Comportamento

'Se assume, menina!': Coach ajuda lésbicas a saírem do armário

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Helena Bertho

do UOL

19/06/2017 04h00

A paulistana Flávia Adura, 30 anos, é coach. Mas suas orientações têm um foco bem específico: orientar e dar apoio às mulheres que estão enfrentando dificuldade para se assumirem homossexuais. Aqui, ela conta como sua história pessoal ajudou a desenvolver esse trabalho e também como é o dia a dia da profissão. 

"Mesmo quando é 'tranquilo', o processo de se assumir lésbica é difícil. Eu saí do armário aos 23. Foi tardio. Deixei de viver muita coisa, me privei de experiências por medo da reação da minha família e, quando decidi fazer, foi um caminho solitário. Não tive ninguém para me dar apoio. Apenas a amiga de uns amigos que me contou a própria experiência.

Quando finalmente me assumi, foi traumático. A sociedade cobra demais de nós, mulheres. Querem que a gente case, tenha filhos. Então, ao me assumir lésbica eu estava desiludindo todas as expectativas que minha família tinha para mim. E eu me sentia muito mal por isso.

Com a coragem, fui e falei. Cerquei esse momento de muito cuidado, de maneira pacífica, pronta para o que viesse. E no fim, minha família me aceitou. Anos depois, vendo e ouvindo relatos de outras mulheres em grupos de apoio e na internet, percebi que o jeito que eu tinha feito era diferente. Percebi que poderia ajudar outras a fazerem como eu e isso podia ser importante."

"E se eu pudesse oferecer o apoio que não tive?"

"Sou formada em Administração e trabalhei por muitos anos com recursos humanos. Até que descobri o coaching e decidi me especializar. Depois de me formar, em 2012, comecei a atuar como coach de empreendedorismo. Uma empreitada que não deu muito retorno... Acabei voltando para o mundo corporativo.

Em 2015, fui a um evento e o palestrante disse no palco: 'Imagine se tivesse um coach para ajudar a tirar o povo do armário?'. Era uma piada, todo mundo riu, mas aquilo ficou na minha cabeça. Não consegui dormir nas noites seguintes.

'E se essa história tivesse algum sentido? E se eu pudesse oferecer para outras mulheres o apoio que eu não tive quando me assumi?' 

Então pensei e botei no papel todo uma estratégia de como poderia juntar meus conhecimentos profissionais e minha experiência pessoal para fazer isso. Surgia assim a 'Butterfly', minha empresa de coach para mulheres que querem se assumir lésbicas, mas estão enfrentando dificuldades. Coloquei o plano em prática com ajuda da minha esposa, a Suellen."

Arquivo pessoal
Flávia e Suleen em seu casamento: "É um orgulho poder usar minha história para dar apoio para outras mulheres poderem viver seus amores como vivo o meu" Imagem: Arquivo pessoal
"Divido todo o processo em 10 seções

"Elaborei um plano de 10 seções, que são, de maneira geral, via Skype. A primeira eu chamo de 'se assume e liberta', que é para nos conhecermos e eu ver se a mulher está realmente pronta para o processo. Ele é dividido em três etapas: a primeira é baseada no autoconhecimento e fortalecimento da mulher.

Nesse primeiro momento, conheço os valores da cliente, o que é importante para ela, fico por dentro de seus pontos fortes e fracos e o que precisa ser trabalhado. É aí que identifico se a mulher ainda tem resquícios de não aceitar sua própria sexualidade e trabalhamos isso. Tento chegar ao ponto em que não é mais negociável a ideia de não sair do armário.

Então começa a fase de planejamento: quando vai se assumir, para quem, em qual ordem, o que vai falar e como. Pensamos juntas também como está sua situação financeira, o que vai fazer se for expulsa de casa - o que é bem comum em famílias conservadoras. Decidimos juntas tudo e criamos uma estratégia baseada na história de sua família e também nas boas práticas que estudei.

Por fim vem a ação. Quando ela realmente vai lá e se assume. Sempre oriento que seja num final de semana e fico a postos, pronta para dar apoio e suporte em qualquer cenário do que acontecer."

"Ajudei 35 mulheres a saírem do armário"

"Em quase dois anos e meio trabalhando com isso, ajudei 35 mulheres homossexuais. Entre as que me procuram, poucas seguem até o fim. A primeira seção é gratuita exatamente por isso, para saber se elas querem mesmo ir adiante, se estão prontas para topar esse desafio.

Por vários motivos muitas não estão preparadas, desde questões de autoaceitação até financeira. Na verdade, 70% delas é por causa de dinheiro, pois são dependentes da família e não têm como seguir se forem expulsas de casa.

Das que seguem comigo, a maioria são mulheres com mais de 25 anos e que já seguiram o papel que a sociedade impõe para elas, tendo vivido relacionamentos com homens. Tive uma cliente, inclusive, com mais de 50 anos, que foi casada e teve filhos com um homem antes de se assumir. Todas só me procuram quando já não aguentam mais o peso de viver representando um papel."

"Muitas homossexuais se 'desassumem'"

"O meu trabalho é sempre voltado para o que eu chamo de modo 'paz'. Isso quer dizer que preparo as mulheres para se assumirem de uma maneira pacífica, não agressiva. Isso passa pela postura, tom e escolha de palavras. Muitas mulheres dizem: 'eu sou lésbica, eu sou assim, e se você quiser, me aceita, se não quiser, tudo bem'.

A gente sabe que no fundo é isso mesmo, mas para que falar assim? Para deixar os familiares na defensiva?

Além disso sempre fortaleço as mulheres para lidar caso a família não aceite. Para não gritar, caso gritem, para não ir para o negativo. Porque eventualmente, a família vai ser acalmar e talvez mude de ideia. Até porque uma coisa comum é que, quando a família reage mal, muitas mulheres voltem atrás na decisão, se 'desassumem'. E isso é insuportável."

"Não atendo homens"

"Meu trabalho é focado só em mulheres. Primeiro porque minha experiência pessoal conta muito, eu consigo entender os dramas e as situações que vivem, porque também vivi. Além disso, eu acredito que as dinâmicas do home e da mulher são diferentes.

Para nós, existe muito essa coisa do papel da mulher, da mãe de família. Quando um homem sai do armário, a primeira coisa que os pais pensam é: 'meu Deus, meu filho dá o cu'. No caso da mulher é: 'nossa! Ela não foi bem comida'. São outas crenças e preconceitos que precisam ser superados." 

 

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