Comportamento

Grupos ajudam trans a achar emprego: 'Falta chance em empresas nacionais'

Getty Images
Plataformas divulgam vagas de emprego para pessoas trans Imagem: Getty Images

Daniela Carasco

do UOL

19/10/2017 04h00

Karen, 53, é uma mulher trans. Durante 15 anos, ela gerenciou seu próprio negócio, uma copiadora. Há dois, fechou a empresa e decidiu buscar novas oportunidades no mercado formal. No Facebook, descobriu que uma grande rede de supermercados francesa havia adotado uma política de contratação de pessoas trans. Hoje, ela trabalha como operadora de caixa.

"Embora seja uma corporação grande, com muitas oportunidades, essa não é a função que eu gostaria de exercer, confesso. Mas foi o que me ofereceram e encarei como um primeiro degrau”, conta. “Sou capaz e suficientemente instruída para ocupar uma posição administrativa. Então, espero que isso seja provisório." Apesar de não ter enfrentado episódios explícitos de transfobia, ela foi preterida por diversas empresas menores. Por isso, acredita nas cotas como forma de inclusão.

A falta de oportunidade ainda impera

O caso de Karen é raro. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) estima que 90% das pessoas trans trabalhem com prostituição. A falta de oportunidade enfrentada por elas no mercado formal provoca essa dura realidade. Muitas são qualificadas e acabam demitidas ao dar início à transição. A notícia boa é que há quem se dedique a mudar esse cenário.

No Facebook, a comunidade Transemprego, que ajudou Karen, conta com mais de 7 mil participantes e anuncia semanalmente uma média de três vagas. As oportunidades vêm das mais variadas áreas: engenharia, informática, advocacia, atendimento ao cliente. Todas em grandes empresas comprometidas com a causa.

Márcia Rocha, advogada integrante da Comissão da Diversidade Sexual da OAB-SP e coordenadora do projeto, calcula que 200 pessoas já tenham sido empregadas com a ajuda dos anúncios, desde 2014, quando foi lançado.

Ajuda aos profissionais autônomos

A fim de minimizar o sofrimento dessa parte da população que ainda é marginalizada, a militante e analista de sistemas Daniela Andrade criou o site Transerviço. A iniciativa carrega dois propósitos: um voltado ao profissional trans ou travesti que queira ofertar seu trabalho e o outro a pessoas sensíveis à causa, que queiram contratar. Atendimento psicológico, sessões de acupuntura e assessoria jurídica são os anúncios mais recorrentes.

Militante diz que empresas precisam se sensiblizar

Márcia Rocha acredita que a mudança só será completa quando as empresas se comprometerem a adotar processos seletivos sem discriminação, e criarem um ambiente acolhedor aos funcionários trans.

Desde 2015, ela integra um fórum de grandes empresas --44, até o momento-- que se mostraram que já assinaram seu compromisso. “Para que comecem a colocar as atitudes em prática, organizo palestras sobre o assunto. Faço um trabalho de capacitação, principalmente, com a equipe de recursos humanos.”

No dia a dia do funcionário, ela destaca como fundamental o uso do nome social em e-mails, crachás e tratamento pessoal, assim como a liberação do banheiro de acordo com o gênero com o qual se identifica.

“Conscientizar as equipes quanto à quebra de preconceitos também é muito importante. E isso deve ser adotado principalmente pelos gestores para que se perpetue”, diz. Por isso, cartilhas e palestras são recursos valiosos.

Apesar de reconhecer uma melhora do mercado nos últimos dois anos, por conta do aumento de debates sobre o tema, Karen lamenta a falta de envolvimento das corporações nacionais. "A maioria das iniciativas vêm das multinacionais. Falta chance nas nacionais", diz. 

“Trans ocupam vagas que os aceitam, não as que desejam”

A mestranda da FEA USP Maria Carolina Baggio, que apresentou como trabalho de conclusão da graduação uma pesquisa sobre o assunto, concorda com Márcia. Depois de entrevistar pessoas trans que estão empregadas, ela notou uma falta de sensibilização dos profissionais de RH na hora do recrutamento. “Muitos ficam assustados quando recebem o currículo do candidato com o nome civil. Isso é muito delicado”, conta.

A questão da transição também é delicada e acaba impactando diretamente no seu crescimento. “Encontrei uma enorme restrição de oportunidades. Em muitos casos, o fato de ser trans se torna um impeditivo à permanência na empresa e traz dificuldade para a reinserção no mercado, independentemente de classe social, raça ou nível educacional. Tem muita gente qualificada desempregada por ter transicionado.”

Durante a pesquisa, Maria Carolina descobriu ainda o termo “passabilidade”, que se refere ao preconceito sofrido por esses profissionais. “Quanto mais ‘passável’ é a pessoa, ou seja, quanto menos trans ela parecer fisicamente, maiores são as suas chances de ser empregada e de ser bem-sucedida. Isso precisa mudar.”

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