Gravidez e filhos

Coração e pulmão artificiais salvam vidas de gestante com gripe H1N1 e seu bebê

Alessandro Mendes/Reprodução
Isabella precisou ficar em coma induzido para usar coração e pulmão "auxiliares" Imagem: Alessandro Mendes/Reprodução

Fernanda Portugal

Do Rio de Janeiro para a BBC Brasil

13/05/2016 10h59

Grávida de sete meses, Isabella Villela, 30, contraiu a gripe H1N1 e ficou uma semana entre a vida e a morte. Uma técnica em que equipamentos executam as funções de pulmões e coração foi o que salvou mãe e bebê, no CTI de um hospital no Rio de Janeiro.

Na América do Sul, esta foi a primeira vez que a chamada Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO, na sigla em inglês) conseguiu evitar a interrupção da gravidez numa paciente com insuficiência respiratória aguda.

"Comecei a tossir e a ter febre baixa, de 38 graus. Tentei resolver em casa, chupando pastilhas. Após três dias procurei os médicos: a tosse piorou tanto e tão rápido que parei de respirar", conta a moça, que desenvolveu pneumonia.

Segundo o Ministério da Saúde, gestantes integram o grupo prioritário para receber vacinas nos postos de saúde durante as campanhas de imunização contra a gripe, como a que está em vigor até o próximo dia 20. Grávidas são quatro vezes mais suscetíveis do que a população em geral a terem complicações severas causadas pelo vírus H1N1.

Na madrugada de 16 de abril, Isabella foi internada no Hospital e Maternidade Santa Lúcia, na Zona Sul da cidade, onde permaneceu por três semanas – uma das quais em coma induzido, submetida à ECMO.

"O sangue circula todo pela máquina e volta 100% oxigenado ao paciente. Além disso, o doente é entubado, para respirar. Estes coração e pulmão 'auxiliares' permitem que o organismo funcione num ritmo mais lento e ganhe força para receber os medicamentos e lutar contra a infecção", explica a médica intensivista Celina Acra, coordenadora do CTI de adultos do hospital.

Riscos

A ECMO, que chegou ao Brasil há menos de dez anos, proporciona a pacientes com problemas cardíacos e pulmonares extremos um aumento de 20% para 60% na chance de sobrevivência, mas também oferece riscos.

"Tentamos duas formas de ventilação mecânica em Isabella, antes de optar pela ECMO, mas não adiantaram. O maior risco da técnica é o de sangramentos", ressalta Celina.
Para que o sangue circulasse pela máquina, foi preciso puncionar duas veias grossas, no pescoço e numa das pernas da gestante, além de ministrar anticoagulantes, medicamentos usados para evitar a formação de coágulos dentro dos vasos sanguíneos. "O monitoramento é rigoroso, de quatro em quatro horas", afirma a médica.

Outro risco é o de aparecimento, no futuro, de lesões na membrana dos pulmões, induzidas pela quantidade grande de oxigênio fornecida ao paciente. "Oxigênio em excesso é tóxico. Mas se o doente está morrendo, temos que salvar sua vida. Só depois vamos pensar em tratar as lesões, se ocorrerem", declara Celina.

A decisão da equipe foi garantir não apenas a sobrevivência de Isabella, mas também do bebê.

"Dependendo da idade gestacional, é uma opção tirar a criança para salvar a mãe. Mas optamos por não fazê-lo. Como temos maternidade e obstetrícia dentro do hospital 24 horas, tivemos segurança na tomada da decisão", afirma Celina, que coordena equipe de dez médicos no CTI, entre eles Vicente Dantas, Rodrigo Amâncio e Ana Lucia Traiano, que acompanharam Isabella de perto.

Outro responsável pelo caso foi o cardiologista Alexandre Siciliano, coordenador da equipe da ECMO.

Divulgação
Procedimento também causa risco de excesso de oxigenação no sangue, que pode afetar membranas do pulmão Imagem: Divulgação

"Graças a estes médicos e à rapidez com que adotaram a técnica, vou ter meu primeiro filho. Ele virá ao mundo na Santa Lúcia, na primeira quinzena de julho. Meu pequeno Heitor, como eu, é um sobrevivente, um lutador", emociona-se Isabella, psicóloga que vive há cinco anos com Diego, 30, professor de Educação Física.

Após a alta da moça, os dois decidiram oficializar o casamento, antes da chegada da criança.

Vacina, e nada de automedicação

Isabella não chegou a tomar a vacina contra a gripe. "Quando peguei o vírus H1N1, a campanha ainda não tinha começado. Faço um alerta às gestantes: vão aos postos de saúde ou clínicas tomar a dose. E, caso tenham sintomas, mesmo que leves, não tentem se automedicar. Procurem rapidamente um hospital para não perderem seus bebês", aconselha.

A higienização constante das mãos, com água e sabão ou álcool em gel, também é uma medida preventiva, mas não dispensa a vacinação.

Segundo estudos analisados por médicos da Faculdade de Medicina da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), as complicações mais frequentes do H1N1 em gestantes são pneumonia, que causa a maioria das mortes, além de insuficiência renal aguda e edema ou embolia pulmonar. Em relação aos bebês, os problemas que mais surgem são aborto, sofrimento fetal agudo e nascimento pré-termo.

Este ano, o surto de gripe começou antes do esperado no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Em fevereiro, ainda em pleno verão, a região Sudeste já apresentava casos. Por isso, 22 Estados brasileiros resolveram antecipar para meados de abril o início da campanha de vacinação, marcado para dia 30 daquele mês.

A imunização continua a ser feita nos postos de saúde pelo menos até o próximo dia 20. Além das grávidas, fazem parte do grupo de maior risco de complicações mulheres que deram à luz há menos de 45 dias, crianças de seis meses a cinco anos, idosos e doentes crônicos.

Este ano, até 23 de abril, foram registrados 1.880 casos de gripe no Brasil, dos quais 1.571 causados pelo vírus H1N1. Deste total, 290 pessoas morreram.

A Região Sudeste concentra o maior número de casos (1.106) da doença. O Estado com situação mais crítica é São Paulo, com 988 episódios da gripe e 149 óbitos.

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