Relacionamento

Por que os casamentos estão acabando em tão pouco tempo?

Getty Images
O número de separações após um ano de casamento aumentou 466,8% Imagem: Getty Images

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

28/08/2017 04h00

O livro "Amor Líquido", do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é de 2003, mas se faz atual a cada ano que passa. Na obra, Bauman fala sobre como as relações são frágeis e se tornaram descartáveis. E é exatamente isso que os especialistas entrevistados pelo UOL constatam nos consultórios de terapia quando o assunto é casamento.

Mas não precisa ser profissional para perceber esse fato, afinal, no seu círculo social deve ter ao menos um que acabou em dois, três e até cinco anos de união. Para o caso dos relacionamentos que não fizeram nem o primeiro aniversário depois do "sim", houve aumento de 466,8% no número de casais que se separaram. Os dados são da última pesquisa de Estatísticas do Registro Civil do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que comparou os dados de 2010 -- primeiro ano do estudo com esse filtro de tempo -- até os mais recentes, de 2014.

Crises acontecem antes

A psicoterapeuta Marcia Barone, coordenadora do Núcelo de Atendimento e Pesquisa da Conjugalidade e Família do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, diz que diminuiu o tempo para um casal entrar em crise. De acordo com as informações da instituição, se entre 2000 e 2010 as pessoas procuravam a terapia quando já tinham de 11 a 20 anos de casamento, as queixas hoje chegam com relacionamentos de até cinco anos.

Getty Images

"O fim do preconceito com esse tipo de serviço pode ter influenciado, sim, a procura precoce. Mas a tendência do mundo atual, que vende a perfeição, é que as pessoas busquem também a relação perfeita e isso não existe. Nesse contexto, é natural que a intolerância diante dos problemas vença a urgência da necessidade de uma vida feliz", afirma.

Divórcios são mais comuns em casamentos de dois ou três anos

Ainda segundo os últimos números do IBGE, entre o primeiro e o quinto ano, os vencedores de divórcio são os casamentos de dois e três anos, com 17.988 e 17.962 separações, respectivamente, em 2015. Para a psicóloga e terapeuta sexual Maria Cristina Romulado, doutoranda na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com uma tese sobre a satisfação conjugal, se o fim acontece antes disso "foi uma ilusão, uma paixão arrebatadora ou o sonho de se casar maior do que a vontade real de ficar junto".

"Um ponto importante que faz os relacionamentos, em geral, durarem, são os planos, além dos sentimentos, claro. Quando o casal passa pelo ritual do casamento e depois pelas datas comemorativas --natal, réveillon, aniversários-- e até as primeiras férias casados, no segundo ano já não tem o mesmo encanto a e aí, no terceiro, diante de qualquer brecha ou insatisfação, termina. Nesses momentos de frustração, os projetos em comum dão grande suporte para a união."

Dificuldade de se colocar no lugar do outro é um problema

A terapeuta acrescenta que é algo do momento atual, pois tudo está "mais fluido" e as relações estão no mesmo sentido. "As novas gerações não toleram esperar e têm dificuldade de se colocar no lugar do outro. Além disso, a liberdade de se relacionar proporciona esse movimento. O problema é que o custo emocional, que pode ser extremamente desgastante, não é levado em consideração."

A professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Rosa Maria de Macedo concorda com a tese de Maria Cristina. Ela diz que o significado do casamento mudou da base do amor romântico para algo que se faz apenas enquanto é "confortável e conveniente".

"É uma mudança sociocultural, até mesmo pela aceitação e facilidade do divórcio. Hoje, a sexualidade e a busca pelo prazer e felicidade estão em primeiro lugar", constata ela, que também coordena o curso de especialização em terapia familiar e de casal da universidade.

No mais, as especialistas afirmam que os números do IBGE seriam ainda maiores se pudessem constatar o fim de uniões informais, sem papel passado, que são cada dia mais comuns. "Estamos cada vez mais individualistas. Não há mais o desejo de fazer sacrifícios pelo outro, pelo relacionamento", fala Rosa Maria.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Redação
BBC
BBC
"Fui marmita de traficante"
Blog do Fred Mattos
Redação
Redação
Redação
Redação
do UOL
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Blog do Fred Mattos
Opiniões Estilo
do UOL
Redação
Redação
Redação
Redação
Comportamento
Redação
Blog do Fred Mattos
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
Redação
BBC
Blog do Fred Mattos
Redação
Redação
Redação
Comportamento
Redação
Blog do Fred Mattos
Redação
Redação
Redação
do UOL
Comportamento
Redação
do UOL
Blog do Fred Mattos
Comportamento
Topo