Comportamento

Ser feminista torna o relacionamento amoroso com homens mais difícil?

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Helena Bertho

Do UOL, em São Paulo

30/10/2017 04h00

Cada vez mais mulheres estão se considerando feministas, tanto que nos últimos dois anos, a busca pela palavra cresceu 200% no Google. E o que muitas delas têm notado é que, a partir do momento em que a igualdade entre os gêneros passa a ser uma questão em suas vidas, o relacionamento com o sexo oposto pode ficar complicado.

MC Carol, por exemplo, ao terminar seu casamento, disse que não dá para "ser uma mulher feminista, independente e casada". Ao UOL, ela explicou: "Meu ex não era um machista completo, era machista quando se tratava de ciúmes, de posse. (...) Ser feminista é ser independente, é ser livre. Eu não estava conseguindo ser livre nesse casamento".

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A psicóloga Valeska Zanello passou os últimos 13 anos pesquisando a desigualdade de gênero dentro de relacionamentos e está prestes a lançar um livro sobre o assunto. Na sua pesquisa, ela conclui que sim, é mais difícil para as mulheres feministas se relacionarem com homens.

"Numa sociedade sexista, há uma relação hierárquica cheia de desigualdades. O feminismo traz à tona certos aspectos que passam a ser inaceitáveis para a mulher", explica. Mas apesar disso, ela acredita que esses relacionamentos podem funcionar. "Há homens que estão abertos a desconstruir certos aspectos. A questão não é a relação hétero, mas sim com quem se relacionar".

Equilíbrio difícil, mas possível

Para a escritora Ana Paula Lisboa, a combinação tem dado certo. "Desde que me identifiquei com o movimento e passei a me declarar feminista e continuei me relacionando com homens, é um equilíbrio difícil, mas possível. Pelo menos quando estou com paciência", diz.

Ela acha que o fato de deixar claro que é feminista ajuda, pois os homens já sabem que existem certas coisas que para eles são naturais, mas que ela pode não encarar assim. Por exemplo, deixa claro que ele não será prioridade na vida dela e também que é preciso não ser machista para continuar em sua vida.

"Claro, eles depois de um tempo mostram que não são tão desconstruídos assim, e se você dá uma mínima brecha eles crescem, e crescem mesmo, tudo o que podem. Por isso, mulheres feministas muitas vezes acabam caindo em relações abusivas, por breves momentos de carência, descuido, fragilidade, que homens aproveitam", diz. Mas para ela vale à pena.

Para Tamiris Cantare, psicóloga doutoranda em prevenção à violência de gênero, o comportamento de Ana é parte de um processo importante: "identificar esses comportamentos e mostrar para o homem, ajudar a identificar e reconhecer é uma forma de educação. As pessoas estão sempre em transformação", defende.

"A gente sempre sofre"

Anna Haddad, advogada e criadora do site feminista Comum, acredita que ser feminista e amar um homem pode ser difícil. "A gente sempre sofre. Começa a ver as coisas com outras perspectivas, problematizar questões que antes passavam batido: linguagem, piadas, comentários, atitudes em casa ligadas à divisão de tarefas".

Para lidar com essas dificuldades, ela acredita que é preciso encontrar um companheiro que esteja disponível a ouvir e desconstruir algumas coisas.

Valeska Zanello ressalta que não adianta também se envolver com um homem esperando que ele mude por completo. "Tudo depende da abertura que o homem tem. Porque deixar de ser machista implica perder privilégios, por exemplo, começando a participar das atividades domésticas. Não se trata só de ensinar, porque abrir mão de privilégios é ruim", diz.

Isso, é claro, torna mais difícil encontrar um parceiro. "A gente estabelece novos parâmetros de relacionamento em geral, e passa a se envolver só com homens que estejam dispostos a abrir mão de privilégios, inclusive em casa", concorda Anna.

"Escolhi não me envolver mais com homens"

Existem, porém, mulheres que acreditam que se relacionar com homens é difícil demais. Raquel, que preferiu ter seu sobrenome preservado, acabou decidindo que para ela, não dá. "Há algum tempo eu estava questionando isso. Sempre que eu começava a me relacionar, vinham aqueles comportamentos masculinos que são vistos como normais e eu ficava com a sensação de já saber o que ia acontecer", conta.

Para ela, homens e mulheres têm criações (não só na família, mas na sociedade) diferentes e, por isso, as relações já começam em desigualdade. "Por exemplo, o padrão é o lugar da mulher sem em casa, com o serviço doméstico. Do homem, fora, ganhando dinheiro. Para mudar isso, é preciso discutir a regra", explica ela, que acredita que essa discussão das regras nem sempre é fácil ou possível.

Valeska Zanello vai além, e diz que o mecanismo amoroso é a principal forma de opressão que existe à mulher brasileira. "Na forma como as mulheres aprender a amar, elas precisam de um homem para se sentirem legitimadas como mulheres", diz. Assim, conseguir isso sem o olhar masculino seria libertador.

Para Raquel, foi. Por seis anos, ela tentou se envolver com caras, mas nunca conseguia passar de um ou dois meses, pois eles davam os pequenos sinais de machismo, como esperar dela certos comportamentos considerados mais femininos. Neste ano, ela decidiu começar a se relacionar com mulheres.

"Foi uma escolha. Hoje namoro uma mulher e é diferente. Continua tendo o encontro de duas pessoas, mas não existem papeis pré-formados, eles são mais fluidos".

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