Comportamento

De fetiche a solidão: os desafios das mulheres trans nos relacionamentos

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Toda vez que contou que era trans, Sanni foi deixada pelos homens Imagem: Reprodução/ Facebook

Helena Bertho

do UOL

31/01/2018 04h00

Foi por coincidência que a atriz Sanni  Est, 29, e John*, 25, se apaixonaram. Ela morando em Berlim, ele em Londres --e ainda por cima comprometido. No começo, os dois tentaram controlar, mas a paixão foi forte. Ele voltou para casa, terminou seu relacionamento e, depois de três meses, foi reencontrá-la.

Começaram a se relacionar e todo mês ele viajava para Alemanha para vê-la, e Sanni se programou para passar um tempo na Inglaterra. Antes, porém, foram um dia juntos à estreia de um filme que ela estrelava. Depois da sessão, Sanni deu entrevistas, falando da importância de ser uma atriz trans tratando da questão trans no cinema.

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Depois disso, John voltou para seu país e pediu para que ela não fosse vê-lo. Nunca terminou ou explicou o que estava acontecendo, mas sumiu. Ela ficou mal, sem respostas, e, hoje, entende que ele não queria que o mundo soubesse que sua namorada era uma mulher trans.

"A gente perde o status de gente, não merece o mínimo do respeito que é a comunicação. Explica porque você está me deixando, é o mínimo", lamenta ela, que usa a arte pra lidar com os traumas

Sanni não está só: preconceito e desrespeito cercam a vida amorosa das mulheres trans que se envolvem com homens cisgênero (que se identificam com o gênero designado no nascimento).

O fetiche pelo corpo trans

Por 26 anos, a cabeleireira Bruna Domingos, 28, viveu como homem. E, desses 26, por nove foi casada com outro homem. No entanto, quando começou sua transição para o gênero feminino, seu casamento acabou.

"Então, a questão do relacionamento como mulher trans já começou assim: tive de me separar de um casamento por não ser aceita como trans.

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Desconhecidos enviam mensagens com teor sexual para Bruna Imagem: Reprodução/ Facebook
Desde então, ela diz que os envolvimentos que teve foram positivos, mas isso porque sabe escolher com quem se relacionar, pois o que não faltam são homens que a coloquem numa posição de fetiche.

Eles encontram seus contatos nas redes sociais, onde divulga seus serviços profissionais, e a enchem de mensagens com teor sexual. "Sempre perguntando sobre o aspecto sexual, se fiz ou não a cirurgia. Sempre muito pornográficos e muitos homens casados que acham que a gente é obrigada a sair com eles por se trans. Eu mereço respeito como qualquer mulher", conta.

Para muitas mulheres trans ou travestis, esse tipo de situação é muito comum: os homens têm desejo sexual por elas, mas devido ao preconceito, colocam-nas em posição de objeto, sem olhar para suas vontades e sentimentos.

Leonarda Glück, 36, que transicinou no final da adolescência, conta que já passou por isso diversas vezes. "Já me senti terrivelmente objetificada, fetichizada. Como se a pessoa só estivesse com você pelo corpo, pela característica do seu corpo, quando vale tudo, menos o que se passa dentro da sua cabeça e do coração".

Namorar? Só escondido

Claro que existem homens que de fato gostam das mulheres trans, mas muitos têm dificuldade em lidar com seus próprios preconceitos e preferem esconder a relação, como o ex de Sanni.

"Eles até não têm problema com isso, mas não conseguem vencer essa estrutura que cobra deles que preencham certos pré-requisitos para ser homem. Se relacionar com mulher trans ainda não foi aprovado pela sociedade de machos alfas", é como ela explica.

Segundo as entrevistadas, para esses homens é natural se relacionar com uma mulher trans e até se envolver emocionalmente, mas tudo entre quatro paredes. Muitos têm medo de serem vistos como gays.

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Naomi quer que as outras mulheres trans saibam identificar o homem que as objetifica Imagem: Reprodução/ Facebook
A bióloga, Naomi  Neri, 24 anos, depois de sair com um homem que sempre só podia depois da meia-noite, começou a aconselhar suas amigas trans...

 "Identifiquem quando estão sendo objeto. Se ele só te vê de madrugada, não pega na sua mão, não quer encontrar em lugar público, não apresenta para amigos e família... Se você tem desconfiança de que uma pessoa está ao seu lado, mas não oferece um relacionamento, cuidado".

Ela mesma já pergunta de cara se eles querem sigilo. Se for essa a intenção, pula fora.

Um homem cis que assuma uma namorada trans é tão raro que isso pode levar algumas a aceitarem relações ruins. "Uma amiga minha passou por algo muito ruim, abusivo e aceitava. Ela me dizia: 'onde vou arrumar outro que me assuma?", conta  Naomi.

O difícil momento de contar

Você talvez nunca tenha ouvido falar de "passabilidade". Mas esse é um termo usado para definir as mulheres trans que têm tantas características consideradas femininas, que podem ser vistas como mulheres cisgênero.

Apesar de ser algo que ajuda em muitos aspectos, como evitar violência nas ruas, ter bastante passabilidade cria um momento complicado para elas: o de contar ao novo parceiro que são trans.

"Todas as vezes em que contei, fui deixada", comenta Sanni.

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Leonarda já aprendeu a selecionar e não sai mais com homens preconceituosos Imagem: Reprodução/ Facebook
Exatamente por isso, algumas adotam como postura já deixar isso clara desde o começo, como Leonarda. "Eu falo logo de cara. Se não quer, a hora de desistir é essa". Assim evita o risco de se envolver com alguém que não aceitaria quem é.

Medo da violência física

Nenhuma das entrevistadas passou por uma situação de violência ao se revelar trans para um homem, mas o medo existe. Elas temem que que, movidos pelos preconceitos, eles se sintam "enganados" e partam para a agressão.

"Eu já passei muito medo. Já fugi algumas vezes. Ouvi eles aumentando o tom, e a única coisa que eu pensava era na chave na porta, por onde eu podia sair", conta Leonarda.
Considerando que o Brasil é o país no mundo que mais mata travestis e pessoas trans, esse medo não é infundado.

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Sair com mulheres é mais fácil, segundo Luiza Imagem: Reprodução/ Facebook
Com mulheres é tudo mais confortável

Luiza Valentim, 27, é bissexual e conta que sair com mulheres é bem mais fácil. "É mais tranquilo e respeitoso. Fico mais confortável". Ela diz que não existe por parte delas a postura de querer esconder ou de fetichizar o corpo trans.

Outras questões ainda surgem quando o assunto é se relacionar com homens, segundo Luiza. Primeiro vem a pressão social: "isso ajuda a reafirmar minha feminilidade. Como se eu só fosse mulher se tiver um cara".

O outro, é a gravidez. "Com homens cis a relação sempre tende a ser abusiva, até chegar no cúmulo do desprezo pelo meu corpo que não pode gerar uma criança".

*O nome foi altrado a pedido da entrevistada
 

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