Comportamento

"Meu marido tem HIV, estou grávida dele e está tudo bem"

Getty Images
Imagem: Getty Images

Helena Bertho

do UOL

11/09/2017 04h00

Desde que conheceu seu marido, a fotógrafa Rita*, 30, sabe que ele tem o vírus HIV. Mas isso nunca foi um problema para ela que se sente completamente segura em transar com ele, inclusive sem camisinha. Ao UOL, eles explicaram como funciona sua relação e como a informação é a base da segurança dos dois. Isso porque ele tem a carga viral indetectável (quando o vírus não é mais encontrado no sangue) e, segundo o estudo Partner, que acompanhou 1166 casais sorodiferentes por quatro anos, não há riscos de transmissão nesses casos, quando o paciente faz tratamento antirretroviral. 

"A gente se conheceu quando ele morava fora, por isso conversamos muito por mensagem. Quando voltou para o Brasil há um ano e meio, já existia uma empatia, então nos demos bem de cara. Logo no segundo encontro ele já me falou que era soropositivo e, para ser sincera, não teve nenhum drama, achei totalmente de boa.

Eu sabia que não tinha razão para ter medo

É que eu tinha informação e sabia que não existia razão para ter medo. Por coincidência, fazia poucos meses que um grande amigo havia me contado que tinha HIV e por isso eu já sabia muito sobre o vírus. Quando ele me falou que tinha carga viral indetectável, eu não tive medo.

Carga viral indetectável é quando a quantidade de vírus no sangue está tão baixa que nem aparece nos exames. Nesse caso, a pessoa não pode contaminar outras.

Então em nenhum momento eu me senti chocada ou com medo. Na verdade, até achei ele mais interessante por já ter passado por isso. E segura também: as chances de contrair o HIV com ele é muito menor do que com alguém que não faz o teste e não se cuida. Tanto que sempre transamos sem camisinha.

Nosso filho não tem risco de ter HIV

Depois de uma semana eu esqueci do assunto e nosso relacionamento foi evoluindo. Nunca passou pela minha cabeça que eu pudesse ter a doença. E sei que não tenho, porque faço exames de rotina a cada seis meses, desde os 15 anos, os resultados seguem ótimos.

Agora demos um novo passo na relação: estou grávida de três meses. E não existe risco nenhum de a criança ter HIV.

Sei que, antes de mim, meu marido sofreu preconceito de outras mulheres. Por isso, acho importante falar: o medo nada mais é do que preconceito.

Se você conhecer um cara que é soropositivo, não precisa se assustar. Escute o que ele tem a dizer, pesquise e, se tiver dúvidas, procure um médico. O principal é confiar e se sentir segura para perguntar, mas não é preciso ter medo.

A questão não é ser irresponsável, mas sim ter informação e segurança".

"O maior mito é que as pessoas que sabem que vivem com HIV são responsáveis por espalhar a epidemia"

Depoimento do marido de Rita*, 33, autor do blog Diário de Jovem Soropositivo.

"Eu descobri que vivo com HIV em 2010. Foi no primeiro check-up geral que fiz na vida. Muito provavelmente me contaminei durante a faculdade, fazendo sexo sem camisinha, mas não sei com quem exatamente.

O primeiro impacto que tive foi o medo de morrer. Depois, entrei em contato com várias ex, avisando do diagnóstico e sugerindo que elas fizessem o teste. Algumas me responderam, contando que veio negativo.

Existe um mito de que a pessoa que vive com o HIV, que sabe e se cuida, é responsável por espalhar a epidemia. E eu achava isso também.

Foi graças a conversas com meu médico e muita pesquisa que entendi que uma pessoa que tem HIV e faz tratamento não oferece risco e, na verdade, é mais segura do que uma pessoa que não vive com o HIV ou não sabe.

Duas mulheres já se afastaram de mim por ser soropositivo

Esse pensamento me fez passar por algumas poucas situações de preconceito em relacionamentos. A vez que mais me marcou foi uma jovem que era estudante de medicina. Contei para ela no começo do nosso relacionamento e ela entrou em pânico.

A gente se via quase todos os dias e depois que contei, ela parou de me ver. Um mês depois, me disse que não conseguiria ter um relacionamento com alguém como eu.

Outra experiência que aconteceu depois foi de transar com uma menina que sabia que eu tinha HIV e no dia seguinte ela entrar em pânico. Queria ter certeza de que a gente tinha usado camisinha, queria que eu mostrasse a camisinha. Ela ficou muito nervosa e quando me dei conta eu estava debruçado no cesto de lixo, procurando a camisinha no meio dos papéis higiênicos. Quando me dei por mim, falei: "eu sei que usei camisinha e ela está aqui no lixo. Se você quiser pode procurar". Saí e depois de um mês ela veio me pedir desculpas.

O principal cuidado é eu me manter saudável

Quando conheci minha esposa, foi tudo muito rápido. A gente logo começou a namorar. No primeiro dia, ela me chamou para ir à casa dela e eu fiquei um pouco nervoso; eu sempre fico na hora de contar que tenho HIV.

Demorei uns dois dias para contar e quando contei ela falou: 'por mim não tem problema nenhum'. Então a gente namorou e depois se casou.

O cuidado dentro do nosso casamento em relação ao HIV quem toma sou eu, todas as noites antes de dormir, um pequeno comprimido de antirretroviral. Eu tenho quantidade de vírus no sangue indetectável. Isso quer dizer que mesmo nos exames mais precisos não é possível encontrar nenhum vírus circulando no meu sangue, desde que eu esteja tomando os antirretrovirais corretamente.

Faço exames trimestrais e eu sempre estive indetectável. E, por opção nossa, eu e minha mulher transamos sempre sem camisinha. E também sem medo".

*Nome fictício a pedido a entrevistada.

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