Comportamento

"Fui traficante e hoje ajudo ex-presidiários a não voltarem para o crime"

Arquivo pessoal
Karine Vieira ajuda ex-detentos a serem inseridos no mercado de trabalho Imagem: Arquivo pessoal

Daniela Carasco

do UOL

25/07/2017 04h00

O Brasil tem, hoje, a quarta maior população carcerária do mundo. São 622.202 pessoas presas, segundo a ONU. E a assistente-social paulista Karine Vieira, 35, já foi uma delas. Sua vida no crime começou aos 14 anos. Como uma brincadeira de adolescente transgressora, ela passou a cometer pequenos furtos, que, anos depois, a levaram ao tráfico de drogas e à prisão.

Filha de uma enfermeira e de um bacharel em Direito, Karine vem de uma família de classe média, de São Paulo. “Sempre estudei em escola particular e tive uma ótima condição. Mas nunca aceitei a separação dos meus pais, quando eu era criança, nem concordava com a criação cheia de regras que minha mãe me impunha.”

Usou drogas, roubou, praticou estelionato, virou gerente de um traficante, foi presa. Na cadeia, se deparou com realidades completamente distintas da sua e atestou que, assim como Bibi, personagem de Juliana Paes, em “A Força do Querer”, a maioria das mulheres se envolvem com o crime por amor.

“É a típica história da mulher parceira do marido”, diz Karine. “Não foi um namorado que me levou para o caminho errado, mas sei que, por amor, somos capazes de qualquer coisa. As mulheres precisam aprender a se amar antes de tudo.”

Absolvida e certa de que é possível sobreviver fora da criminalidade, ela comanda hoje o projeto Segunda Chance, do Grupo Cultural AfroReaggae, em São Paulo. Seu trabalho é ajudar ex-presidiários a encontrar um emprego e mudar o rumo de suas histórias. 

“O potencial de transformação de vida de um egresso é de 100%”, garante. “Sei exatamente o que é estar no lugar deles. E só consegui sair dessa graças a uma tia que acreditou em mim e fez comigo o que faço hoje com cada um dos 1.040 cadastrados, que aguardam uma vaga no mercado de trabalho.”

Ela é casada há 12 anos com um presidiário e mãe de três filhos: Tainá, 17, Ryan, 9, e Lucas, 3. Karine reconhece a gravidade de tudo o que cometeu e não deseja que os filhos sigam o mesmo caminho. Ainda assim garante que não mudaria nenhum detalhe de sua trajetória: “Não seria quem sou hoje sem ela”.

Arquivo pessoal
Karine Vieira passou cinco meses detida por tráfico de drogas Imagem: Arquivo pessoal
“Sempre fui uma filha rebelde”

“Fazia tudo para desagradar minha mãe. Comecei a trabalhar aos 13 anos a contragosto dela, que pedia para eu me concentrar nos estudos. Aos 14, passei a usar drogas e a praticar pequenos furtos. Abandonei a escola, saí de casa e engravidei. Aos 18, com minha filha no colo, tentei tomar um novo rumo: comecei a trabalhar em uma companhia aérea, onde fiquei por quase dois anos, quando me separei do namorado da época."

"Sem chão, voltei para a vida louca das baladas e drogas. Nessa mesma época, me envolvi com o tráfico. Não podia viver na aba de ninguém. Virei gerente da boca de fumo, onde organizava contas e controlava a entrada e saída de mercadorias. Eu corria riscos, minha rotina era completamente maluca, mas a grana compensava. Fui presa em 2005, aos 24 anos, dentro de casa, depois de uma investigação policial que me acusou de tráfico de drogas. Fiquei cinco meses detida."

“A cadeia é, sim, universidade do crime”

“Nas regiões mais carentes, a maioria das pessoas é negligenciada desde o ventre da mãe. A falta de acesso à cultura, educação e saúde é gravíssima. E isso é perpetuado também dentro do sistema prisional brasileiro. Esses direitos precisam ser garantidos em qualquer circunstância. Fora isso, nos presídios, a regra é usar uma comunicação violenta, o que só agrava a situação. O Estado precisa capacitar os agentes de segurança para que dialoguem de maneira não-violenta com os ‘reeducandos’. Eles não são animais enjaulados.”

“O cárcere para a mulher é ainda pior”

”Socialmente, a mulher costuma exercer o papel de alicerce do lar e carrega o peso de viver dentro de um padrão de moral e bons costumes. Por isso, quando vai presa, sofre por deixar a família, o filho e o companheiro, que muitas vezes também está dentro cárcere e a troca por outra. O dia de visita em um presídio feminino é incomparável ao do masculino. Enquanto na fila delas o número de visitantes não passa de 50 –companheiros você conta nos dedos--, na deles tem mais de 300. A mulher se submete a toda a humilhação de uma visita íntima para encontrar o namorado ou marido. Eles, não."

“Fui até a cadeia conhecer um rapaz que hoje é meu marido”

“Assim que fui absolvida, um amigo quis me apresentar um conhecido. Os dois estavam presos na mesma unidade. Comecei a trocar cartas com o tal pretendente. Ele estava no cárcere há três anos, acusado de homicídio. Solteira, decidi visitá-lo. Foi amor à primeira vista. E nosso relacionamento já dura 12 anos. Nesse período, tivemos dois filhos.”

“O sofrimento ainda é grande. A revista vexatória, mesmo que proibida, continua sendo feita. Parece que, a cada ano, fica mais difícil suportar. O que me motiva é o amor pela família que construímos juntos e o desejo dos nossos filhos de ver o pai um dia em liberdade. Espero que ele valorize todo o meu esforço e que de fato queira mudar de vida.”

“Só saí do crime porque tive alguém que acreditasse em mim”

“Assim que conquistei minha liberdade, voltei a me envolver com uma quadrilha. Mas decidi sair dessa depois de um colega morrer baleado. Era 2009. Eu precisava recomeçar minha vida e, graças a uma tia que me acolheu, fui capaz de mudar. Retomei o supletivo e ganhei bolsa de 100% para cursar a faculdade de assistência social.”

“Quatro anos depois de formada, conheci o AfroReaggae e me tornei voluntária no projeto Segunda Chance. Hoje, também sou assistente-social na PanoSocial, uma startup de corte e costura, que contrata egressos. Mensalmente, recebo mais de 50 novos nomes de interessados em serem reinseridos no mercado de trabalho. A maioria é homem, com idade entre 25 e 40 anos. Eles querem ter uma renda para não voltar para o crime.”

"Ex-detentos merecem uma segunda chance"

“Nossa maior dificuldade é encontrar empresas interessadas em contratar ex-presidiários. A resistência do setor de recursos humanos é enorme. O que não falta hoje é instituição privada falando de responsabilidade social. Mas o que elas realmente estão fazendo pela sociedade na qual estão inseridas? Nada. Doar dinheiro para uma ONG não é o bastante.”

“Só 5% dos nossos cadastrados já foram inseridos no mercado formal. Mas eles sempre surpreendem pelo comprometimento. Dos contratados, nenhum reincidiu. Alguns foram até promovidos. Por isso, defendo as cotas. Elas podem funcionar como primeiro passo para uma mudança efetiva. A sociedade precisa acreditar no potencial de quem já pagou pelo crime que cometeu. Só assim a violência poderá diminuir.”

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