei uma rede de doação de lenços para 6 mil pacientes"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

05/06/2017 04h00

Diagnosticada aos 23 anos com um tipo de câncer de mama raro e agressivo, Evelin Scarelli, 29, conseguiu se manter positiva durante o todo o tratamento. Durante o processo, ela encontrou uma forma de passar sua força adiante criando um projeto de doação de lenços que já atingiu mais de 6 mil mulheres com câncer.

"Quando estava em tratamento, pesquisei na internet e tudo que encontrava sobre o câncer era muito negativo. Mas o que eu vivi, apesar de difícil, não foi tão horrível assim. Pode não ter sido uma experiência boa, mas foi transformador. Mudou a forma como eu vejo o mundo, como eu enxergo a vida. Aos 23 anos eu entendi que não era imortal, como a maioria das pessoas jovens pensam, e isso me fez passar a valorizar cada momento. E quando me recuperei, quis passar isso adiante, não só o que eu aprendi, mas também minha gratidão por viver. E cada lenço que enviei desde então significa isso.

Tudo indicava que era só um nódulo de gordura

Minha batalha começou em uma manhã de domingo, quando acordei, espreguicei e acabei tocando meu seio. Senti um caroço ali, bem grande, que estranhei. Fui a um mastologista na mesma semana.

O médico perguntou se eu tinha histórico de câncer na família e me examinou, concluindo que provavelmente era apenas um nódulo de gordura. Mas me pediu um ultrassom, que dias depois confirmou a tese sobre o nódulo.

No retorno, ele disse que não havia necessidade de tirar. Mas até hoje não sei o que me deu na hora, eu disse que queria tirar, que aquilo estava me incomodando e insisti até que ele concordasse.

Na época eu fazia faculdade e morava com meus pais em São Paulo, mas como estava de férias fiz isso tudo em Atibaia, cidade onde cresci. E durante as férias mesmo fizemos o procedimento para tirar o nódulo. Foi tranquilo e segui com a vida, curti as férias e relaxei.

Mais ou menos um mês depois meu pai me ligou e pediu para me encontrar, pois o médico precisava falar conosco. Estranhei, mas até aí não imaginava o que vinha pela frente. Tanto que fiquei completamente sem reação ao receber a notícia. Na verdade, nem o médico acreditava, tanto que passou a biópsia por três laboratórios diferentes para ter certeza do resultado.

Mas infelizmente era verdade, eu tinha câncer um tipo raro de câncer de mama, principalmente pela minha idade e por não ter histórico na família.

Arquivo pessoal
Evelin Scarelli teve alta completa no final de 2016 Imagem: Arquivo pessoal
Em menos de um mês retirei o seio e comecei a químioterapia

Lembro que na hora eu só conseguia pedir desculpas para o meu pai. Não sei bem o que passou pela minha cabeça, mas me senti mal por todo sofrimento que traria para minha família. Pedi ao médico um tempo para pensar sobre tudo, mas não seria possível: uma equipe já estava me esperando para fazer exames pré-cirúrgicos e eu precisaria tirar aquela mama o quanto antes.

Saí do consultório direto para o exame. Era dia 17 de dezembro e minha cirurgia foi marcara para o dia 31. Para não estragar o Natal de todos, somente eu, meu irmão e meus pais soubemos de tudo até então.

Operei na virada do ano e retirei o seio, fazendo ali na hora já a reconstrução. Isso, porém, não era suficiente. No dia 3 de janeiro comecei a quimioterapia, que me debilitou muito.

Descobrimos ainda no meio do processo que a quimioterapia não funcionaria com meu tipo de tumor e tive de mudar para a radioterapia, da qual faria 28 sessões.

Eu queria contar para as pessoas que estava bem

Durante todo o processo, fiquei em Atibaia, em uma casa no sítio, vivendo em uma bolha. O tratamento acabou com as defesas do meu corpo, então eu fiquei muito frágil e podia ficar doente por qualquer coisa. Não sei dizer quantas vezes fui internada, mas foram várias, sempre muito frágil.

Por seis meses, fiquei isolada, só em contato com a minha mãe. Apesar da dificuldade, eu não me deixava cair. Me obrigava a ser forte, a sobreviver, pelos meus pais. Até tinha momentos de tristeza, de frustração e medo, as eram poucos comparados a tudo o que eu sentia por eles.

Isolada no sítio, foi quando comecei a fazer buscas na internet por mais informações e apoio e encontrei muito pouco. Ao mesmo tempo, as pessoas todas haviam se afastado de mim. Isso é uma coisa bem comum no câncer: quando você fica doente, todo mundo tem medo de te perguntar como você está, por medo da resposta.

Mas eu estava bem, dentro do possível. Eu sabia que ia ficar tudo bem e queria contar isso para as pessoas, eu queria que me perguntassem. Por isso criei um blog, chamado Lenço cor de rosa, que era a cor do primeiro que ganhei.

Lá eu contava como estava, compartilhava meus pensamentos e conheci muita gente que me deu apoio e que pude apoiar na luta contra o câncer.

