Comportamento

Fãs de "RuPaul's Drag Race", héteros desconstroem estereótipos machistas

Divulgação
Drag queen mais bem sucedida da atualidade, RuPaul comanda o programa "RuPaul's Drag Race" Imagem: Divulgação

Amanda Serra

Do UOL

19/07/2017 05h00

Recentemente, o ator Andrew Garfield revelou que fez maratona de “RuPaul's Drag Race” com o intuito de se preparar para viver um menino judeu e gay na peça "Angels in America". E ele não é o único. Homens heterossexuais estão perdendo o receio de se assumirem fãs do reality show, que está na sua 9ª temporada.

O UOL conversou com três deles para entender o processo de empatia que o programa está criando, e como isso tem afetado suas relações sociais e seus interesses na causa LGBT. Todos são comprometidos, um deles é pai de um menino, e a iniciativa de ver o programa partiu de suas companheiras, mas foi neles que provocou reflexões e rupturas de estereótipos.

Arquivo Pessoal
Edison Helio Rizzato Junior, 30 anos, desenvolvedor de software Imagem: Arquivo Pessoal
 "Pensava que ser gay era errado, achava que era superior por não ser"

"Fiquei curioso após ouvir várias pessoas comentando sobre ‘RuPaul’ em um podcast e comecei a assistir com a minha mulher. Drag queen é provavelmente a profissão do ramo de entretenimento que mais exige versatilidade e criatividade. Conhecia alguns gays, amigos de amigos, mas posso dizer que minha visão mudou. Não sei quanto disso tem a ver com o programa, mas na mesma época que comecei a assistir fiz alguns amigos homossexuais e acho que a maior parte da mudança veio deles.

Tinha tantos estereótipos montados na cabeça, como: ‘só é gay até encontrar uma mulher gostosa’. Pensava que ser gay era errado, achava que era superior por não ser, que gays precisavam ser tirados dessa situação, como se ser gay fosse uma situação, algo passageiro...

E foi aí, que passei a respeitar a profissão e a entender o preconceito que ela carrega. Tenho curiosidade de saber como eu ficaria de mulher, de entrar na fantasia dos trejeitos, da criação de um personagem, da vaidade. Quando me penso drag, imagino uma mulher bonita, não algo para fazer graça. Gostaria de arrumar uma mãezona drag para ajudar com a maquiagem, a peruca, as roupas, os acessórios... e juntar alguns amigos, minha esposa e ir para uma balada gay.

Minha esposa acha divertido eu querer me ver de mulher algum dia. A única coisa que ela implora é que não me depile (risos). Ela adora os pelos do meu braço, vai entender..."

Arquivo Pessoal
"Depois de 'RuPaul', eu realmente consegui conhecer pessoas que me mostraram que o universo gay é muito maior do que se imagina", afirma o publicitário Aleo Gerez, de 33 anos Imagem: Arquivo Pessoal
"Se meu filho quiser ser drag, eu com certeza vou comprar maquiagem com ele"

"Em 2015, minha namorada disse que queria ver ‘RuPaul’ e começamos de trás para frente, iniciando pela 6ª temporada. Uma coisa legal é perceber que cada drag tem uma história de vida, assim como qualquer um de nós - cheia de superações, preconceitos, risos, lágrimas... e isso automaticamente tira da nossa mente a ideia de que uma drag é uma caricatura.

‘RuPaul’ foi realmente algo que me fez enxergar o universo gay do jeito certo, entendendo e respeitando a diversidade.

Em um dos episódios, a drag Adore Dellano conta o quão é difícil seu relacionamento com o pai. Ao ouvir o relato pensei alto: ‘se meu filho quiser ser drag, eu com certeza vou sair para comprar maquiagem com ele’. Minha namorada ouviu e começou a chorar, porque foi algo tão sincero. Fico triste porque o amor ao próximo tem que existir sempre, independentemente das escolhas de cada um, e, neste caso, elas só fazem bem para as pessoas.

E tudo isso fez com que eu me tornasse voluntário na 'Casa 1' - projeto de cultura e acolhimento de LGBTs em situação de risco idealizado pelo Iran Giusti. Participei de uma das reuniões com os voluntários e dentre 15 pessoas, eu era o único hétero. Torço para que essa conta aumente com a participação de mais heterossexuais conhecendo e respeitando o universo gay".

 
Arquivo Pessoal/Reprodução Facebook
Rodrigo Florencio da Silva, 31 anos, é casado e pai do Marcus de 10 anos Imagem: Arquivo Pessoal/Reprodução Facebook
"Quero que meu filho confie em mim, não quero ser o motivo por ele não ‘sair do armário’"

"É curioso, pois apesar de ter duas irmãs e ser casado, ver uma mulher se arrumando e uma drag é muito diferente. As drags e fazem uma verdadeira transformação em frente ao espelho usando maquiagem. Fiquei impressionado ao ver o quanto elas conhecem seu próprio rosto. O RuPaul é parte essencial do programa -- quando não está 'montado', se mantém estiloso e elegante. E com vestido, peruca, maquiagem, continua uma pessoa linda, com uma personalidade forte e amiga. 

Ser gay é lutar por direitos, reconhecimento na sociedade e isso sempre foi algo mais distante da minha realidade. Não é porque você se diverte com colegas gays do trabalho em uma festa da empresa que pode sair por aí dando uma de ‘desconstruidão’ no Facebook.

No entanto, não acho que minha visão sobre o universo mudou, pois sempre respeitei, evitei piadas do tipo ‘pare de viadagem’, mas como a pauta agora está cada vez mais forte, me parece que sou livre para demonstrar apoio, amizade e respeito por homossexuais sem sofrer pressão da família ou de amigos. Parece idiota, mas antes você como hétero falar que tinha um amigo gay colocava em dúvida a sua masculinidade em ambientes mais 'mente fechada'.

Sou pai, tenho um filho de 10 anos e isso também faz parte do meu processo de maior abertura, afinal, quero que o Marcus confie em mim para falar sobre suas escolhas no futuro. Não quero ser aquele pai que é a razão pelo filho não ‘sair do armário’ e que por conta disso vive infeliz. Junto com a minha esposa, tomamos cuidado para corrigi-lo quando ele replica algum comentário machista ou homofóbico que vem da TV, de amigos ou da Internet.

E não me considero um cara 'desconstruído', acho, inclusive, que esse termo tem servido de escudo para muito machista enrustido que se faz de evoluído para chegar em mulheres. 

O principal motivo para apoiar programas como ‘RuPaul’ é celebrar a liberdade, ou seja, a possibilidade que cada um tem de fazer o que quiser com a própria vida, indo contra leis ou rótulos que foram criados séculos atrás e que não fazem o menor sentido. Dou muito valor a minha liberdade de pensar e agir, e não gosto de ver outras pessoas sendo restringidas dessa possibilidade.

Por muito tempo em casa brincamos com o Marcus de repetir as frases do personagem Felix (Matheus Solano) da novela ‘Amor à Vida', mas de forma tão natural que meu filho nunca sentiu vergonha de falar igual e também nunca estranhou a sexualidade do personagem. Estamos na linha tênue de falar sobre sexo de modo geral com ele e já explicamos que existem homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres, e que é algo bom, porque eles são felizes assim. Ele ficou um pouco impressionado. Mas acredito que os valores sejam passados aos poucos, de forma natural e gradual, caso contrário vira doutrinação."

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