Comportamento

Me apaixonei pelo meu terapeuta, e agora?

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Imagem: Getty Images

Daniela Carasco

do UOL, em São Paulo

10/10/2017 04h00

A escritora mineira Laura Conrado, 33, já se viu completamente apaixonada por seu terapeuta. Um comportamento, na verdade, comum a muita gente. Filha de psicólogos, ela nunca dispensou a terapia. Ao 22 anos, quando precisou mudar de cidade por uma questão profissional, foi atrás de um novo especialista.

“Por indicação, cheguei a um homem. Até então, só tinha feito análise com mulheres. Em dois meses, comecei a reparar em seus olhos verdes, achar a voz sexy. Me apaixonei loucamente. Era como se, em vez de resolver meus problemas, eu tivesse arrumado mais um”, conta.

Do plano das fantasias ao amadurecimento

À medida que o envolvimento crescia, Laura transformava a ida ao consultório em um grande evento. Comprava roupas novas, alisava os cabelos e preparava o discurso para tentar conquistá-lo. “Em vez de falar das minhas frustrações, escondia tudo o que me angustiava e o que pudesse trazer à tona meus defeitos. Afinal, quando estamos interessados em alguém, queremos passar uma boa imagem. Basicamente, ‘interrompi’ a terapia para viver aquela paixão platônica.”

Na saída dos atendimentos, escrevia longos e-mails contando todos os detalhes às amigas, irmãs e até para a própria mãe, que foi quem a convenceu a abrir o jogo com o especialista. “Aquela situação tinha tudo a ver com as minhas escolhas afetivas da época. Eu só me envolvia em paixões do plano da fantasia, essa era só mais uma. Com medo de sofrer, evitava intimidade e fugia de relacionamentos reais e profundos. Era tudo coisa da minha mente. Eu não sabia nada sobre aquele homem, só a idade, 38 anos. No fundo, idealizava suas qualidades e, com isso, queria até casar com ele.”

Ao expor sua situação em uma das consultas, ouviu do especialista que se tratava de algo comum. Durante um ano, Laura trabalhou sua deficiência emocional com a ajuda dele. “Toda essa história serviu muito para o meu amadurecimento”, diz ela, que aproveitou para contar tudo em seu primeiro livro, “Freud, Me Tira Dessa” (ed. Novo Séculos). Hoje, enxerga com bons olhos a experiência. “Minha cabeça estava muito bagunçada, mas ele em nenhum momento tentou tirar proveito disso, foi muito ético. Por pouco não arrumei outra terapia para tratar dessa.”

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Relação entre paciente e terapeuta

Segundo a psicóloga clínica Juliana Marchi, situações como as de Laura acontecem com frequência e cabe ao profissional tomar as rédeas da situação para tentar resolvê-la de maneira ética. “Quando alguém começa a fazer terapia, a relação entre ela e o especialista é pautada no que chamamos de transferência”, conta. De maneira inconsciente, o paciente pode projetar no terapeuta o próprio pai, a mãe e até um companheiro ou companheira -- prato cheio para o despertar de um sentimento amoroso.

“O que precisa ficar claro é que se trata de projeções do plano da fantasia, idealizadas somente durante o atendimento. O paciente não tem nenhuma relação pessoal com o especialista, como exige o Conselho Federal de Psicologia. Por isso, não consegue construir esse sentimento com base em características reais.”

Do ponto de vista ético, paciente e terapeuta só devem ter contato dentro do consultório. Eles não podem ter vínculo familiar, nem frequentar o mesmo círculo social. O processo terapêutico exige distanciamento emocional.

Como agir?

Assim como fez Laura, o recomendado é se abrir. “Desta maneira, o profissional conseguirá naturalmente trazer o paciente para a realidade e contornar o ocorrido”, explica Juliana. “Quando essa paixão platônica é bem elaborada nas consultas, o processo terapêutico não precisa ser interrompido."

O psicólogo também é capaz de notar alguns sinais desse envolvimento. “Normalmente, os pacientes começam a tentar criar um vínculo fora do escritório, mandam muitas mensagens e até insinuam estar apaixonados por outro com características semelhantes ao do profissional.”

Caso ele demonstre alguma resistência quanto ao teor fantasioso da história, o adequado é que seja encaminhado a outro profissional. “Agora, se o terapeuta de fato se envolver, a situação ganha outros desdobramentos.” Se denunciado ao Conselho Regional de Psicologia, será investigado e corre o risco de perder o direito de exercer a profissão por uma questão de falta de ética.

Se, há dez anos, Laura se sentia sozinha. Hoje, recebe milhares de e-mails e mensagens pelas redes sociais de quem passa pela mesma experiência. De senhoras casadas a jovens gays, os perfis são variados. “Se eu quiser, consigo montar uma associação de apaixonados por terapeutas”, brinca a escritora, que já soma sete livros publicados.

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