Infância

Botas e palmilhas ortopédicas não ajudam a resolver pé chato

Getty Images
Andar descalço contribui para formar a curvatura no pé Imagem: Getty Images

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/05/2016 07h25

Quando nascem, as crianças têm a sola dos pés plana, diferentemente da maioria dos adultos, que têm um arco na parte interna, chamado de arco plantar medial. Por isso, popularmente, diz-se que elas têm pé chato e que é preciso fazer alguma coisa para desenvolver a tal curvatura. Caso contrário, as crianças tendem a sofrer com problemas na coluna ou nas pernas ainda na infância, quando adolescentes ou já adultos.

Por conta desse tipo de pensamento, quando os filhos começam a dar os primeiros passos, muitos pais questionam o pediatra se eles não devem usar bota ou palmilha ortopédica.

Confira, a seguir, nove recomendações médicas sobre esse assunto.

Consultoria: Nei Botter Montenegro, ortopedista pediátrico do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo); Wilson Lino Junior, ortopedista do Centro de Ortopedia e Traumatologia Pediátrica do Hospital Infantil Sabará, também na capital paulista, e André Shecaira, ortopedista do Calo (Centro de Alongamento Ósseo), no Rio de Janeiro. 

  • O arco se forma com o tempo

    As crianças nascem com o pé plano porque existe um coxim gorduroso --massa de gordura que fica no meio do calcanhar -- que se mantém até os dois anos de idade. Por realizarem a marcha e se manterem em pé, com o passar do tempo, o arco vai se formando de acordo com o desenvolvimento ósseo, muscular e ligamentar do organismo de cada um.

  • Nem sempre o arco fica visível

    Algumas crianças desenvolvem o arco, mas ele não é tão aparente quanto o da maioria, e por isso elas têm o chamado pé plano flexível. O arco delas só é visível quando ficam na ponta dos pés, como uma bailarina. Nesse caso, a criança não reclama de dores ou cansaço quando caminha e não é preciso nenhum tipo de intervenção.

  • Botas e palmilhas não impactam na formação do arco

    As botas e palmilhas ortopédicas não impactam na formação do arco e por isso não são mais indicadas pela maioria dos médicos. Há cerca de 20 anos, a comunidade científica já sabe, por meio de pesquisas, que, na maioria das crianças entre dois e sete anos, o arco dos pés se forma sem ou apesar do uso de bota ou palmilha. Ou seja, não é por causa delas que a curvatura aparece.

  • Uso da bota torna as crianças alvo de bullying

    O uso da bota é criticado, dentre muitos fatores, pois, além de ser inócuo para a formação do arco, o calçado diminui o esforço muscular que os pés devem fazer durante o andar. Esse esforço é importante para ajudar a torná-los funcionais. No mais, o uso da bota impacta de forma negativa no desenvolvimento emocional de muitas pessoas, pois as torna alvo de bullying.

  • Andar descalço influencia na formação do arco

    Andar descalço, seja na terra, na areia fofa ou em terrenos planos e firmes, é importante para trabalhar o desenvolvimento neuromuscular das pernas e pés e tem certa influência na formação da curvatura.

  • Se a criança não desenvolver o arco, ela pode precisar de cirurgia

    Caso fique constatado que a criança realmente não desenvolveu o arco --o que acontece em torno dos nove anos-- e sinta dores ao caminhar, por exemplo, os médicos podem diagnosticar uma doença chamada pé plano rígido. A ausência do arco, nesse caso, deve-se pela fusão de dois ou mais ossos locais. Frente a isso, pode ser recomendado o uso de uma palmilha para amenizar o desconforto até que seja realizada uma cirurgia. Porém, mais ou menos 10% da população mantém pé chato na fase adulta e a maioria dessas pessoas têm pé chato assintomático, que não gera nenhuma consequência. Ou seja, geralmente, o pé chato tem mais a ver com uma característica física do que com um mal de saúde.

  • O pé chato também é comum em crianças com Down

    O pé plano também é comum em crianças com Down, entre outras razões, devido à frouxidão ligamentar em vários graus, típica da síndrome.

  • Se for preciso, procure um ortopedista pediátrico

    Se os pais ou o pediatra notarem algo de estranho quando a criança anda, é importante consultar um ortopedista pediátrico. Geralmente, é interessante comparar a marcha com outras da mesma idade, assim os fatores dessa natureza ficam evidentes.

  • Ao comprar um sapato infantil, procure um modelo com os "4F"

    Ao escolher calçados para as crianças, é fundamental que eles tenham as quatro características que ajudam o pé a se desenvolver bem, os chamados de "4F": flexibilidade (principalmente na parte da frente, para fazer os dedos fletirem quando a criança anda), forma adequada (do tamanho do pé, nem maior nem menor), firmeza na parte de trás do sapato, que envolve o calcanhar, e fricção na sola para evitar escorregões. Outra dica valiosa é não ceder à tentação de comprar calçados infantis que imitam os modelos adultos. Eles geralmente têm salto e solado rígido, dentre outras características que são ruins para as crianças caminharem.

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