Comportamento

"Trans vivem em média 35 anos. Sou uma vitoriosa", diz Luisa Marilac

Reprodução/ Instagram
Imagem: Reprodução/ Instagram

Helena Bertho

do UOL

23/08/2017 04h00

Desde que tomou seus bons drinques na cidade espanhola de Roqueta de Mar, em 2010, Luisa Marilac já esteve na pior e na melhor algumas vezes. Agora, ela considera que está "maravilhosamente bem": tem um canal no Youtube, um livro a caminho e contou que acabou de fechar um "contrato que vai ser destruição", mas que ainda não pode revelar do que se trata.

"É que se a gente conta as notícias boas, antes de acontecer, dá azar", justifica a travesti. E ela tem razão em ter medo do azar: depois da fama repentina por ter virado meme, Marilac já encarou poucas e boas --e por isso mesmo celebra a fase de tranquilidade.

Frustração na volta ao Brasil

Quando o vídeo publicado por amigos viralizou na internet, Luisa vivia uma ótima fase de sua vida. "Eu tinha ido viver na Europa para fugir da violência que sofria por aqui. Finalmente tinha conseguido sair da prostituição, estava trabalhando em um hotel".

Mas a fama repentina a encheu de expectativas e ela decidiu largar tudo para voltar para o Brasil. Com propostas de canais de TVs e convites para programas de televisão, achou que ter viralizado poderia lhe garantir uma profissão.

Mas não foi bem assim. Deu entrevistas e chegou a apresentar um programa na MTV, mas muitas das promessas que recebeu quando estava fora não se sustentaram.

"Depois disso tudo, tive de voltar a me prostituir e foi muito duro. Foi como realizar um sonho e ter tido que sair dele. Não que a prostituição não seja um trabalho digno, eu vivi a vida toda disso, mas eu não gosto, nunca fiz por opção", conta. 

"A mídia me jogou na lama"

"Eu cheguei a dormir duas noites nas ruas. Mas amigos me ajudaram, consegui alugar um apartamento e com a prostituição eu me estabilizei. Mas daí veio a mídia e me jogou na lama. E eu pensei no pior, cheguei a pensar em me matar", conta.

Sobre a mídia, ela se refere a reportagens que diziam que estava morando em um cortiço, sem dinheiro e na pior. "Não era um cortiço, o povo que é sensacionalista, por favor! Eu morava em um flatzinho em um prédio com outras famílias".

As forças para seguir ela diz ter encontrado em Deus. Luisa é católica, apesar de estar estudando o espiritismo, ultimamente.

Reprodução/ Facebook/ marilacoficial
Luisa Marilac com o uniforme do hotel em que trabalhava. Imagem: Reprodução/ Facebook/ marilacoficial
Da carteira de trabalho às ruas

Até 2014, ela viveu do dinheiro que tirava da prostituição nas ruas de Guarulhos. Conseguiu um emprego em um hotel através de uma agência de trabalhos para mulheres trans e travestis. Lá ficou um ano e três meses e foi promovida duas vezes. "Fui supervisora e depois governanta-chefe", conta com orgulho.

Ter um emprego formal, de carteira assinada, foi motivo de grande celebração para Marilac e rendeu mais notícias. Mas a fase boa acabou com uma demissão em maio de 2015.

"Eu fiquei desempregada, implorava emprego para os outros, mas, infelizmente, as contas chegavam na porta de casa. Aí eu tive que apelar para a prostituição mais uma vez", conta ela.

De volta às ruas e à realidade violenta das travestis que se prostituem, foi nessa época que Luisa começou a se envolver com o ativismo. "Eu descobri que a média de vida de uma mulher trans é de 35 anos". Os dados são da Associação Nacional de Transexuais e Travestis do Brasil (Antra), e representam menos da metade da média nacional, segundo o IBGE, que é e 75,5 anos.

"Com quase 40 anos, me considero uma vitoriosa. Acho importante fazer esse trabalho de lutar pelas travestis mais novas, para que não passem pelo que passei", diz ela, que se tornou colunista da revista feminista AzMina.

Divulgação
Luisa Marilac no filme "Entre Mortos e Vivos" Imagem: Divulgação
Na melhor: Youtuber e atriz

Decidida a sair das ruas, Marilac começou a se dedicar a suas redes sociais, em busca de conseguir transformar a fama conquistada lá atrás em algum retorno financeiro. E isso veio no início de 2016, quando saiu da prostituição graças a alguns vídeos patrocinados, além da atuação em alguns filmes do diretor Beto Ribeiro.

"Agora, eu tenho uma pessoa para me ajudar. Porque o povo me liga, me enrola, me passa a perna, eu não sei cobrar. Então deixo tudo com ela e está funcionando. Já tem um ano e meio que não sei o que é me prostituir mais. Tenho várias parcerias".

Recebendo um valor mensal de uma clínica estética e de uma dentista para fazer anúncios nas redes, Luisa agora vive em uma casa "simples, mas bem bacana" com sua cachorra Princesa. Vive atualizando suas redes sociais e grava vídeos em que mistura receitas e conversas sobre temas diversos para seu canal no Youtube. "Estou comendo tanto que pareço gestante".

Além disso, está com contrato fechado com a Editora Record, que vai publicar sua biografia –escrita pela jornalista Nana Queiroz. E está animada com o novo projeto babadeiro que ainda não pode revelar. Agora, Luisa diz, sem medo: "E teve boatos de que eu ainda estava na pior. Se isso é estar na pior, pohã..."
 

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