Comportamento

A vida da mulher que substituiu o marido na Chape após a tragédia

Adriano Vizoni/Folhapress
Imagem: Adriano Vizoni/Folhapress

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

19/07/2017 04h00

Cleberson Silva era o assessor de imprensa da Chapecoense. Aos 39 anos, ele morreu no acidente aéreo de novembro de 2016, que fez 71 vítimas. Desde então, quando o clube catarinense ficou sem presidente, comissão técnica e maioria dos jogadores, Sirli Freitas, 33, assumiu o posto que pertencia ao marido na Chape. 

O assessor deixou a mulher e dois filhos, Pedro, 9, e Mariana, 3, que estudam na frente da Arena Condá, em Chapecó. Assim como o pai fazia, hoje é a mãe que os busca na escola após um dia de trabalho. Menos de um mês após o desastre, ela já exercia as funções que eram de Cleberson.

“O Plínio [presidente] me ligou e eu não falei de salário ou condições de trabalho. Simplesmente, aceitei. Estava desesperada e queria estar aqui dentro [da Chapecoense].” Quando recebeu o telefonema, a jornalista, até então repórter e fotógrafa do “Diário Catarinense”, estava no clube recolhendo os pertences do marido.

“Eu me sinto muito bem por fazer o que ele fazia e por vivenciar coisas que ele vivia com os colegas. Há momentos de muita dor, mas seria mais doloroso se eu não pudesse estar aqui.”

A presença de Cleberson está na maioria das atitudes que Sirli toma no trabalho. Os jornalistas estavam juntos havia 14 anos e se conheceram quando ela estava começando a faculdade e ele já trabalhava na área. “Aprendi muito com meu marido, éramos grandes amigos. Ele me ajuda muito ainda. Sempre trocamos experiências da profissão. Então, me lembro das nossas conversas.”

Arquivo pessoal
Cleberson, Mariana, Sirli e Pedro Imagem: Arquivo pessoal

A rotina é puxada. O trabalho faz o tempo passar mais depressa e ajuda a chorar menos. “Dar continuidade ao trabalho dele me fez ficar ‘menos pior’. Consegui achar meu caminho. Poderia estar perdida, sem saber o que fazer e sofreria ainda mais. Foi minha fuga, minha saída.”

Sirli é uma das poucas mulheres que trabalha como assessora de times de futebol. O ambiente predominantemente masculino é conhecido pelo machismo e afasta o sexo oposto. Entretanto, ela acredita que sua história proporcionou um grande respeito de todos.

“Tenho um apoio enorme dos dirigentes e jogadores. Não tive nenhum episódio que me fizesse sentir mal. Sou muito respeitada e me sinto bem, à vontade. Tenho consciência de que é um grupo específico, mas também acredito que sou eu que faço essa relação, mostro meu trabalho, minha competência.”

“Ser mãe é a parte mais difícil, confesso”

“Ter filhos ajuda. É por eles que eu sigo, luto e trabalho. Preciso ser forte por eles. Mas a fase inicial é muito pesada. Se nós questionamos, não entendemos, imagine eles? O mais velho, Pedro, surtou. Teve acompanhamento psicológico desde o começo, mas até hoje sofre e chora. A pequena, a princípio, não sentiu tanto. Por mais que eu explicasse, ela sempre perguntava do pai como se ele estivesse vivo, dizia que não ia dormir enquanto ele não chegasse. Eu falei que o Cleberson tinha virado uma estrelinha e, por isso, tudo o que ela fazia saía e mostrava para o céu. Em junho, tivemos 13 dias de chuva consecutivos em Chapecó. Nesse período, que não dava para fazer isso, ela ficou doente. Passou um dia internada, fizemos todos os exames, e ela não tinha nada físico.”

“Eu sempre quis ir até o local do acidente. Quando fui, fechei um ciclo. Finalmente consegui dizer adeus”

“Em maio, fomos para a Colômbia para o jogo da Recopa [competição entre o campeão da Libertadores da América e a Copa Sul-Americana]. Fiquei fazendo a assessoria dos sobreviventes e fomos ao local do acidente. Eu queria muito ir, queria ver e ouvir as pessoas que ajudaram no resgate. Foi um misto de sentimentos porque eu estava com as pessoas que sobreviveram, então revivi com eles todas as histórias. Foi o tempo todo revivendo aquilo e foi muito forte. Ao mesmo tempo, festejamos muito a vida deles, foi um milagre. Eu não sabia qual seria minha reação ao chegar, mas vi um lugar que parecia bem menor do que tinha visto na televisão e fotografias até então. Chegamos lá, apenas o pessoal da Chapecoense, sem imprensa. Apenas alguns subiram o morro e eu fui, precisava desse momento para rezar e sentir.  

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Foi muito difícil, estava garoando, escorreguei e caí várias vezes. Mas quando chegamos lá em cima, o sol abriu e, diante do arco-íris que se formou, desabamos, choramos muito. Fechei um ciclo. Senti que saiu um peso, me arrepio só de lembrar.”

“Não é força, é necessidade. Ninguém está preparado para a morte”

“Nunca tinha perdido ninguém próximo. É um momento que você fica sem chão e precisa refletir sobre a sua vida. Existem muitas fases de negação, questionamentos, busca por razões para entender. Ao mesmo tempo que festejei a vida dos sobreviventes, pensava porque o Cleberson não podia estar aqui, ser um deles.... Acho que o caminho é entender que a decisão não passa por você, não está nas suas mãos. Para mim, restou buscar alternativas para conviver com a dor. Eu me apeguei nos meus filhos e no trabalho.”

“Entendemos a dor uma das outras”

“Como o Cleberson fazia parte do grupo dos atletas e da imprensa, transitava entre os dois, eu estou em ambos. Saio para jantar com as mulheres da Chape, conversamos. São pessoas que sentem a mesma dor que eu, passaram por tudo igual, no mesmo momento. Esse grupo ajuda muito, nós nos entendemos e trocamos figurinhas, principalmente sobre como lidar com as crianças.”

“A palavra futuro mudou totalmente o sentido para mim”

“Eu e o Cleberson planejávamos tantas coisas, estávamos acabando de construir a nossa casa, íamos passar o fim do ano no Rio de Janeiro e, de repente, num estalar de dedos, tudo acabou. Hoje não consigo visualizar muito à frente, não penso muito longe, mesmo coisas próximas, como uma viagem. Só consigo pensar no hoje, no que me faz bem. Quero criar e viver bem com meus filhos e trabalhar. É só isso.”

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