Comportamento

'Sou a Gata de Rodas e faço disso o combustível da minha autoestima'

Reprodução Instagram
Ivone Gomes de Oliveira, 48 anos, é a Gata de Rodas Imagem: Reprodução Instagram

Daniela Carasco

do UOL, em São Paulo

18/09/2017 04h00

Aos seis meses de vida, Ivone Gomes de Oliveira, 48, foi diagnosticada com poliomielite, popularmente conhecida como paralisia infantil. Ivone conta que seu primeiro episódio de preconceito veio de onde menos se espera: da família e diretora da escola onde estudava, que se recusou a mudar sua sala de aula para o térreo, fazendo com que ela abandonasse os estudos.

Apesar das dificuldades, ela se formou psicóloga, é uma mulher divertida, bem resolvida e a autora do blog “Gata de Rodas”. Aqui, el fala o que todo mundo deveria saber sobre a invisibilidade dos deficientes físicos, no mês da inclusão

Amigos ótimos, mas exclusão na escola

“Tive uma infância comum a qualquer criança. Fui muito moleca. Como não conhecia pessoas com deficiência, gostava mesmo era de brincar na rua. Empinar pipa fazia a minha alegria. As crianças me tratavam com a maior naturalidade. A cadeira era só mais um brinquedo curioso, diferente e divertido.

O primeiro episódio de preconceito enfrentei justamente nessa fase. Mas ele não veio de um coleguinha desavisado, veio de um adulto, a diretora da escola. Ela se recusou a transferir a turma para uma sala no térreo. Isso me rendeu um distanciamento absoluto dos estudos. Sem nenhuma alternativa, deixei a escola.

Só voltei quatro anos depois, quando a direção mudou. Fiz até a oitava série. Com tantas responsabilidades familiares, minha mãe já não podia mais me acompanhar no colegial. Só consigo movimentar uma das minhas mãos e precisava de um acompanhante.

Em 2007, cansada de me ver só em casa em meio ao artesanato que me distraia, tomei a decisão de começar o supletivo e tirar a carteira profissional. Na mesma época, ganhei meu primeiro computador. Para melhorar minhas habilidades motoras, passava horas papeando em bate-papos on-line. Segura da minha capacidade, me cadastrei em um site de ofertas de emprego e saí disparando currículo para tudo quanto era vaga.

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A 'gata de rodas' com a jornalista e colunista Flávia Durante Imagem: Reprodução Instagram
As empresas não estão preparadas para nos receber

Logo veio a primeira dificuldade. A Lei de Cotas, que obriga as empresas privadas a preencherem entre 2% e 5% de seu quadro com funcionários portadores de algum tipo de deficiência, ainda não promoveu de fato um avanço. Foram seis entrevistas, que me renderam seis negativas. Todos estavam preparados para receber deficientes auditivos e visuais, nenhum cadeirante.

A acessibilidade é um direito nosso. Quem a coloca em prática está respeitando a lei, não fazendo favor. Como não desisto fácil, segui para a minha sétima tentativa, uma vaga home office de telemarketing. Era tudo o que eu precisava. Há dez anos, trabalho de segunda a sexta, das 9h às 15h, da minha casa, com carteira assinada. Em um ano, minha vida mudou completamente. Sentir-se  produtivo é fundamental.

Fiz ainda uma superamiga nas redes sociais, que foi ‘as minhas pernas’ durante quatro anos. Graças a essa ajuda, pude realizar o sonho de fazer faculdade. Entrei em 2008 no curso de ciências contáveis. Confesso que meu maior desejo era ser psicóloga, mas como cresci em uma família de contadores, decidi que essa seria também a minha profissão. Eu me formei aos 43 anos.

O pior preconceito é o que vem de casa

Não me sinto limitada, posso tudo o que quero, mas nem sempre foi assim. Nunca vou esquecer do dia que ouvi do meu pai: “Por que você quer usar sapatos se não anda?”. Eu era adolescente e isso me marcou profundamente. Fique deprimida, revoltada. Ser era ele quem deveria me colocar para frente, o que esperar das pessoas na rua? Naquele momento, veio a certeza: minha vida só dependeria de mim mesma. Em vez de me fechar em casa, decidi me abrir para o mundo. Sempre digo que o que me define é a loucura.

Adoro ir para balada, me jogar na pista de dança. No Carnaval, curti os blocos de rua, e fui até para a Parada LGBT. Só não me digam que sou exemplo de superação. Gosto apenas de fugir das regras.

Digo que estou solteira, mas aberta a relacionamentos. De modo geral, nós cadeirantes somos tratados como assexuados. E isso não é piadinha de Facebook, não. Uma amiga já chegou a ouvir de um desconhecido durante a gravidez: ‘Quem fez isso com você?’. Uma cadeirante casada e com filhos ainda choca.

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Imagem: Reprodução Instagram
Saibam: somos mulheres, temos desejo, sentimos prazer. Se gostar e se permitir sexualmente é bom e saudável. Sou a favor de todas as formas de amor, não me oponho nem ao fetichismo que ainda nos cerca. Sou a Gata de Rodas e faço disso o combustível da minha autoestima. Sem dúvida, o melhor elogio que já ouvi.

Parem de nos tratar como crianças

Entre tantas invisibilidades, a da moda é uma das que mais me incomoda e reforça um dos pontos mais problemáticos que ainda temos que enfrentar, a infantilização. Calço 30 e não aguento mais sapatos da Frozen ou da Mônica. Aliás, por que mesmo acham que precisamos só de roupa de velcro? Essa é a prova maior de que falta deficiente físico nas linhas de produção.

Na rua, falam comigo como se tivessem diante de uma criança no carrinho. Já ouvi mais de uma vez: ‘Ai que bonitinha, pena que não anda’. Já passou da hora de sermos tratados como adultos que somos. A infantilização da pessoa com deficiência vem acompanhada de um rótulo terrível, o de incapaz. Isso, sim, é limitante.”

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