Comportamento

Vocalista da Bomba Estéreo, Li Saumet é a diva pop que a gente devia copiar

Álex Argelés
Imagem: Álex Argelés

Luiza Sahd

Colaboração para o UOL

22/09/2017 04h00

Na esteira do sucesso dos hits latinoamericanos mundo afora, o grupo colombiano Bomba Estéreo lançava, há um ano, o videoclipe "Soy Yo". Estrelado por uma garotinha latina no típico cenário suburbano dos Estados Unidos, o vídeo do álbum "Amanecer" cativou corações pelo mundo inteiro, incluindo o do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, que convidou a atriz mirim Sarai González, estrela do clipe, para conhecer a Casa Branca.

Por trás da história da música, entretanto, há outra menina (já crescida) que continua mandando uma banana para os padrões que costumamos reproduzir, e talvez seu sucesso venha daí mesmo: Liliana Saumet, vocalista do Bomba Estéreo, é mais do que um expoente do ritmo electro cumbia. Nascida em Santa Marta (Colômbia), a cantora de ascendência árabe e francesa estudou publicidade em Bogotá e, ali, conheceu o músico Simón Mejía, com quem começou o Bomba misturando rock alternativo, rap e reggae aos ritmos típicos de Barranquilla.

Dona de uma voz que beira o estridente, amante dos figurinos desmesuradamente coloridos e claramente orgulhosa de suas raízes quando dança o Champeta no palco rebolando até o chão com o marido Brian Rea, Saumet é comparável a uma entidade espiritual — ou uma espécie de Björk caribenha — além de ser "gente como a gente": basta dar uma xeretada em seu perfil @lisaumet no Instagram ou assistir ao videoclipe Somos Dos, protagonizado por ela e Rea no Parque Tayrona, para sentir a vibe.

Com o Bomba, a cantora já emplacou de Disco de Ouro nos EUA a indicações de Grammy, parcerias com a banda Arcade Fire e com Will Smith no hit "Fiesta", além de uma turnê alucinante de lançamento de Ayo, que estará também no Rock in Rio 2017.

Em sua passagem por Madrid, com ingressos esgotados e um público que se esgoelava sem grudar os pés no chão por mais de dois segundos, Li Saumet conversou com o UOL sobre estrelato, Brasil, América Latina, o papel social das mulheres e, claro, música.

Álex Argelés
Li Saumet minutos antes de comandar o palco da Sala Riviera, em Madrid Imagem: Álex Argelés

UOL: Bomba Estéreo é a única banda latina a se apresentar no Rock in Rio 2017. Na faixa "Internacionales", vocês falam sobre a unidade cultural da América Latina. Na sua visão, por que quase não consumimos música dos vizinhos e como está a expectativa para o show no Brasil?

Li Saumet: Tem a questão do idioma, obviamente, que é uma barreira. Quando você canta em inglês, é tudo mais fácil e a gente recebe influências norte-americanas desde sempre, da TV, de tudo. Vejo que agora o espanhol está se tornando cada vez mais importante e algumas portas estão se abrindo. Olha o "Despacito" em primeiro lugar nas paradas mundiais! Fora isso, a cultura brasileira é tão vasta que acaba se bastando em si mesma. Acho até bonito que os artistas locais tenham tanto protagonismo. Faz tempo que não vamos ao Brasil e estamos felizes.

A primeira faixa do novo álbum é "Siembra" (Semeia, em tradução livre). O que você procura semear neste momento particular da sua vida?

Positividade, porque estamos passando por um momento bem difícil no mundo inteiro. Acho importante que falemos sobre o que está ruim, mas não podemos esquecer das belezas e de falar delas. Tento semear a confiança no presente e na possibilidade de sermos mais humanos uns com os outros.

Um aspecto muito interessante da sua personalidade é o fato de você ser uma diva pop, mas sem a parte de diva.

É engraçado ouvir isso, porque estávamos agorinha em um restaurante e uma amiga virou pra mim dizendo: "Você é a única cantora que eu vejo comer assim antes do show. Nunca vi uma diva fazer isso aí e muito menos estar tão relaxada antes de se apresentar". [às gargalhadas]

É. Você destoa muito das cantoras que dominam a cena pop: no modo de cantar, nas letras e na personalidade. Acha que o sucesso crescente do Bomba Estéreo vai acabar te forçando a "se enquadrar" mais em um modelo mercadológico de diva?

