Comportamento

Flores, estrela e tribal: tatuagem ajuda mulheres a vencer o câncer de mama

Arquivo Pessoal
Para a reconstrução do seio de Joana, foi usado um enxerto de pele das costas. Com a tatuagem ela cobre toda a cicatriz e o peito. Imagem: Arquivo Pessoal

Helena Bertho

do UOL

27/06/2017 18h16

É com orgulho que a administradora Joana Jeker, 40, exibe a tatuagem de cerejeira que vai das suas costas e ocupa o seio direito. O desenho cobre as marcas que o câncer de mama deixou em seu corpo e simboliza sua vitória sobre a doença. "Mesmo depois da reconstrução da mama, eu me sentia incompleta. Para mim, o processo todo da luta e recuperação só acabou quando fiz a tatuagem", conta ela que, por quatro anos teve vergonha das cicatrizes que escondia, evitando usar biquínis e decotes que deixassem os sinais aparecerem.

Dá para criar os mamilos e cobrir cicatrizes

Como Joana, muitas outras mulheres têm recorrido às tatuagens para recuperar a autoestima depois do tratamento do câncer de mama. Em muitos casos o tumor agressivo requer a retirada total do seio e a reconstrução deixa uma cicatriz bem grande. Além disso, refazer os mamilos requer uma segunda cirurgia com enxertos que ainda não deixa a cor igual à original. 

Neste cenário, a tatuagem tem se tornado uma alternativa cada vez mais comum para as mulheres que sentem necessidade possam recuperar a aparência de seus seios após o tratamento. Para a chefe de mastologia do Hospital AC Camargo, Fabiana Baroni Makdissi, isso é uma parte importante do tratamento. "O câncer de mama mexe com coisas externas, que são visíveis aos outros e também com a ideia da feminilidade, do que é o corpo da mulher, e isso afeta a autoestima. Por isso a reparação é essencial para que ela se recupere.", explica.

Assim, dois tipos de tatuagem têm espaço. O primeiro, mais comum, consiste em recriar com a pigmentação a auréola e o mamilo. "Hoje, com técnicas de tatuagem 3D, conseguimos criar um efeito visual que fica realmente parecido a um mamilo real", explica o tatuador Sergio Leds, que oferece o serviço a vítimas da doença em São Paulo.

O segundo é o uso da arte dos desenhos para cobrir as cicatrizes da cirurgia e trazer uma nova beleza aos seios. Joana, fez os dois tipos. Primeiro, tatuou um novo mamilo. "E ficou muito bom, parecendo real, mas ainda tinha as cicatrizes e elas me incomodavam", lembra. Para a reconstrução, enxertos de suas costas haviam sido usados nos peitos, por isso a cicatriz era extensa e bem difícil de esconder. Por isso acabou decidindo pela tatuagem.

Divulgação/ Tati Stramandinoli
Tatuagem cobre todo o seio e cicatriz nas costas de A.C., celebrando o fim do medo de que o câncer volte. Imagem: Divulgação/ Tati Stramandinoli
Marca da superação

A.C., 46, nem teve vontade de refazer o mamilo, optou direto por uma tatuagem que cobriu todo o seio e a cicatriz que vai até as costas. "Eu fiz a cirurgia em 2008 e todo o tratamento em 2009 e, no ano seguinte, a reconstrução. Eu nunca quis fazer o mamilo, pois achava artificial, então decidi esperar. Por anos você ainda faz acompanhamento, convive com a sombra da doença, o medo de que volte. Agora senti que finalmente estou livre disso e que era o momento, então fiz a tatuagem", conta ela, que preferiu não se identificar porque acredita que a questão é intima e diz respeito simplesmente a ela e sua relação com o corpo.

Enquanto a reconstrução da mama afeta mais a parte da aparência que perceptível ao olhar dos outros, para muitas mulheres as tatuagens para refazer o mamilo ou cobrir cicatrizes tem mais a ver com a própria relação com o espelho e autoestima.

Projetos oferecem atendimento grátis a mulheres

A tatuadora Tati Stramandinoli nem sonhava em trabalhar com câncer de mama quando foi procurada por um médico para que fizesse a auréola do seio de uma paciente, em 2013. "Eu estudei, pesquisei como fazer e foi tudo muito bem. Mas depois da segunda paciente, eu percebi que não podia mais fazer aquilo, não parecia certo cobrar", lembra Tati, que passou então a oferecer o atendimento gratuito para vítimas da doença. "É transformador para mim. Essas mulheres me passam algo que a tatuagem comum não tem, não é só estética, tem muito mais a ver com a superação, com elas se reencontrarem como mulheres".

Uma vez por mês ela doa um de seus atendimentos para fazer a pigmentação de auréola e mamilo ou uma tatuagem artística para cobrir cicatrizes em São José dos Campos.

No Rio de Janeiro, o tatuador Roberto dos Santos faz o mesmo trabalho há seis anos. "Tem mulher que fica mais de dez anos esperando para fazer um enxerto que pode nem ficar da cor certa. Outras que não podem pagar pela tatuagem. E é algo que eu posso resolver em meia hora sem prejuízo, sabe?". Ele dedica uma média de quatro atendimentos para o projeto todo mês.

O procedimento nos seios é o mesmo de tatuagens comuns e, segundo Roberto Leds, que atende gratuitamente pacientes do SUS em São Paulo, um redesenho de auréola e mamilos fica em torno de R$ 800.

Sem riscos, nem complicações

A tatuagem para pacientes de câncer de mama não tem contraindicações. "É como qualquer tatuagem para qualquer mulher: existem riscos de alergia, de infecção e transmissão de doenças. Por isso são necessários os mesmos cuidados", diz a médica.

 O procedimento não traz nenhum risco de complicação para o câncer em si e, segundo a médica, a única restrição é de que a tatuagem não deve ser feita durante o tratamento, pois ele abaixa a resistência e aumenta o risco de infecção, e é preciso esperar a total cicatrização da cirurgia.

Fora isso, a especialista diz que a tatuagem pode ser feita sem medo e é até incentivada como parte da recuperação do tratamento.

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