Comportamento

Mulher sobrevive a assassinato do filho incentivando esporte na periferia

Divulgação/Vida Corrida
Neide (primeira da direita para a esquerda) perdeu um filho assassinado e encontrou consolo no esporte Imagem: Divulgação/Vida Corrida

Adriana Nogueira

Do UOL

15/09/2017 04h00

Marineide dos Santos Silva, a Neide, 56 anos, nasceu em Porto Seguro (BA) e com seis anos veio morar em São Paulo, dada em adoção pela mãe para uma família que prometeu colocá-la na escola. Na chegada, o primeiro baque: de cara, foi colocada para fazer serviço doméstico, sem remuneração. Estudar, mesmo, só aos dez anos. Foram três lares adotivos até os 16, quando reencontrou a mãe biológica. Nesse período, além de enfrentar o trabalho escravo, foi violentada.

Casada aos 18, perdeu o primeiro marido, morto por um policial militar. O filho mais velho, Mark, foi assassinado, aos 21 anos, em um assalto. Apaixonada por correr, Neide encontrou uma saída para continuar de pé no esporte, transformado em um projeto social que atende –sem ajuda do poder público— 600 pessoas no Capão Redondo, um dos bairros mais violentos da periferia de São Paulo. Veja a seguir o seu relato

Infância arrancada

“Minha mãe não tinha condições de me criar e me entregou para uma família que morava em São Paulo. Era aquela promessa de pôr para estudar, mas, quando cheguei, aprendi mesmo a fazer serviço doméstico. Nessa casa, sofri abuso sexual até os nove anos. Passei para um segundo lar adotivo. Os abusos pararam, mas trabalhava sem receber salário nem ir para a escola. Só fui começar a estudar aos dez, na casa de uma terceira família, onde continuei trabalhando sem remuneração.

O esporte entrou na minha vida aos 14, quando comecei a participar de campeonatos de handball no colégio. Um dia, em uma competição que tinha outras modalidades, faltou uma menina na prova de revezamento quatro por cem. Um professor falou: ‘Coloca a Neide’. Naquele dia, me apaixonei pela corrida e nunca mais parei.

Divulgação/Vida Corrida
Imagem: Divulgação/Vida Corrida
Sonho de ser atleta ficou de lado

Sonhava ser atleta profissional, participar de uma Olimpíada, quando minha mãe biológica apareceu. Parei de treinar para conseguir conciliar estudo e trabalho para ajudar a criar meus cinco irmãos, sem a colaboração de nenhum dos pais. Como não tinha mais tempo para treinar em pistas, corria na rua.

Com 18, eu me casei. Meu primeiro filho, o Mark, nasceu mais ou menos um ano depois. Ainda na década de 1980, fiquei viúva. Meu marido foi morto em uma operação da Polícia Militar. A justificativa? Era suspeito e não obedeceu a ordem de parar [ela se casou uma segunda vez e teve os filhos Lídia e Marcelo]. Foi difícil, mas fui adiante. Segui correndo.

Levantava de madrugada para treinar e depois ir para o trabalho. Era a única mulher que corria na comunidade em que vivia. Um dia, uma vizinha perguntou se eu não a treinaria. Como ela tinha 60 anos, outras moradoras da vizinhança começaram a questionar: ‘Se

O assassinato do filho

Nessa época, o Mark me perguntou: ‘Mãe, por que você não treina as crianças do bairro?’. Eu já era muito ativa na comunidade. Tinha o grupo de corrida, era presidente da associação de moradores da Cohab em que morava. Respondi que não tinha tempo. Quando ele tinha 21 anos, o baque. Morreu assassinado em um assalto. Nada do que tinha vivido até ali chegou perto de ser tão arrasador para mim.

Não tinha forças para ficar em pé, para andar, que dirá para correr. As mulheres batiam na minha porta, chamando-me para treinar, eu falava: ‘Amanhã, eu vou’. Até que uma delas me falou para começar a treinar as crianças do bairro. Comecei fazendo isso aos sábados, mas logo negociei no trabalho de entrar mais tarde duas vezes por semana. Minhas chefes, duas arquitetas para quem eu trabalhava como costureira, toparam, mas falaram que reduziriam o meu salário. Topei, sem nem fazer as contas.

Fazendo o bem para muita gente

Durante nove anos, fiz esse trabalho no anonimato. Foi em 2009, ao assistir a uma palestra de uma ONG, que me toquei que o que fazia era um projeto social. Em maio desse ano, o Vidas Corridas ganhou o prêmio Nike Game Changers como melhor projeto social brasileiro de inclusão de meninas e mulheres.

Hoje atendemos cerca de 600 pessoas, entre adultos e crianças, com aulas de atletismo, basquete e condicionamento físico. A Nike patrocina as atividades com crianças. Para manter as com adultos, a cada duas palestras que faço, uma vai o projeto. O Vida Corrida existe pelo Mark. Sinto a presença diária dele. O projeto não é o meu trabalho, é a minha missão.”

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