Relacionamento

"Cansei do casamento perfeito e chutei o balde. Loucura? Não sei ainda"

Getty Images
Imagem: Getty Images

Claudia Rato

Colaboração para o UOL

23/10/2017 04h00

"Só quero borboletas voando no meu estômago". Foi com essa frase que Marta* justificou a decisão de acabar com um relacionamento “perfeito”, de quase duas décadas. O fato é que, até hoje, ela não entende o motivo que a levou a romper com o marido. Se ela se arrepende? Também não sabe dizer.

"Sofri muito com a minha escolha –e sofro, ainda. Ele sempre foi o melhor marido do mundo. Não tenho nada para reclamar dele. Continua sendo a mesma pessoa com quem me casei, mas eu não sou mais a mulher com quem ele se casou. Mudei e busco algo que não sei o que é", conta.

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Marta é comissária de bordo, beira os 50 e foi casada por 18 anos com Hélio*, hoje com 51, com quem teve dois filhos (de 10 e 14 anos, atualmente). Nos últimos cinco anos, passaram a dormir em quartos separados, segundo ela, sem nenhum motivo. Há dois, tenta aliviar sua angústia na terapia.

Alguns meses atrás, pediu a separação. “Ele não aceitou, e não aceita até hoje, embora já tenha uma namorada”, diz Marta. Formalizaram, então, a situação apenas nas palavras e não no papel. Muitos não sabem do desenlace, já que o casal mora sob o mesmo teto. E pretendem continuar assim por muito tempo. “Por mim, eu passaria todos os Natais com ele, meus filhos, e até a namorada dele, se fosse o caso”.

A dupla mantém as aparências para algumas pessoas próximas, que ainda não estão preparadas para encarar essa mudança, segundo ela. Leia o relato.

Venho de uma educação onde casamento é para a vida toda

“Meu pai adora o Hélio, não pode nem sonhar! Temo que ele passe mal. Minha sogra, um amor de pessoa, também não sabe. Quando disse à minha mãe, ela se fez de surda e muda, minha irmã também. Algumas amigas desacreditam quando eu falo, afinal, eu fazia parte daquele grupo das famílias de propaganda de margarina.

Quanto aos meus filhos, os preparei por dois anos para dar a notícia. Antes mesmo do pai, eles foram os primeiros a saber da minha posição. Sobre a namorada do Hélio, o menor não pode nem sequer desconfiar da existência dela. Ele sofreu muito com a separação. Chorava de perder o ar e, hoje, foge do assunto. Isso dói, mas eu sei que eles vão crescer e viver a vida deles, e eu preciso viver a minha.

Se eu conhecer alguém, vejo o que faço 

A namorada de Hélio não comenta nada. Fazer o quê? Não posso deixar meus filhos longe do pai, que tem muita afinidade com eles. E não tenho como morar sozinha, hoje. Então, vamos levando. Não sei até quando ela vai entender e aceitar. E, se um dia eu conhecer alguém que não goste dessa situação, daí vejo o que faço. Por enquanto, está cômodo para nós dois.

Dividimos as despesas em comum, nos damos muito bem e quase não nos esbarramos em casa por conta do meu trabalho, já que estou sempre viajando –aliás, às vezes me pergunto se minha profissão pesou nessa decisão. Viajo o mundo e vejo muita gente diferente, com conhecimentos diferentes, e isso pode ter mexido comigo, sei lá...

Nunca discutimos a relação, talvez isso tenha faltado

Vivemos um conto de fadas que durou quase 15 anos, sem contar namoro e noivado. O Hélio é uma pessoa fantástica. Jamais brigou, gritou comigo ou me desrespeitou. Muito gentil, educado, amoroso, alegre e divertido com todos. Sempre me cobriu de atenção, mimos e carinho, e nada mudou da parte dele. Nunca tivemos uma D.R. [discutir a relação]. Talvez tenha faltado isso

Eu sentia preguiça de transar e fugia

Nos cinco últimos anos, passamos a dormir em quartos separados ou com os filhos na cama do casal. Muitas vezes, eu deitava no sofá e lá mesmo ficava. Sem perceber, a gente foi se distanciando. Não havia mais atração da minha parte e eu tinha preguiça de fazer sexo. Achei que fosse um problema meu, então, tentei me reanimar com alguns brinquedos de Sex Shop, mas notei que não queria mais transar com o meu marido. Como assim? Pirei! A partir daí, vi que meu castelinho começava a ruir.

Algumas vezes, transamos, porque ele me procurava, mas, depois, eu sentia um vazio tremendo. Percebi que eu estava me violentando, pois não tinha vontade nenhuma. Aí começava minha saga de lágrimas, e, nós, sem conversarmos a respeito.

Não quero estar casada para agradar família ou sociedade

Vejo muitos casamentos falidos, arruinados, amores fraternos, mas as pessoas não se separam por conta de convenções da sociedade, filhos, trabalho, dinheiro. Não quero essa hipocrisia. No fundo, há milhões de casais infelizes, sem contar o número de homens com relações extraconjugais por não estarem mais satisfeitos com a vida de casado.

Por outro lado, as mulheres, ainda são criadas para serem donas de casa, esposas, mães, sufocando a necessidade de serem felizes. Mas, hoje em dia, ganhamos espaço para pensar, sonhar, questionar e viver. No entanto, ainda assim, continuamos reprimidas pela sociedade.

Eu só não quis isso para mim. Sou uma sonhadora, sim. Procuro algo que não vivi, embora tenha vivido uma vida intensamente maravilhosa e confesso que abri mão dela, mas, hoje, não me vejo procurando por ninguém, estou apenas me procurando. Só fiz o que minha alma precisava que eu fizesse para ficar em paz comigo mesma.

Talvez faltou ‘pular a cerca’, mas essa não seria eu

Vai ver faltou isso. Só que essa não seria eu. Não sei se ele tinha uma amante, mas homem você sabe como é: não consegue ficar tanto tempo sem ninguém. Hoje, ele tem uma namorada, um amor de pessoa, um doce, e confesso que fiquei muito feliz e aliviada quando eu descobri, pois ele merece ser feliz com alguém.

Quanto a mim, até tive um caso recente. Foi um reencontro de 25 anos atrás. Ficamos juntos por um tempinho, mas ele foi trabalhar do outro lado do oceano. Foi um envolvimento intenso, porém curto. Mas não estou atrás de aventuras, sexo por sexo. Se aparecer alguém, bacana...

Todo mundo deveria fazer terapia

Por enquanto, vou fazendo minha terapia. Aliás, acho que todo mundo deveria fazer e isso ser custeado pelo governo. Talvez evitaria tantos conflitos conjugais e, quem sabe, até salvaria casamentos.

No meu caso, a terapia me fez entender que a vida continua e instituição familiar não é só papai, mamãe e filhinhos, e que, mesmo separados, podemos ser uma família nos moldes diferentes dos impostos pela sociedade, e que isso não tem problema nenhum. O que eu quero hoje é ser feliz. Como? Ainda não sei"

*Os nomes foram trocados a pedido da entrevistada

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