Gravidez e filhos

Perda de filho levou famosa a fazer campanha que salvou milhares de bebês

Arquivo Pessoal/Anne Diamond
A '"morte do berço" ou Síndrome da Morte Súbita do Lactente (SMSL) ainda é a maior causa de mortes de bebês com menos de 1 ano de idade Imagem: Arquivo Pessoal/Anne Diamond

21/11/2016 17h41

Há 25 anos, a apresentadora de TV e radialista britânica Anne Diamond perdeu seu filho Sebastian, vítima da morte súbita em bebês - fenômeno chamado cientificamente de síndrome da morte súbita do lactente (SMSL)

Mas ela conseguiu transformar sua tragédia pessoal em uma campanha que já salvou muitas crianças no Reino Unido e inspirou medidas similares em outros países.

Os médicos ainda não descobriram a causa da SMSL -- acredita-se que diversos fatores contribuam para que haja uma alteração na respiração, levando à morte durante o sono. Mas sabem que ela ocorre 60% das vezes em bebês do sexo masculino que dormem de bruços.

A campanha que Anne lidera -- Back to Sleep (algo como "costas para dormir", em tradução literal) -- alerta para isso e incentiva as mães a botarem os filhos para dormir deitados de barriga para cima.

A dramática morte de Sebastian

No dia 12 de julho de 1991, o filho mais velho de Anne, Oliver, fazia quatro anos. Ela e o então marido, Mike Hollingsworth, planejavam uma festinha para mais tarde.

Mike lembra que acordou se sentindo abençoado por Sebastian ser "um bebê forte e sorridente", que naquele dia não tinha acordado cedinho como de costume para tomar a primeira mamadeira.

Arquivo Pessoal/Anne Diamond
A apresentadora de TV Anne Diamond perdeu o pequeno Sebastian no dia do aniversário do filho mais velho, Oliver Imagem: Arquivo Pessoal/Anne Diamond

Ele foi para o jardim e, enquanto guardava brinquedos e arrumava o espaço para a festa de Oliver, ouviu Anne gritar.

"Nunca ouvi um grito como aquele antes" diz Mike. "Olhei em direção ao terceiro andar da casa e vi Anne segurando nas barras da janela do quarto do bebê... Ela segurava de um jeito que parecia que ia arrancá-las."

Mike correu até o quarto e encontrou a mulher abraçando Sebastian sentada numa cadeira, embalando o bebê sem parar.

Anne ainda sente terror quando lembra aquele dia.

"Ele estava na posição em que normalmente ficava: deitado de bruços, com um braço para fora do berço. Fui tocar no bracinho dele e estava frio. Frio como uma pedra."

'O bebê está morto'

"Lembro que gritei bem alto, 'o bebê está morto, o bebê está morto'."

Ela recorda perfeitamente como foi segurá-lo nos braços. "Você espera pegar um bebezinho lindo e quente, mas o que eu segurei era uma estátua fria. Ainda assim eu queria segurá-lo e abraçá-lo", conta.

Arquivo Pessoal/Anne Diamond
Meia hora depois de a família informar a morte de Sebastian às autoridades, a notícia estava em todas as emissoras de TV britânicas Imagem: Arquivo Pessoal/Anne Diamond

O resto do dia foi encoberto por uma névoa e com a movimentação de policiais na casa, amigos chegando para ajudar e o corpo de Sebastian sendo levado para exames.

Pouco depois da chegada da polícia, uma multidão de repórteres se concentrou diante da casa da família -- meia hora após ser informada às autoridades, a morte do bebê estava em todos os noticiários da TV britânica.

No meio desse drama, a família ainda achou tempo para cantar "Parabéns" para o filho de quatro anos antes que ele abrisse os presentes.

Na época, Anne Diamond estava no auge da carreira de apresentadora e entrevistava nomes como a então primeira-ministra Margaret Thatcher e a princesa Diana.

A tragédia familiar despertou um interesse tão grande da mídia que Anne e o marido foram seguidos por um fotógrafo a caminho do funeral de Sebastian.

Fotos da família durante o enterro do bebê chegaram a ser mostradas como exemplos de invasão de privacidade da imprensa durante o Inquérito Leveson, em 2011 - processo que investigou o escândalo de escutas ilegais do extinto tabloide "News of the World" e chamou atenção para o relacionamento estreito entre políticos, polícia e organizações de mídia no Reino Unido.

Arquivo Pessoal/Anne Diamond
Anne estava no auge de sua carreira na TV nos anos 1990. Na foto, ela está ao lado do então primeiro-ministro John Major (esq.) e do apresentador Nick Owen (dir.) Imagem: Arquivo Pessoal/Anne Diamond

'Comecei a sentir muita raiva'

Nos dias que se seguiram, Anne percebeu que sua fama poderia ser um caminho para fazer com que a morte de Sebastian não fosse em vão.
Mas o sentimento, conta, foi de revolta.

