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Mães empreendedoras buscam cursos para se profissionalizar

Patricia Travassos e Ana Claudia Konichi são autoras do livro "Minha Mãe É um Negócio" - Bruno Poletti / Folhapress
Patricia Travassos e Ana Claudia Konichi são autoras do livro "Minha Mãe É um Negócio" Imagem: Bruno Poletti / Folhapress

Mariana Della Barba

22/10/2013 18h09

O enredo muda, mas a história se repete entre muitas mulheres que estão saindo da licença-maternidade e percebem que será difícil conciliar a carreira e a criação dos filhos.

Uma é demitida e acaba ficando feliz por não ter de deixar o filho o dia inteiro no berçário. Outra decide transformar um dom em negócio. Algumas optam ainda por mudar totalmente de carreira para se adaptarem melhor aos horários e às necessidades das crianças.

A tendência de crescimento do número de mulheres empreendedoras no país vem aumentando no Brasil a quantidade de mulheres que decidem apostar em uma mudança e se transformam em mães empreendedoras.

De acordo com dados do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), hoje há cerca de 7 milhões de mulheres com seu próprio negócio no país, um número 21,4% maior do que há dez anos. Desse total, 70% têm filhos (ver abaixo).

Em outros países, como nos Estados Unidos, as mães empreendedoras se tornaram uma realidade há mais tempo, e o fenômeno está mais sedimentado.

Tanto que lá foi criado o termo "mompreneurs", um neologismo com as palavras "mom" (mãe) e "entrepreneurs" (empreendedor). Esse tipo de negócio foi apontado, há alguns anos, como a grande tendência dentro do empreendedorismo, sendo alavancado pela popularização da internet.

Ao perceberem que empreender pode ser uma alternativa para a nova vida, muitas mães buscam, como segundo passo na empreitada, cursos para tentar transformar a paixão por alguma área em um negócio profissional.


Só amor basta?

"No começo, muitas mães empreendedoras são movidas por sentimentos bem irracionais, como intuição e um envolvimento muito visceral", diz Michelle Prazeres, que dá consultoria e oficinas sobre o tema e comanda o blog Empreendedorismo Materno.

"Não que isso deva ser deixado de lado, mas também é preciso buscar orientação. Só de amor o negócio não vai se sustentar."

Michelle é, ela própria, uma mãe empreendedora. Consultora de comunicação para empresas, ela decidiu mudar seu foco de atuação depois que seu filho nasceu, há dois anos e meio, quando percebeu que o ritmo de trabalho que tinha não seria compatível com um bebê.

Como não sabia exatamente que caminho seguir, ela então montou o blog para se inspirar e acabou achando um filão. Além de agregar contatos de mães que têm seu próprio negócio, ela oferece consultoria sob demanda e cursos para mães empreendedoras, como o que acontece em novembro no espaço Mamusca, em São Paulo.

"Dependendo das necessidades do cliente, também indico outras mães que cuidam de áreas mais específicas, como uma que é webdesigner e outra que tem um escritório de contabilidade", diz Michelle, que analisa setores como finanças, marketing e comunicação.

Aulas com o filho a tiracolo

Uma rede de mães colaboradoras também é um dos segredos do Maternarum, um projeto de Curitiba que busca fortalecer o empreendedorismo materno.

O projeto, lançado há 14 meses, oferece cursos a mães que têm o próprio negócio, com temas como microcrédito (com um especialista da Caixa Econômica Federal), marketing e elaboração de planos de negócios, mídias sociais e fotografia de produtos.

"Qualquer um pode participar, mas aqui a gente entende as necessidades das mães", afirma Isabella Isolani, uma das integrantes do Maternarum. "Elas podem trazer os filhos, por exemplo. Às vezes, um bebê chora e ninguém estranha."

A consultora Michelle Prazeres aponta esse justamente como um dos empecilhos aos cursos de empreendedorismo tradicionais. "Percebo um crescimento no número de mães que querem empreender, mas, ao mesmo tempo, muitas não têm verba para se especializar. E o dilema, às vezes, nem é só financeiro, muitas também não têm com quem deixar o filho."

"Fora que cursos tradicionais para empreendedores, por vezes, assustam essas mães, já que elas estão entrando agora nessa área. E elas querem algo mais pé no chão, com um conteúdo mais prático."

O sucesso sob a ótima materna

Esses cursos específicos para mães também revelam que seus perfis e seus objetivos muitas vezes diferem de uma empreendedora sem filhos.

"Uma das principais diferenças diz respeito à ideia de realização e sucesso, que se traduz, muitas vezes, em qualidade de vida e não apenas em lucro", diz Patricia Travassos, coautora do livro "Minha Mãe É um Negócio", que traz histórias reais de mulheres que abriram a própria empresa para ficar mais perto dos filhos.

A maioria delas trabalha mais do que quando era empregada, mas apontam que faz toda a diferença poder ter flexibilidade, poder levar e buscar o filho na escola, poder ficar com ele em casa quando estiver doente, acompanhar a lição de casa, almoçar junto, entre outros exemplos.

Para americana Jennie Wong, autora do livro "Ask the Mompreneur: Small Business Advice on Starting and Growing Your Own Company" (“Pergunte à Mãe Empreendedora: Conselhos de Pequena Empresa para Iniciar e Ampliar sua Própria Companhia”, em tradução livre), o que mais caracteriza uma mãe empreendedora é que elas podem "determinar o tamanho de seu sonho".

"Para algumas, filhos significam trabalhar menos horas, mas para outras é hora de colocar o pé no acelerador, para deixar uma boa situação financeira para eles e para mostrar como é se dedicar 100% a um projeto", diz Jennie.

Principais erros das mães empreendedoras

Patricia Travassos, coautora do livro "Minha Mãe É um Negócio"

"Não fazer um planejamento. Muitas não fazem plano de negócios, que é como um pré-natal."

Ana Claudia Konichi, coautora do livro "Minha Mãe É um Negócio"

"Segurar o negócio como um bebê, às vezes, não querer que ele cresça, por medo de perder qualidade de vida. Mas se ela não inovar, pode sair perdendo. É preciso querer crescer."

Michelle Prazeres, consultora e autora do blog Empreendedorismo Materno

"No começo, muitas são movidas por sentimentos bem irracionais, como intuição e um envolvimento visceral. Não é preciso deixar isso de lado, mas é preciso buscar orientação. Outro problema é que muitas não se formalizam, não têm CNPJ e isso depois acaba gerando mais custos."

Tales Andreassi, coordenador do projeto 10.000 Mulheres, da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

"Não planejar e não se preparar. Falta conhecimento de gestão. Marketing pode ser algo intuitivo, mas finanças não. Você tem de estudar, tem de aprender contabilidade."

Jennie Wong, americana, autora do livro "Ask the Mompreneur: Small Business Advice on Starting and Growing Your Own Company" ("Pergunte à Mãe Empreendedora: Conselhos de Pequena Empresa para Iniciar e Ampliar sua Própria Companhia”, em tradução livre) e editora do site de compras online CartCentric

"O principal talvez seja começar um negócio sem entender seu cliente. Saber quem ele é e qual problema você vai resolver para ele é vital. Convencer alguém de que ele precisa do seu serviço é bastante difícil. É muito mais fácil descobrir antes o que essa pessoa precisa e só então direcionar seu negócio para essa demanda."