Comportamento

Ingrid Silva é estrela de balé em NY: "Enfim, não era única negra da turma"

Natacha Cortêz

Do UOL, em São Paulo

21/10/2017 04h00

O balé mudou o destino de Ingrid Silva: a tirou do bairro de Benfica, na zona norte do Rio de Janeiro, e fez dela primeira bailarina de uma importante companhia em Nova York, a Dance Theatre of Harlem, conhecida por ser pioneira em ter dançarinos negros em suas apresentações.

Aos 28 anos e com incontáveis horas de ensaio na bagagem --são ao menos 7 por dia nos últimos dez anos--, a carioca fala com orgulho de onde chegou. “O balé é uma atividade exigente. Pede que você abra mão do tempo, amigos e família, das suas horas vagas e liberdades, como a de comer o que bem entende. Por outro lado, transforma radicalmente sua vida. Mas me deu um lugar no mundo.”

“Ana Botafogo era o que eu tinha de referência”

Hoje, Ingrid é o modelo que lhe faltou quando criança. As garotas negras para quem dá aulas têm em quem se inspirar. Olham para sua dança e celebram a cor de sua pele. Isso, ela não teve. "Quando comecei a dançar, minha referência era Ana Botafogo. Olhava para arte que ela fazia, e era uma das coisas mais bonitas que já tinha visto alguém fazer. Mas era impossível me enxergar nela.”

Há mulheres negras no balé clássico, mas elas não estão em companhias de dança no Brasil, conta. "A maioria sai do país para conseguir dançar.” Para a Ingrid, um dos responsáveis por essas bailarinas procurarem outros lugares é o racismo. Com ela, ele foi implacável. "Eu percebia olhares preconceituosos, mas minha mãe me ensinou a não me deixar abalar por eles. O racismo não precisa ser falado para agredir. Um olhar torto basta.”

@ingridsilva
Imagem: @ingridsilva

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"Aprendi a sentir orgulho de quem sou"

O balé era quase um desconhecido para Ingrid quando ela foi levada pela mãe, a empregada doméstica Maureny Oliveira, ao seu primeiro teste no grupo Dançando para Não Dançar, projeto que oferece aulas para crianças de comunidades carentes da capital fluminense. “Tinha oito anos e não tinha ideia de onde estava me metendo.”

@ingridsilva
Ingrid aos 8, quando começou no balé Imagem: @ingridsilva

Aos 18 anos, desembarcou sozinha em Nova York depois de ganhar a bolsa da Dance Theatre of Harlem. Nos primeiros dias, só chorava, ligava para mãe dizendo que queria voltar e ela, por sua vez, respondia: “Aqui no Brasil não tem nada para você, filha. Fique aí. Aí é o seu lugar”. Ingrid foi ficando, ficando e já está na cidade há dez anos.

O fato da companhia nova-iorquina priorizar a diversidade ajudou, e bastante, na adaptação da brasileira. “Entrar numa sala de dança e perceber que a cor da minha pele não faz nenhuma diferença, me fortaleceu. Eu me senti acolhida, vi meninas parecidas comigo e me vi nelas. Aprendi a sentir orgulho de quem sou.” Os ensaios na nova cidade mostraram que mulheres negras chegavam sim ao balé clássico.

@ingridsilva
À esquerda estão as sapatilhas de Ingrid, pintadas por ela mesma com maquiagem Imagem: @ingridsilva

Sapatilhas da minha cor

As sapatilhas usadas no balé, assim como o colant e as meias, são disponibilizadas na "cor de pele”. Acontece que a “cor de pele”, no caso, se limita à paleta rosada. O bailarino fundador da Dance Theatre of Harlem, Arthur Mitchell, um homem negro, quis mudar o cenário e deu a ideia que seu elenco pintasse as sapatilhas da cor da pele de cada bailarino. “Isso tem um significado gigante para a gente. O ato de pintar a sapatilha da cor da minha pele me faz quem eu sou, manter meu cabelo black, também”, diz Ingrid.

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