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"Vou comemorar o Dia dos Namorados com meu marido na prisão"

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Imagem: iStock

Bárbara Therrie

Colaboração para o UOL

10/06/2017 04h00

Prestes a celebrar pela segunda vez o Dia dos Namorados na prisão, Fabiana*, 27, fala sobre a expectativa de comemorar a data com o marido, Marcelo*, 26, numa cela com muitas pessoas, e o que espera da relação, que já dura cinco anos.

“A primeira vez que eu vi o Marcelo foi em janeiro de 2012. Ele estava passando na rua, o achei bonito e comentei com um amigo, que nos apresentou. Dois dias depois, a gente se viu em um baile e a iniciativa partiu de mim. Após encará-lo por um bom tempo, ele me perguntou o que eu queria e fui direta: ‘ficar com você’. Nesse primeiro encontro, Marcelo foi sincero e me disse que era traficante de drogas.

No dia seguinte, eu estava andando pela vila quando umas amigas me disseram que a polícia estava abordando ‘meu ficante’. Fiquei desesperada e fui atrás da família dele. Nesse meio tempo ele apareceu na casa da avó e contou que havia apanhado dos policiais. Para salvar o filho, que na época tinha 21 anos, a mãe o levou para passar um período com ela, no Riacho Grande, um bairro bem afastado de onde morávamos em São Bernardo do Campo (SP). Naquele momento pensei: ‘nunca mais vou vê-lo’.

Eu estava enganada: 15 dias depois já estávamos juntos novamente. Toda sexta-feira eu ia visitá-lo na casa da mãe e voltava no domingo para São Bernardo. Eu tinha 22 anos e nem imaginava que essa rotina de visitas iria se estender por um longo tempo, muito menos que esses encontros seriam na cadeia. Quando completamos dois meses, recebi a notícia de que ele havia sido preso, acusado de furtar um fio telefônico.

Tivemos intimidade numa cela com 16 pessoas

Minha primeira experiência na prisão foi horrível e assustadora. A pior parte foi a revista feminina; fiquei com muita vergonha e constrangida de ficar pelada na frente de uma agente penitenciária que eu nunca tinha visto antes.

Como trocas de presentes são proibidas no Centro de Detenção Provisória de São Bernardo do Campo, levei o bolo de chocolate favorito do Marcelo no nosso primeiro Dia dos Namorados. Durante a visita, o ‘mozão’, apelido carinhoso pelo qual eu o chamo, disse que aquela não era a forma como ele queria celebrar a data e prometeu melhorar quando saísse.

Tivemos nosso momento de intimidade numa cela com 16 pessoas, entre detentos e visitantes. O espaço tinha algumas treliches de cimento com colchões, e cada preso escolhia em qual cama ficar com sua companheira. Marcelo fez uma cabaninha improvisada com cobertores para evitar nossa exposição, fiquei insegura, mas conseguimos ter privacidade. Os outros presidiários fizeram o mesmo e todos conseguiram curtir sem ficar olhando o que o outro estava fazendo.

Descobri que estava grávida

Depois de seis meses na prisão, Marcelo foi libertado e no mês seguinte descobri que estava grávida. Já tinha uma criança de outro relacionamento. Durante a gestação, o ‘mozão’ finalmente conheceu meus pais e me assumiu de verdade. Com quatro meses de gravidez, alugamos uma casa com a ajuda dos familiares. Apesar da dificuldade em conseguir um emprego formal por causa das prisões, já que ele havia sido preso duas vezes antes de nos conhecermos, ele conseguiu uns bicos como ajudante de pedreiro.

Tudo parecia bem, até que depois de um mês morando juntos, Marcelo foi demitido e tinha ido buscar o pagamento na antiga empresa, quando voltava em um ônibus que foi parado pela polícia. Os policiais revistaram as pessoas lá dentro e forjaram que ele estava com uma arma, mais uma vez ele foi para a cadeia.

Ninguém queria me contar da prisão dele porque eu estava grávida, mas eu senti, já sabia o que tinha acontecido. No começo, até o visitei algumas vezes com o barrigão, mas como tive uma gravidez de risco por causa de estresse e perda de líquido, não consegui vê-lo no nosso segundo Dia dos Namorados. No dia 20 de junho de 2013, nossa filha nasceu prematura, com 36 semanas. Levei a bebê com um mês de vida para conhecer o pai, que ficou com os olhos cheios de lágrimas quando a viu, foi emocionante.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Encontramos nas cartas a forma de expressar nosso amor

Mesmo em meio às grades da prisão, Marcelo sempre foi romântico e gosta de me chamar de ‘moranguinho’ e ‘vida’. Nos consideramos marido e mulher, embora não sejamos casados no papel. No tempo em que ficamos longe, encontramos nas cartas a forma de expressar nosso amor. Ele me faz falta em tudo, tenho saudades de seu jeito brincalhão, ciumento e até das brigas.

Dois meses após ter visto nossa filha, meu marido ficou em liberdade de novo. Como não estávamos trabalhando, eu voltei para a casa dos meus pais e ele foi morar com a avó. Ficamos nessa rotina por quase dois anos. Nos finais de semana, eu ia visitá-lo com as crianças.

Estava cansada da situação, brigamos e nos separamos por três meses, quando descobri que ele estava envolvido com roubos. Sofri bastante, mas fui fiel a ele. Reatamos quando ele foi preso novamente, no final de 2015. Ele chorou, me pediu perdão, se ajoelhou e estamos aí até hoje.

Preparei uma surpresa para o Dia dos Namorados

Como meu marido está preso em Mirandópolis, no interior de São Paulo, e são nove horas de viagem, o tenho visitado com menos frequência. Faz quatro meses que não nos vemos, estou morrendo de saudades. A primeira coisa que vou fazer neste final de semana é enchê-lo de beijos e abraços e dizer como o amo.

Preparei uma surpresa para a data: mandei fazer uma camiseta personalizada com o nome e a foto dele. Além disso, quero ficar bem bonita, vou usar uma lingerie, arrumar o cabelo, as unhas e caprichar na maquiagem.

Nosso maior desejo assim que ele for solto é ter uma noite romântica, só nós dois, para comemorar bastante. No dia seguinte, queremos passear no parque com as crianças.

Eu amo o Marcelo, já passamos por várias coisas e estamos firmes e fortes, apesar da distância. Hoje, com cinco de relacionamento, posso afirmar que foi ele quem eu escolhi para passar o resto da minha vida e estarei com ele até o fim. O nosso sonho é casar no cartório, ser feliz, cuidar das nossas filhas e viver em paz”.

* Os nomes foram trocados a pedido da entrevistada.

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