Comportamento

Homossexuais foram alvo de atrocidades ao longo da história; veja as piores

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No hospício brasileiro de Colônia, homossexuais internados sofreram choques e estupros e viveram em condições subumanas, comendo ratos e fezes e bebendo água de esgoto Imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL

04/09/2017 04h00

Castração, trabalhos forçados, castigos físicos e morte por decapitação, fogueira e forca foram algumas das penalidades impostas aos homossexuais, principalmente os masculinos, ao longo da história. A atração e o amor por pessoas do mesmo sexo foi tida, durante muito tempo, como algo pecaminoso, perverso, criminoso e até doentio. Apenas em 1990 a OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou a homossexualidade do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais, que até então a classificava como desvio e perversão. O termo "homossexualismo" também foi abolido, já que o sufixo "ismo" implica um transtorno, algo a ser tratado.

Decapitação

No início do século 4, após se converter à fé cristã, o imperador romano Constantino decretou que a homossexualidade era antinatural, já que o sexo deveria ter por único objetivo a procriação. Ele ordenava a decapitação dos "infratores". Por volta de 390 d.C., sob o comando de Teodósio, o Grande, os culpados eram condenados e queimados publicamente.

Bodes expiatórios

A Peste Negra assolou a Europa na segunda metade do século 14, matando 25 milhões de pessoas. Hoje, se sabe que ela foi propagada por meio de pulgas e ratos infectados com o bacilo Yersinia Pestis, que, devido às condições de higiene da época, conviviam naturalmente com a população. No entanto, como ninguém sabia a causa da doença, o "pecado" em que viviam os homossexuais foi um dos motivos apontados para o surgimento da desgraça, que seria uma espécie de castigo divino cujas consequências todos, sem exceção, deveriam sofrer. Fomes, naufrágios e epidemias, de forma geral, eram problemas associados aos homossexuais.

Forca e trabalhos forçados

Na Inglaterra, a Lei de 1534 tornou a sodomia um crime. A palavra, que caiu em desuso e hoje só é usada por conservadores religiosos, vem do nome da cidade de Sodoma, citada na Bíblia, e era empregada para se referir ao sexo anal. Homens que mantinham relações com outros homens tinham os bens confiscados e eram condenados à forca até 1861. A pena de morte foi substituída por prisão e trabalhos forçados. Acusado de ser sodomita pelo pai de seu amante, o lorde Alfred Douglas, o escritor Oscar Wilde (1854-1900) passou dois anos definhando na cadeia e morreu pouco tempo depois de deixá-la.

Experiências nazistas

Na Alemanha nazista, poucos homossexuais (judeus ou não) escaparam dos campos de concentração. Lá, tinham uma estrela cor-de-rosa de tecido pregada nos uniformes como forma de humilhá-los e marcar sua condição. Vistos como doentes e pervertidos, até pelos outros prisioneiros, gays eram obrigados a transar com prostitutas. Muitos foram castrados e outros tantos serviram de cobaia para as experiências nazistas, como a aplicação de altas doses de hormônios masculinos. Estima-se que entre 5 mil e 15 mil homossexuais pereceram nos campos.

Castração química

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, americanos e britânicos forçaram os homossexuais a cumprir o restante da pena imposta pelos nazistas na cadeia. O renomado matemático Alan Turing (1912-1954), pioneiro da computação, foi forçado a se submeter à castração química como alternativa à prisão e acabou se suicidando.

Lobotomia

Criada em 1949 pelo neurocirurgião português António Egas Moniz, a lobotomia foi uma arma bastante usada para "dar um jeito" na homossexualidade, então tida como um "defeito genético". A técnica cirúrgica, que chegou a ganhar o prêmio Nobel de medicina, consistia em cortar um pedaço do cérebro (nervos do córtex pré-frontal) para tornar os pacientes mais dóceis e livres de erotização. Na Suécia, 3.000 homossexuais foram lobotomizados. Na Dinamarca, justamente o primeiro país a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (em 1989), foram 3.500, sendo que a última operação ocorreu em 1981. Nos Estados Unidos, a soma ultrapassa 10 mil pacientes.

