Comportamento

"Me chamam de pai exemplar, mas quando eu era mãe ninguém falava isso"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Helena Bertho

Do UOL, em São Paulo

11/08/2017 04h00

Cézar Sant'Anna, 29, é um homem trans e vai passar pela primeira vez o Dia dos Pais como pai de sua filha, Fernanda, 11. Ele contou ao UOL sua história e também comenta as diferenças de como é tratado hoje.

"Este Dia dos Pais vai ser muito especial para mim: será meu primeiro como pai. Por dez anos, nessa data a Fernanda, minha filha, presenteava seu outro pai e a minha comemoração era no Dia das Mães. A importância disso é simbólica para mim: representa a celebração de eu finalmente ser o rei da minha própria vida e ter assumido minha identidade masculina.

Na prática, continuo criando minha filha exatamente da mesma forma de antes. Ela sempre teve um pai biológico presente, mas no dia a dia, como qualquer mãe solo, eu exercia o pacote completo e garantia que ela sempre tivesse tudo de que precisava.

Arquivo Pessoal
Cézar antes da transição, grávido de Fernanda Imagem: Arquivo Pessoal
Ser 'lésbica' me causava desconforto

Tive minha filha aos 18 anos, quando ainda me relacionava com homens, mas logo eu já comecei a me envolver com mulheres. Desde cedo, ela sabia qual era minha orientação afetiva, mas eu mesmo não me encaixava na denominação 'lésbica', me causava desconforto.

Não entendia essa estranheza que eu sentia até quando, por volta de 2015, comecei a ter contato, por meio da televisão ou pela internet, com pessoas públicas trans. Ao ver as histórias delas, me identifiquei e comecei a pesquisar sobre o assunto.

Tudo o que lia só me fez ter certeza de que eu era um homem trans. Procurei então o SUS para ver como funcionava a transição e comecei o acompanhamento psicológico.

'Agora você vai ter barba'

Depois de alguns meses, tive liberação para começar a tomar os hormônios, mas antes precisava conversar com a minha filha sobre isso. Eu não queria passar por tantas mudanças sem saber como seria para ela.

Comecei mostrando para ela história de outras pessoas, sem falar de mim, para só depois um dia sentar e explicar que passaria por aquilo. Estava lá, falando sério, explicando tudo o que ia acontecer comigo, e ela, distraída. Perguntei: 'você está entendendo o que estou falando?'.

A resposta dela me emocionou: 'Entendi, agora você vai ter barba. Você faz tudo para eu ser feliz, mas você também tem que ser feliz'.

Sim, minha filha foi a pessoa que mais entendeu e aceitou minha transição desde o começo.

Me chamem de Cézar

Comecei então o tratamento hormonal no meio de 2016 e aos poucos fui falando para as pessoas do trabalho e da família o que estava acontecendo. Escolhi o nome Cézar e, na empresa de prestação de serviços em que atuava, já de cara pedi para me chamarem assim. Com meus pais e irmãos fui um pouco mais devagar, respeitando seus tempos de entender tudo.

Até que no meu aniversário, em outubro de 2016 decidi que era a hora. Disse para todos que a partir daquele dia não havia mais Beatriz, apenas Cézar.

A transição toda, de maneira geral, foi tranquila. É todo um processo, que leva tempo, mas que me deixou cada vez mais com a aparência masculina, com a qual me identifico.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Eu sou um 'homão da porra', fazendo o mesmo que fazia como mulher

Mudei de Curitiba para São Paulo no início de 2017 e comecei a estudar Direito. Quando conheço pessoas novas, não falo de cara que sou trans, porque isso não interessa para ninguém. Tanto que a maioria dos meus colegas achava até pouco tempo atrás que eu era cisgênero (pessoa que se identifica com o gênero com o qual nasceu).

Minha relação com a minha filha não mudou em nada. E isso serviu para me mostrar o quanto esses papéis de mãe e pai são uma construção social. As pessoas que me conhecem dizem: 'mas você cria sua filha sozinho? É um pai exemplar'. Para muita gente, sou esse 'homão da porra', mas na verdade faço a mesma coisa que mulheres fazem há milênios e que eu já fazia antes.

Enquanto é muito fácil criticar a mãe solteira, o pai é elogiado.

Sou estrela de uma campanha contra o preconceito

De maneira geral, não sofro muito preconceito. Principalmente porque deixo primeiro as pessoas me conhecerem, para depois saberem mais sobre mim. Só uma vez, na faculdade, passei por uma situação muito constrangedora.

Uma colega mostrou a foto de uma sobrinha para os outros alunos e comentou que era um homem, porque tinha pênis. Então começaram a fazer comentários maldosos como: 'ela até engana', 'imagina na hora H você descobre que ela tem pênis?', e coisas do tipo.

Fiquei bravo, tentei explicar que se a pessoa se identifica como mulher, ela é mulher. Mas ninguém me ouviu. Precisei sair par tomar um ar e, quando voltei, disse: 'A gente está numa sala de Direito, em pleno 2017, não deveria existir esse tipo de pensamento'. O que fez com que parassem.

Esse tipo de situação me faz pensar que precisamos debater e falar mais sobre as pessoas trans. Enquanto isso for colocado embaixo do tapete, vamos viver à margem da sociedade e brincadeiras desse tipo vão continuar existindo.

Por isso, quando soube que o Grupo Gay da Bahia estava buscando um homem trans para sua campanha de Dia dos Pais, me candidatei. Tenho certeza de que várias meninas e meninos estão nesse processo de se entender e esse vídeo, assim como a novela ("A Força do Querer"), poderia ajudar na identificação.

E, de fato, desde que a campanha foi ao ar, tenho recebido muitas mensagens de jovens e de pais de jovens trans com questionamentos. Tem cada vez mais gente aceitando e menos preconceito. E para quem diz que não consegue aceitar, eu só digo: você não precisa aceitar nada, e sim que respeitar."

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