Comportamento

De amante a conselheira: "ensino homens a dar mais prazer às mulheres"

Ritanne Cardoso
Imagem: Ritanne Cardoso

Helena Bertho

do UOL

14/06/2017 12h21

A educadora sexual Aline Castelo Branco hoje é especialista em ensinar os homens a dar prazer às mulheres. Mas por anos ela mesma tolerou relacionamentos sem prazer. Inclusive como amante por quatro anos. Foi só quando chegou ao limite que decidiu mudar sua vida por completo.

Tem uma cena que eu nunca esqueci: eu estava com um namoradinho que tive durante a faculdade. Estávamos transando e, ao invés de olhar para mim, ele ficava se olhando no espelho, admirando a própria performance. Enquanto isso, eu estava ali, simplesmente deitada, sem sentir nada.

Não sabia o que era orgasmo

Minha história começa como a de muitas mulheres por aí: dentro de casa eu não tinha liberdade para falar sobre sexo e não fui educada sobre o assunto. Fui aprendendo com a vida. Compartilhava com minhas amigas as experiências e juntas tentávamos construir conhecimento sobre nossos corpos.

Aos 18 anos saí de Salvador para fazer a faculdade de jornalismo em Aracaju. Lá comecei minha carreira como repórter de televisão. E também tive vários relacionamentos. Mas nessa época eu nem sabia o que era orgasmo, me contentava com pouco e achava que esse era o normal.

Fiquei lá até os 26, quando recebi uma proposta de trabalho em Salvador e voltei para minha terrinha. Foi nessa nova emissora de TV que conheci o homem de quem me tornaria amante, o que faria com que mudasse minha vida por completo.

Que mulher? Não sou eu a mulher dele?

Ele era meu colega de trabalho, um pouco mais velho, inteligente, interessante e, pelo que eu sabia, solteiro. Eu tinha um histórico ruim com homens: ou escolhia um cara que não queria compromisso ou um muito doidão, só afim de sexo, drogas e rock´n´roll. E uma coisa que eu sempre quis foram relacionamentos sérios.

Então quando o conheci, pensei "pronto, é o cara". Começamos a ficar e foi tudo muito intenso. Eu rapidinho entrei em um estado de paixão maluca. Sabe quando esquece o racional e fica só o emocional? Tinha certeza de que com ele me casaria e formaria família.

Até que um dia, poucos meses depois de começarmos, em uma festa, um conhecido me perguntou: "ele terminou com a mulher?" E eu fiquei sem saber o que dizer. Que mulher? Não era eu a mulher dele?

Claro que eu fui investigar e descobri que, de fato, ele era casado. Então o confrontei com essa história e, depois de muitas discussões, começaram as promessas de que ele largaria a esposa para ficar comigo.

Ele vivia prometendo largar a esposa

Começou aí uma fase muito difícil da minha vida. A maioria das pessoas tem essa ideia da amante como a vilã, a destruidora de casamentos. Mas o próprio nome já diz, a amante ama. E amar alguém que não pode ser seu é muito ruim.

Ele sempre dizia que ia terminar com ela e eu acreditava. Fazia promessas, me iludia e eu, no fundo, acreditava – ou queria acreditar – que tudo daria certo e iríamos nos casar.

Até hoje não sei o que me prendia a ele, era algo muito irracional. Se eu fosse pensar, não me fazia tão bem, o sexo era mediano e totalmente focado no prazer dele e ainda tinha a enganação.

Entre idas e vindas, ficamos quase quatro anos assim. Mas já mais perto do fim, eu comecei a desenvolver uma depressão. Pois era uma frustração tão grande, que me fazia mal. Precisei até tomar remédios!

Desabafei ao vivo na rádio

Nessa época eu trabalhava em uma rádio, apresentava um programa voltado para mulheres. E um dia, sobrecarregada pelas minhas emoções, acabei chegando no trabalho e desabafei ao vivo, falei de tudo o que estava sentindo, do quanto estava mal no ar, para os ouvintes da rádio.

Loucura, né? O pior é que acabou sendo bom!

A audiência foi enorme, muitas ouvintes ligaram para contar que se sentiam igual. E a emissora percebeu o espaço que aquilo tinha e me deu um programa especial para falar sobre amor e sexo!

Passei a receber cartas e depoimentos de muitas mulheres reclamando de relacionamentos, mentiras, falta de prazer... Com seus relatos, percebi que eu não era a única e também consegui juntar forças para por fim de vez aquele relacionamento. Era hora de cuidar da minha vida.

Levei mais quatro anos para conseguir me envolver

Falando diretamente com as mulheres, percebi que eu precisava de algum tipo de treinamento e preparo para poder ajudá-las. E decidi estudar a sexualidade humana. Fui para São Paulo, onde fiz pós-graduação na área e um mestrado.

Foi uma época de autodescoberta também. Fiz pompoarismo, comecei a explorar minha sexualidade, ao mesmo tempo em que enfrentava uma grande dificuldade para me envolver novamente com homens, por medo de viver outra experiência traumática como a anterior.

Só em 2014 é que conheci o Renato e comecei a me envolver. Ele se mostrou diferente. Além de não ser comprometido, tinha toda uma abertura, uma vontade de me dar prazer que foi transformadora para mim. Com ele, eu descobri que nunca tinha tido um orgasmo antes!

Descobri que muitos homens não sabem como dar prazer

No mestrado tive a oportunidade de fazer uma pesquisa com mais de 100 mulheres e lá percebi que existia uma queixa muito grande sobre não chegar ao orgasmo e dificuldade em sentir prazer. Fizemos também uma pesquisa com homens que reafirmou isso, como, por exemplo, que 43% deles não gostavam de preliminares. Opa! É na preliminar que a mulher fica excitada.

Foi aí que eu entendi como os depoimentos de todas aquelas mulheres e a minha própria história conversavam. Aquele homem lá atrás se olhando no espelho, o tal de quem fui amante, sempre me mantendo apaixonada, mas nunca me levando à loucura, todos tinham algo em comum: não sabiam como dar prazer a uma mulher.

Já eduquei mais de 300 homens e em casa educo o meu

Quando divulgamos o resultado da pesquisa, a repercussão foi enorme. Decidi então focar minha carreira nisso: educar os homens para aprenderem a satisfazer as mulheres.

Em 2015 criei um programa de treinamento online específico para homens onde ensino a eles como funciona o corpo da mulher, o que pode dar prazer e o que não funciona.

É um trabalho de desconstruir um monte de ideias erradas que eles têm e mudar a forma com que olham par ao sexo. Preliminares, sexo oral e até o ritmo da transa. Não é como nos pornôs, não.

De lá para cá, já eduquei mais de 300 homens!

E é claro que no dia a dia eu educo o meu. Ele espera eu chegar no orgasmo primeiro, toca nos pontos certos... Depois de anos, entendi que o sucesso está em um combinado: eu tenho maturidade e aprendi a conhecer o meu corpo, e agora tenho um parceiro que entende como me dar prazer. É o que desejo para todas as mulheres e por isso trabalho com eles. 

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