Internações em hospícios

Homens e mulheres que gostavam de pessoas do mesmo sexo foram trancafiados em hospitais psiquiátricos para serem "curados" --as internações aconteciam, em boa parte das vezes, sob ordens de parentes, que não queriam "aberrações" na família. No hospício brasileiro de Colônia, em Barbacena (MG), durante décadas, homossexuais internados sofreram maus tratos (entre os quais choques e estupros) e viveram em condições subumanas, comendo ratos e fezes e bebendo água de esgoto.

Acusação de criminalidade

Nos anos 1930, no Brasil, a homossexualidade era ligada à criminalidade. Por não constituírem uma família convencional, homossexuais não contribuíam para o desenvolvimento da sociedade. Essa opinião vinha de médicos renomados, o que só aumentava o preconceito e a repressão.

Terapia de aversão

Ao longo da história, tentativas médicas de alterar a homossexualidade incluem tratamentos como a vasectomia e a histerectomia, além de hipnose e medicação. Nas décadas de 1960 e 1970, pacientes levavam choques ou tomavam drogas indutoras de náuseas enquanto assistiam filmes homossexuais eróticos. A chamada terapia de aversão tinha como proposta levar as sensações desagradáveis à repulsa por um determinado tipo de comportamento. Um exemplo fictício seria o Tratamento Ludovico mostrada no filme "Laranja Mecânica" (1971).

Açoite e expulsão

Sob a rígida influência católica de Portugal, no Brasil colonial a prática homossexual era punida com morte na fogueira, degredo (desterro ou banimento da comunidade) e infâmia dos familiares, que ficavam estigmatizados publicamente pelo ato pecaminoso. Em 1592, em Salvador (Bahia), a portuguesa Felipa de Souza foi considerada a primeira lésbica a ser açoitada após condenação pela Inquisição Portuguesa do Santo Ofício. Ela foi atada ao pelourinho, castigada e expulsa da cidade, capitania na época. No Brasil colônia, o uso do açoite era frequente em várias cidades como forma de punir e humilhar os homossexuais.

Repressão policial

Nos Estados Unidos, batidas policias em bares que reuniam homossexuais eram comuns nos anos 1960. Em 28 de junho de 1969, policiais decidiram expulsar cerca de 200 clientes do Stonewall Inn, em Nova York. Ao saírem à rua, porém, foram recebidos por uma multidão revoltada com os abusos, munida por pedras e garrafas. Os protestos duraram dias e deram início aos primeiros movimentos organizados e marchas pelos direitos homossexuais. Em 2016, o então presidente dos EUA Barack Obama decretou o Stonewall como monumento nacional. Durante o período da Ditadura Militar (1964-1985) no Brasil, volta e meia a polícia detinha e prendia homossexuais de forma violenta, sob a explicação de que estavam praticando "vadiagem". Na cadeia, muitos foram torturados.

FONTES: Claudio Blanc, autor de "Uma Breve História do Sexo" (Ed. Gaia); Claudio Picazio, psicólogo, autor de "Diferentes desejos: adolescentes homo, bi e heterossexuais" e "Sexo secreto – temas polêmicos da sexualidade" (Edições GLS); livro "Holocausto brasileiro" (Geração Editorial), de Daniela Arbex; livro "Marcados pelo triângulo rosa" (Ed. Melhoramentos), de Ken Setterington; Marcelo Duarte (escritor) e Jairo Bauer (psicólogo), autores de "O Guia dos Curiosos - Sexo" (Panda Book); Mary Del Priore, historiadora e autora de "Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na História do Brasil" (Ed. Planeta, e Oswaldo M. Rodrigues Jr., psicólogo, diretor do Inpasex (Instituto Paulista de Sexualidade) e autor de "Parafilias" (Ed. Zagadoni)

 

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