Comportamento

Por que você não precisa ter vergonha do cheiro da sua vagina

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Odor vaginal é levemente ácido e muda de acordo com a alimentação e o ciclo menstrual Imagem: Getty Images

Daniela Carasco

Do UOL, em São Paulo

11/08/2017 04h00

Sabonete íntimo, desodorante vaginal, gel perfumado, lenço umedecido, protetor diário de calcinha e até perfume. O que não faltam nas prateleiras das farmácias são opções de produtos que prometem “uma vagina limpinha e cheirosa”. A prova de que o órgão sexual feminino, assim como o seu odor característico, ainda é tabu. E isso precisa acabar, fazem coro as especialistas.

A médica da família e comunidade Aline de Souza Oliveira, que atende no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, em São Paulo, usa a experiência pessoal para chamar atenção para o assunto. Em sua primeira visita ao ginecologista, quando ainda era virgem, ouviu que seu corrimento era falta de higiene. “Foi tão dramático para mim, sofri por anos depois de ouvir aquilo. Socialmente, a mulher limpinha é aquela que toma conta da sua própria vagina e mantém seu odor sempre agradável.”

Fato é que, se todas as secreções do corpo têm cheiro, com a vagina não seria diferente. “Dá pra afirmar que ele é levemente ácido, como o ph da região, e muda de acordo com a alimentação e o ciclo menstrual de cada mulher. Natural, sutil e nada desagradável”, esclarece a ginecologista e obstetra Bruna Wunderlich, que condena o uso de qualquer produto que o mascare.

Em seu consultório, o que não falta é queixa sobre o assunto. “As pacientes mais cismadas são aquelas que ouviram, desde a primeira menstruação, que o sangramento é nojento e sujo. Precisa estar sempre escondido e abafado. Um segundo grupo é formado por aquelas que têm parceiros que reclamam na hora do sexo. Já ouvi de meninas jovens que o namorado só transa depois que ela se lava.”

E esses casos não são raros. Uma pesquisa realizada pela empresa Sex Wipes, em 2014, com 1.252 homens heterossexuais e sexualmente ativos de São Paulo revelou que 43% deles não fazem sexo oral nas parceiras. Entre as justificativas para a repulsa, domina o desagrado com o cheiro e aparência da genitália feminina.

“Sem dúvida, é um aspecto que aprisiona sexualmente as mulheres”, afirma Aline. A bailarina Eliana*, 29, atesta a tese. “Até os 26, não topei receber sexo oral, porque achava o cheiro da minha vagina terrível. Fui ao médico várias vezes e tudo estava sempre normal. Não tinha nada errado com a minha saúde.”

Para Palmira Margarida, historiadora e especialista em odores femininos, além do desconhecimento sobre o próprio corpo, “existe uma concepção equivocada de que cheiroso é tudo aquilo que se parece com baunilha e flor, por exemplo”. Nosso olfato foi treinado a achar fragrâncias sintéticas agradáveis.

Cuidado com a higiene exagerada

No consultório de Bruna, uma outra questão chama atenção: a obsessão pela limpeza. “Tenho pacientes com infecções vaginais causadas pelo excesso de banho. Elas chegam a se lavar seis vezes ao dia, tamanho incômodo”, conta. A lavagem frequente com produtos adstringentes provoca uma retirada mecânica das bactérias da flora vaginal, que têm como única função promover o equilíbrio saudável contra infecções.

O ideal, segundo a especialista, é escolher apenas um banho do dia para lavar as partes íntimas com um sabonete líquido e neutro. O produto deve se restringir à virilha e aos grandes lábios. Na mucosa interna, limite-se à água corrente. “Nada de recorrer às duchas vaginais. A vagina é autolimpante”, explica. A mesma recomendação vale para os lenços umedecidos. “Caso ela esteja com alguma infecção, o recomendado é lavar as mãos com o sabonete neutro e retirar a secreção interna com os dedos.”

Atenção redobrada também à roupa íntima. Prefira sempre as de algodão, que evitam o acúmulo de suor na região, que é naturalmente úmida e abafada. Na hora de lavar, use só sabão de coco -- sem amaciante -- e enxágue duplo. Pigmentos depositados nas peças por produtos de limpeza podem causar irritação e desequilibrar o ph vaginal.

E o tal "cheiro de bacalhau"?

Camuflar o cheiro natural tem ainda outro fator agravante, o de não reconhecer qualquer sinal de infecção que se mostra através da mudança de odor. Toda vulva libera muco, também conhecido como corrimento. Em geral, a quantidade varia de mulher para mulher e são considerados normais aqueles transparentes -- amarelo ou esbranquiçado -- e sem odor intenso. Qualquer alteração de cor ou cheiro precisa ser avaliada por um especialista.

O diagnóstico mais frequente é de vaginose. Trata-se de uma infecção causada pela bactéria Gardnerella vaginalis, que gera corrimento acinzentado e leitoso, além do tal cheiro de peixe podre. “A comparação tem sentido, pois é o mesmo composto químico liberado pelo bacalhau”, explica Palmira. A contaminação se dá, em muitos casos, na relação sexual.

“O esperma alcalino, quando depositado na vagina ácida, desequilibra a flora vaginal, abrindo espaço para as bactérias”, explica a ginecologista Ana Katherine da Silveira Gonçalves, da comissão de doenças infecto-contagiosas da Frebasgo.

Já a famosa candidíase é uma infecção causada pelo crescimento excessivo do fungo Cândida, que normalmente se dá na baixa imunidade.

Para evitá-las, Ana Katherine orienta a dormir sem calcinha, evitar os protetores diários, pegar leve na limpeza extrema e passar longe das peças íntimas muito justas. “Deixe sua vagina respirar”, diz. E, claro, faça as pazes com seu cheiro.

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada

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