Comportamento

"Vai comer tudo isso?" Bullying contra gordos também começa em casa

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Bárbara Tavares

Do UOL, em São Paulo

25/08/2017 04h00

“Você vai comer tudo isso?”. “Nossa, ainda vai repetir?”. “Desse jeito não vai mais entrar nas calças, hein?”. “Tem certeza de que você quer sobremesa?”. “Depois não vem chorar pra mim que não tem roupa pra sair”. Se você se identificou com alguma das frases, você provavelmente foi vítima de fat shaming, tipo de bullying que estigmatiza pessoas gordas.

Ele é bem comum e, muitas vezes, vem de dentro de casa e tem como alvo crianças e adolescentes. Segundo dados do Ministério da Saúde, no Brasil, uma a cada três crianças na faixa dos 5 aos 9 anos está acima do peso. O mesmo percentual (33,5%) atinge os brasileiros de 12 a 17 anos, sendo que 8,4% estão obesos.

Pare de falar esse tipo de coisa para ele, ele é pequeno e não precisa crescer com baixa autoestima por causa das suas paranoias com peso, igual você fez comigo"

Imagina, nunca fiz isso com você! Até porque, né, antigamente você era magrinha, hoje que está acima do peso"

O diálogo acima caiu como um balde de água fria na cabeça de F. R., 26 anos. Desde o começo da adolescência, ela lembra de situações em que sofria retaliações da mãe em relação à sua forma física, às quantidades que punha no prato, e por aí vai. “Lembro que, mais de uma vez, meu pai chegou a levantar da mesa porque não aguentava as discussões sobre o assunto no jantar”, conta. Hoje ela não mora mais com a família, mas o fat shaming continua, e também afeta o irmão mais novo.

Meus pais diziam que eu fazia eles passarem vergonha"

Atritos familiares por motivos relacionados ao peso também foram comuns na infância de J. T., hoje com 31 anos. “Meu pai e minha mãe me pressionavam o tempo inteiro por eu estar acima do peso. Uma vez íamos a uma festa em que meu pai, que era médico, receberia um prêmio. Eu passei o dia me arrumando e, quando ele me viu com o vestido, disse que era melhor eu ficar em casa, porque estava ridícula e ia envergonhá-los. Foram eles e minhas irmãs, que eram magras”, conta ela.

Fat shaming não ajuda a emagrecer

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“Depois das brigas com os meus pais, eu sempre ia para a casa da minha avó, chorando. Lá, ela cozinhava para mim e me deixava comer tudo o que queria. Era reconfortante”, relata J.T.

Para a professora Rebecca Pearl, da Universidade da Pennsylvania, “é equivocado pensar que estigmatizar pessoas acima do peso pode motivá-las a emagrecer e melhorar a saúde. Estamos descobrindo exatamente o contrário: quando as pessoas se sentem envergonhadas em relação ao seu peso, elas ficam mais propensas a evitar exercícios e consumir mais calorias para lidar com o estresse”. 

 

"Na sociedade moderna, ser gordo é um defeito. E essa questão sociocultural é um dos ingredientes para o desenvolvimento de transtornos alimentares como anorexia e bulimia nas crianças. Nos adolescentes, é ainda mais perigoso, pois pode desencadear uma depressão, por exemplo", relata a psicóloga Alicia Cobelo, coordenadora do Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência, da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Como lidar?

Atitudes como provocar, intimidar, apelidar e humilhar não são o caminho para ajudar as crianças e adolescentes. Segundo Alicia, muitas vezes, os pais são bem-intencionados e só querem ajudar os filhos, mas não sabem a melhor forma de lidar com a situação. "Estão insatisfeitos com o próprio corpo e querem evitar que as crianças passem pelas dificuldades que eles próprios passaram em função das pressões da sociedade". 

  • Mude os hábitos alimentares da família toda: proporcionar refeições mais saudáveis é tarefa dos pais, que devem agir como modelo para os filhos.
  • Incentive a prática de atividades físicas: criança adora brincar e se mexer. Que tal investir na prática de um esporte semanal ou em atividades físicas em família?
  • Procure ajuda de profissionais: se não souber por onde começar, médicos, nutricionistas e psicólogos podem orientar nessa primeira fase.
  • Recupere antigos hábitos: nas refeições, reúna todo mundo e desligue celulares, computadores e televisão.
  • Fale com carinho e procure passar mensagens positivas: no longa "Pequena Miss Sunshine" (2006), a personagem de Abigail Breslin, Olive, se classifica para um concurso de beleza infantil a milhares de quilômetros de sua casa. Sua família inteira se reúne e viaja para levá-la à competição. Em uma das situações familiares, a mãe de Olive dá uma verdadeira aula de empoderamento para a filha. “É ok ser magra e é ok ser gorda, se é o que você quer ser. O que você quiser é ok”. Ok?

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A "Pequena Miss Sunshine", Olive Imagem: Reprodução

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