Comportamento

Escândalo lá fora e cartilha educativa aqui: como a Uber lida com o assédio

Geoffroy Van der Hasselt /AFP
Imagem: Geoffroy Van der Hasselt /AFP

Vivian Ortiz

Do UOL, em São Paulo

09/06/2017 16h20

A Uber demitiu 20 funcionários na última quarta-feira (7), após investigar uma série de denúncias de assédio. O estopim foi o depoimento da ex-funcionária Susan Fowler, sobre o ano em que passou trabalhando na empresa. A engenheira alega ter sido assediada de forma moral, sexual e sexista por seus superiores, ressaltando que todas as queixas feitas no departamento de recursos humanos foram ignoradas.

Na época, o texto tornou-se um viral e o próprio CEO da empresa,Travis Kalanick, comentou a história em sua conta oficial no Twitter: "O aqui descrito é abominável e vai contra tudo aquilo em que acreditamos. Qualquer pessoa que se comporte dessa forma e considere que está OK será demitido" (veja o post original, em inglês, abaixo).

Logo após o depoimento de Susan vir à tona, uma outra ex-funcionária, que se identificou com o nome fictício de Amy Vertino, também divulgou um texto, intitulado "Eu sou uma sobrevivente da Uber, onde definiu seu tempo na empresa como "esgotante, implacável, emocionante e desgastante", relatando situações parecidas com as descritas por Susan.

Um escritório de advocacia foi contratado para analisar 215 queixas de funcionários. Vários executivos seniores, incluindo chefes de finanças, de crescimento, de engenharia e de políticas e comunicações deixaram a empresa. E duas executivas mulheres foram trazidas para tentar melhorar a imagem da Uber, que ainda prometeu aumentar a diversidade, tanto de gênero quanto racial, em seu quadro de funcionários.

36,1% da força de trabalho global da Uber é formada por mulheres, sendo que apenas 22% ocupam papéis de liderança. Embora os números sejam baixos, Facebook (17%), Google (19%) e Twitter (15%) dão menos espaço ainda. 

Procurada pela reportagem do UOL, a filial da Uber no Brasil destacou que os problemas revelados pelas ex-funcionárias ocorreram exclusivamente na matriz, nos Estados Unidos. Questionada sobre o número oficial de funcionários aqui, além de quantos motoristas parceiros atuam usando o aplicativo, inclusive o número de mulheres, a empresa não respondeu até o fechamento da matéria. Caso a empresa se manifeste, este link será atualizado.

Educando no Brasil

Reprodução
Imagem: Reprodução

Por aqui, uma das questões que mais mancham o nome da Uber é o assédio sofrido por passageiras. Na tentativa de mudar o cenário, eles iniciaram um trabalho de educação, feito em parceria com a revista "Cláudia", e produziram um "Manual de Conduta contra o Assédio" para orientar os motoristas parceiros a evitarem situações que provoquem desconforto.

As cartilhas estão disponíveis nos 30 centros de atendimento da Uber no Brasil e na internet. De acordo com a empresa, quase 10 mil parceiros já fizeram download do material.

Nele, são dadas algumas orientações de conduta, como indicar que a cliente não deve ser tratada por apelidos ("A temperatura está agradável, meu anjo?"), ser elogiada por características físicas ("Tem olhos lindos, sabia?") nem ter a vida pessoal questionada ("você namora?"), entre outras recomendações. 

"Apagou e ficou com o seio quase exposto no meu carro"

Flávia* é uma das motoristas parceiras do aplicativo. Ela conta que passou a dirigir durante a noite por ser um período mais tranquilo para trabalhar. "O problema são as pessoas bêbadas", lembra. E é justamente por isso que a motorista diz ser importante a orientação dada pela cartilha.

"Já peguei uma passageira na balada que estava praticamente desmaiada de tão alcoolizada. Ela veio no meu carro porque uma amiga chamou a Uber para levá-la, só que apagou e não me falava o número do apartamento quando chegamos. De tão 'alta', a moça chegou a ficar com o seio quase exposto para fora da blusa. Imagina se fosse um homem mal orientado ali?", diz.

"Sensação de ser observado deve deixar o cara desconfortável"

Casos de assédio ou abuso em relação a motoristas mulheres que atuam na Uber parecem ser raros. Em um grupo fechado no Facebook, que reúne motoristas parceiras de São Paulo, várias delas contam que nunca passaram por nada do tipo, e que os elogios, quando ocorrem, não costumam ser invasivos.
 
Trabalhando com a empresa há 17 meses, Carla* diz que nunca teve problemas. "Acredito que pelo fato dos passageiros também serem avaliados, inibe. A sensação de ser observado deve deixar o cara desconfortável".
 
A empresa informa que tanto o passageiro quanto o motorista parceiro estão no mesmo patamar de importância. Isso significa que, ao fazer algo grave dentro do veículo --como assediar sexualmente o outro ou tratar de forma grosseira-- isso pode ser reportado para a empresa tanto por um quanto pelo outro. 
 

Se a queixa for comprovada, o custo da corrida pode ser ressarcido e o culpado ser bloqueado do aplicativo, motorista ou passageiro. 

No caso do motorista, não pode mais pegar ninguém pelo aplicativo e, se for passageiro, não consegue mais pedir nenhum carro da Uber. A recomendação, caso a polícia precise ser acionada, é fazer um boletim de ocorrência. De acordo com a empresa, os dados relativos à viagem podem ser divididos seguindo o processo legal --com autorização judicial, que é pedida por um delegado ao começar uma investigação criminal.
 
*Os nomes foram mudados a pedido das entrevistadas.

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