Decidi doar meus 17 lenços para outras pacientes

Após seis meses, as sessões de rádio terminaram e eu saí da bolha. Meu cabelo voltou a crescer e eu já não precisava mais dos meus lenços. Guardei-os por um tempo até que decidi que precisava fazer algo com eles. Usá-los como acessório seria injusto, eles me acompanharam em uma fase tão intensa.

Então tive um sonho em que eu dava o lenço para uma senhorinha careca e, ao acordar, decidi fazer isso. Fiz um anúncio online e doei os meus 17 lenços para mulheres em tratamento de todo o Brasil.

Escrevi uma carta a mão para cada uma em que dizia: 'eu só quero que você saiba que eu tive câncer, que eu terminei a quimioterapia e hoje estou bem e vai ficar tudo bem com você também'.

Mas o anúncio fez tanto sucesso que outras mulheres começaram a enviar seus lenços para minha casa, enquanto outras pediam a doação. De repente, fui transformando meu caso em uma base de doação de lenços, que eu encaminhava um a um.

O problema é que eu não trabalhava e estava usando o dinheiro dos meus pais para isso  e estava ficando inviável, porque a postagem ficava cara. Então uma amiga sugeriu que eu fizesse uma vaquinha. No começo, achei que ninguém iria ajudar, mas tentei mesmo assim.

Cheia de vergonha, pedi 500 reais para bancar um mês de envios e, para minha surpresa, em 15 dias tinha arrecadado quase o dobro! Foi um sucesso e o envio dos lenços pode continuar. O retorno que eu recebia das pessoas era maravilhoso. Lembro de uma mulher que me mandou a foto de sua sogra vestindo um lenço que ganhei da minha avó e dizia: 'foi a primeira vez em meses que vi minha sogra sorrindo'.

Arquivo pessoal
"Eu nunca perdi o bom humor e o pensamento positivo" Imagem: Arquivo pessoal
Fui contratada por uma ONG para dar continuidade ao projeto

Nesse tempo, eu seguia com um tratamento hormonal, para evitar que o câncer voltasse e estava até que bem de saúde. Um dos poucos problemas que tive foi com a minha prótese, que meu corpo rejeitou e precisou ser recolocada outras três vezes nos últimos cinco anos.

Lá em 2012, graças ao meu projeto com os lenços, fui chamada para falar em uma ONG chamada Oncoguia. Fui decidida a doar meu projeto para que eles dessem continuidade, mas, para minha surpresa, a presidente da instituição decidiu meu contratar para dar continuidade a ele lá de dentro!

Com essa estrutura, passamos a receber mais doações e a chegar mais longe. No total, já impactamos mais de seis mil pessoas!

Minha mãe também teve câncer e foi muito pior para mim

Dois anos depois que terminei a radioterapia, minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama. Foi o pior momento da minha vida, de longe. Eu olhava para ela e pensava que não podia fazer nada para mudar sua dor. Foi muito difícil. Principalmente porque ela viveu todo um processo que não vivi, de espera do diagnóstico, que é muito sofrido.

Foi aí que eu comecei a me questionar de um monte de coisa que não tinha questionado quando era paciente. Por que ela? Por que passar por isso? Qual era o sentido? Até a vontade de escrever eu perdi nesse período. E percebi nisso que quando o assunto é câncer, é muito pior ser familiar do que paciente. Mas isso tudo nós também superamos e minha mãe se recuperou. E eu percebi que nós tínhamos o resto da vida pela frente, e a gente precisava aproveitar.

Hoje eu quero viver tudo

Desde então eu faço acompanhamento médico. Fiz o tratamento hormonal por cinco anos e meu oncologista é maravilhoso. E não cuidava só do meu corpo, mas também da minha mente. 'Você já sobreviveu, agora vai viver', foi o que me disse depois que minha mãe se recuperou. E então passou a me fazer prescrições para a vida a cada consulta. 'Agora você vai correr', 'agora vai escrever sobre um assunto que não seja câncer', 'agora vai encontrar um namorado'...

Engraçado é que depois de três meses, de fato comecei a namorar. Venci o meu medo de ser um peso na vida de alguém e conheci um homem incrível, em 2014. O João me trouxe tanta coisa boa! Ao seu lado eu vivi muita coisa boa e vou viver muito mais: estamos noivos e nos casaremos em três meses.

E em dezembro de 2016 eu recebi a verdadeira alta! Agora só preciso fazer acompanhamento médico, sem remédios.

Hoje eu procuro fazer o que me faz bem. Eu me cuido, porque tenho medo de morrer, porque quero casar com o homem mais incrível do mundo, ter filhos e ver meus filhos crescendo. Eu quero viver tudo e muito cuido muito para isso. Esse amor pela vida foi algo que aprendi a ter após a doença e é isso que procuro passar adiante sempre. 

Você também tem uma história interessante? Conte para nós! Envie para sua-historia-estilo@bol.com.br

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