Comportamento

Sem cabelo e felizes: mulheres contam como convivem com a alopecia

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

03/10/2017 04h00

Alopecia significa queda de cabelo. Entretanto, quando associada a palavras como "androgenética", "areata" e "universal", trata-se de uma doença autoimune, que ataca os folículos capilares. Segundo os especialistas entrevistados pelo UOL, acomete homens e mulheres na mesma proporção.

Os nomes --pela ordem escrita acima--, demonstram a gravidade da perda dos fios. No primeiro, ocorre um afinamento ao longo do tempo. O segundo atinge 1% da população brasileira e a queda acontece por completo em determinados pontos da cabeça. A perda total dos pelos do corpo é denominada universal. Para todos há tratamento, mas não existe cura. 

Segundo Gabriela Paes, dermatologista e membro da ABT (Academia Brasileira de Tricologia), a maioria dos casos, mesmo quando afeta crianças, está associada a picos de estresse e, sim, a componentes genéticos.

A professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná) Fabiana Brenner explica que é preciso ter uma relação de parceria entre médico e paciente, pois os métodos de intervenção têm efeitos colaterais diversos. Embora seja uma doença potencialmente estética, não se trata "só do cabelo", pois a alopecia afeta a qualidade de vida das pessoas.

"Para o diagnóstico e escolha do processo terapêutico, avaliamos todos os fatores ambientais nos quais a pessoa está inserida. O acompanhamento psicológico também faz parte e é importante", afirma a dermatologista, que é assessora do departamento de cabelos e unhas da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia).

A seguir, Kelviany, 33, Beatriz, 26, e Thalita, 26, que descobriram a alopecia areata na adolescência e, hoje, não têm mais qualquer pelo no corpo, contam como convivem com a doença e superaram os estigmas de serem mulheres sem cabelo.

 

Batom vermelho e brincos grandes são minha nova moldura

Arquivo pessoal
Kelviany Xavier descobriu a alopecia areata aos 14 anos Imagem: Arquivo pessoal

"As primeiras falhas apareceram com 14 anos. Passei por mais de dez dermatologistas e, com exames de sangue e hormonais normais, diagnosticaram alopecia areata. Não existiam tantos tratamentos como hoje. Na época, tomei comprimidos fortíssimos de corticoide, que faziam os fios nascerem novamente, mas caírem em outros lugares do couro cabeludo. Na escola, eu andava com ele preso para disfarçar, mas quando crescia, principalmente na parte de cima, ficava espetado e as pessoas me chamavam de Cebolinha. Hoje é engraçado, mas foi cruel. O ápice da queda foi em 2012, quando passei por uma crise conjugal. Em 2014, gastei mais de R$ 3 mil em infiltrações de corticoide, fora os outros medicamentos, e tive que assinar um documento de responsabilidade por qualquer efeito colateral mais forte. Lutei muito para ter meu cabelo de volta, mas cansei. No Natal de 2016, raspei o pouquinho que ainda tinha. Fiz um post no Facebook para as pessoas entenderem e não se espantarem ao me verem careca. No começo é estranho se ver sem cabelo, as pessoas te olham e, quem não me conhece acha que tenho câncer e estou passando por quimioterapia. Usei boinas e bandanas por muito tempo, mas não gosto. Não tenho mais meu cabelo, mas procuro outras 'molduras'. Sempre uso batom vermelho e brincos grandes. Fiz a micropigmentação da sobrancelha, não saio sem lápis preto e, em ocasiões especiais, coloco cílios postiços. Tive acompanhamento psicológico até 2016, quando finalmente encontrei meu equilíbrio emocional para lidar com essa condição."

A terapia ajudou o processo ser menos sofrido

Arquivo pessoal
Beatriz Santos perdeu os primeiros fios aos 16 anos Imagem: Arquivo pessoal

"Comecei a fazer terapia aos 16 anos, quando descobri a alopecia areata. Tratar o emocional fez esse processo ser menos sofrido e me preparou para o momento em que perdi todo o cabelo. A pressão da sociedade, principalmente para a mulher, é muito grande. As pessoas veem como algo estranho tudo o que foge ao padrão. Depois de passar por seis dermatologistas, fazer todos os tipos de tratamento possíveis com pomadas, loções, homeopatia e até pulsoterapia --quando você fica internado três dias para tomar corticoide com soro--, resolvi parar. Em 2011 as falhas começaram a aparecer mais. Eu estava na faculdade e prendia de um jeito que disfarçava. Nas férias de 2012, não dava mais para esconder e raspei o restinho que tinha. Postei uma foto careca no Facebook antes de voltar às aulas para não ter que esconder de ninguém. Ainda usei chapéu e lenço por um tempo, mas quando sentia vontade saía sem nada. Comecei a andar com um acessório na bolsa porque me sentia mal ao entrar em algum lugar e todos os olhares se voltarem para mim. Não lembro exatamente quando percebi que não precisava mais dessa estratégia. A sobrancelha também caiu e faço o desenho todos os dias. Com a prática, hoje, estou pronta em dois minutos. Tenho uma peruca guardada, da mesma cor e comprimento do meu cabelo natural, mas usei apenas três vezes. Me sinto mais livre sem ela e estou bem assim."

Uso peruca porque me sinto melhor e mais poderosa

Arquivo pessoal
A jornalista Thalita Freitas teve os primeiros sintomas da alopecia quando tinha 4 anos Imagem: Arquivo pessoal

"A primeira falha apareceu quando eu tinha 4 anos. Na época, minha mãe me levou até a farmácia de um conhecido, que receitou uma pomada e meu cabelo voltou. Por conta disso, cresci com o fantasma da queda de cabelo. A segunda queda mais brusca aconteceu aos 13. Minha mãe era cabeleireira e decidimos cortar um palmo, cerca de 20 cm. Os fios continuaram a cair e, no meu aniversário de 15 anos, o último fio se foi. Comecei a usar gorro, lenço, boné.... Como não nasceu mais, me estimularam a usar peruca. Fiz muitos tratamentos, alguns extremamente dolorosos, como a crioterapia (com aplicações de gelo no couro cabeludo) e infiltração de corticoide. Era a pior coisa do mundo e, mesmo assim, eu não reclamava. Depois de dois anos sem nenhum fio sequer, o cabelo voltou a nascer, mas muito pouco. Cerca de um ano depois, quando minha mãe morreu, perdi muito cabelo de novo e decidi raspar o que sobrou. Não tinha mais cílios, sobrancelha, nada. O processo é muito doloroso, porque não depende só da gente, mas do círculo de amizades, da família e com quem convivemos no dia a dia. Tive muito apoio dos amigos na época da escola e agradeço por isso. Por outro lado, alguns se afastaram... É possível enxergar julgamento nos olhos das pessoas. Quando entrei na faculdade, todos os dias uma menina me pedia rímel emprestado. Dói na alma. As pessoas olham para você como alguém doente. Perto da minha formatura, meu irmão perguntou se eu queria uma peruca nova e me deu uma prótese capilar de silicone. Nunca mais deixei de usar, me sinto melhor, mais poderosa. Tenho perucas de outras cores, como marsala, vermelha com roxo e até uma preta cacheada, mas a que mais gosto é a ruiva. Virou uma brincadeira. Uso dentro de casa e durmo com ela. Só tiro quando está muito calor. Minhas amigas me veem sem cabelo, mas não me vejo saindo na rua assim."

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