Vai ver que sou assim porque nunca sonhei em ser cantora. Foi acontecendo aos poucos e encaro a música como algo que atravessa mais o meu corpo do que minha cabeça, como um transe. Você é diva quando quer ou precisa mostrar algo, mas não preciso mostrar nada. Simplesmente estou fazendo uma coisa para mim e para as pessoas que partilham daqueles momentos, porque o bonito é essa comunicação. Sinto que os artistas deveriam se assemelhar mais aos monges do que a divas, porque quanto mais você é diva, mais se afasta da espiritualidade. Busco essa espiritualidade acima de tudo.

Tipo abrir mão da vaidade?

Bom, eu estaria mentindo se dissesse que não adoro a maquiagem, os sapatos, os figurinos. Mas quero me desligar um pouco do material e me tornar mais um vetor de comunicação. Você acha que o que está rolando conosco é porque eu sou linda ou porque minha voz é divina? Não é. Minha voz não é linda. Mas sei que tenho algo como comunicadora e que as pessoas conseguem receber o que a música reflete quando passa por mim. Me assusta a ideia de ser muito famosa pela perspectiva de isso se perder um pouco.

 Mas já parece inevitável.

Talvez não, e me parece possível até porque o Bomba Estéreo é um pop mais cool. Nossos fãs são meio relaxadões que nem a gente, então eu posso me misturar às pessoas depois do show e tomar uma cerveja. Não me escondo nunca e não me incomodo que falem comigo ou me toquem. Ficaria meio louca sem essa liberdade, sem poder andar pelas cidades, ir às praias e me sentir tranquila.

Bom. Pode ser que o Barack Obama tenha atrapalhado um pouco esses planos.

Ufa! Felizmente, nem todo mundo que escuta Bomba Estéreo conhece nossas caras, porque somos bem low profile e nem sempre aparecemos nos videoclipes. Inclusive, nem aparecemos no mais famoso de todos.

Por falar em divos e divas, quem são as mulheres te inspiram?

Todas. Principalmente minhas avós. Uma morreu há pouco com noventa e tantos anos; outra está viva e também com noventa e muitos. Foram sempre muito guerreiras. A mãe do meu pai não tinha marido e cuidava da vida, dos filhos e da casa sozinha. As mulheres me parecem ainda mais incríveis quando vemos a dinâmica com os filhos. Minha outra avó teve doze e também ficou viúva com tudo isso. Foram duas pessoas que me ensinaram o que é força.

Álex Argelés
Li Saumet minutos antes de comandar o palco da Sala Riviera, em Madrid. (Foto: Álex Argelés) Imagem: Álex Argelés

Essas mulheres "invisíveis" costumam ser as mais fascinantes, não?

Claro. Óbvio. Mas pera aí, invisíveis para quem? Porque às vezes a gente tem que optar entre carreira e família. Prefiro ter uma família a ter uma carreira. Quando escolhemos a carreira, somos mais visíveis para outras pessoas, mas em outro nível de conexão.

Pois é. Muitas mulheres se angustiam na hora de hierarquizar sucesso e vida familiar. Em algum momento você hesitou antes de sair para essa turnê imensa com o seu filho a tiracolo?

Sim. Eu hesito um pouco todos os dias [risos]. É difícil porque tenho que girar os pratos de mãe e de profissional simultaneamente e, na turnê, tenho compromissos fixos. Se pudesse escolher sinceramente ao que dizer sim o tempo todo, seria ao meu filho e às coisas de mamãe.

O que você diria às mulheres que estão passando por esse dilema?

Pessoalmente, escolheria minha família, mas ambas escolhas são muito valentes. Eu diria que, seja qual for a opção, mantenham a cabeça fria em relação às coisas de que precisam abrir mão, sentindo que serão felizes e que tudo fica bem, no fim das contas. Se a pessoa fica se remoendo depois de uma decisão assim, não consegue fazer nada direito. É que nem quando a gente come alguma coisa com culpa ou achando que vai fazer mal: faz mal mesmo.

"Soy yo" virou um hino para muita gente que se sente esquisita ou inadequada. Como você se definiria se fosse completar a frase Liliana Saumet é…?

Exatamente como a letra da música. Fala de mim. Relaxada, na areia, sem crise, sem problemas.

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