"Muita gente veio me dizer que a morte súbita é uma dessas coisas que você tem que superar", lembra. "Acho que foi naquele momento que comecei a sentir muita raiva. Não gosto de apatia. Não gosto de complacência, de aceitar que alguns bebês morrem sem motivo aparente."

Sabe-se atualmente que a melhor maneira de evitar a síndrome da morte súbita é colocar o bebê para dormir deitado de barriga para cima. Mas por muitas décadas os especialistas disseram o oposto, ou seja, que os bebês deviam dormir de bruços -- e milhares podem ter morrido por isso.

Essa prática, na época considerada boa para evitar refluxo, foi originalmente popularizada pelo pediatra americano Benjamin Spock no best-seller "Meu filho, meu tesouro", publicado pela primeira vez em 1946.

O livro de Spock -- traduzido em mais de 40 línguas -- é até hoje muito popular e foi o segundo mais vendido nos Estados Unidos (depois apenas da Bíblia) no século 20.

Então, Sebastian, de 4 meses, tinha sido colocado de bruços no berço de acordo com a orientação dos pediatras da época.

O início da campanha

Anne começou a ler as pesquisas sobre síndrome da morte súbita do lactente (SMSL) e uma semana depois da morte do filho visitou a Fundação para o Estudo da Morte Súbita Infantil, hoje conhecida como Lullaby Trust. Foi lá que ela soube pela primeira vez da relação entre a posição de dormir e o fenômeno.

Arquivo Pessoal/Anne Diamond
Anne Diamond descobriu que sua popularidade e fama podiam ser usadas para promover uma mudança - e evitar mortes Imagem: Arquivo Pessoal/Anne Diamond

A morte de Sebastian coincidiu com a divulgação, pela primeira vez, de uma pesquisa feita na Holanda, Nova Zelândia e Reino Unido, que concluiu que botar os bebês deitados de barriga para cima era importante na prevenção da mortalidade infantil.

A apresentadora também descobriu que um relatório publicado na Nova Zelândia, feito após levantamento com mais de dois mil bebês durante três anos, concluiu que os que dormiam deitados de costas tinham um risco mais baixo de sofrer a morte súbita. Pouco depois, Anne voou até lá.

"Quando me disseram na Nova Zelândia que estava claro que aquela posição de dormir era tão importante que eles começaram a fazer uma campanha para que as mães passassem a virar os bebês de barriga para cima e que isso estava salvando vidas em todo o país", conta ela, "foi quando descobri que tinha que voltar ao Reino Unido e divulgar essa mensagem."

"Mas eu sabia que isso não era o suficiente... Eu era só uma mulher famosa, sabia que tinha que fazer a classe médica britânica mudar de ideia", explica. "E essa seria a parte mais difícil."

'Eu tinha que fazer algo'

A fama ajudou Anne a se encontrar com a maior autoridade médica do Reino Unido na época, a secretária de saúde Virginia Bottomley.

Mas logo ela percebeu que o sistema britânico era bem diferente do adotado na Nova Zelândia, onde a pesquisa feita pelo médicos provocou uma ação imediata.

Arquivo Pessoal/Anne Diamond
Anne Diamond fez um documentário sobre a síndrome, que foi exibido no programa "This Week", da rede ITV, em dezembro de 1991 Imagem: Arquivo Pessoal/Anne Diamond

"Era de novo uma questão de complacência". diz. "Não consegui que as autoridades me prometessem nada. Elas disseram que iam olhar os dados. Eu sabia que naquela noite mais cinco bebês iriam morrer e novamente mais outros cinco na noite seguinte. Como as autoridades podiam deixar aqueles bebês morrerem enquanto analisavam os dados? Eu tinha que fazer algo para que eles se mexessem mais rápido."

A apresentadora então levou uma especialista do Reino Unido à Nova Zelândia e depois marcou outra reunião com a secretária de saúde. Esse encontro foi responsável pela criação de um grupo de trabalho para orientar o governo britânico.

Anne também começou a trabalhar em um documentário sobre a síndrome, que foi ao ar em dezembro de 1991 no programa "This Week", da rede ITV.

Depois de garantir o apoio dos profissionais de saúde do Reino Unido, ela deu início à campanha "Back to Sleep", levantou fundos para publicidade e convocou a organização de pais National Childbirth Trust (NCT) a transmitir a mensagem de que os bebês deveriam dormir de barriga para cima.

Apenas em 1993 o governo britânico lançou uma campanha própria, ao custo de três milhões de libras (R$ 12,8 milhões), para combater a síndrome.

Ela lembra que uma das constatações mais chocantes foi a de que, se vivesse em Bristol, por exemplo, provavelmente teria sido aconselhada a colocar Sebastian deitado de costas -- a cidade fazia parte de um grupo que participava de um teste da nova teoria.

"Não me culpei, apenas pensei: 'por que eu não morava em Bristol?' Fui treinada em Bristol, eu era da (equipe da) BBC em Bristol. Se eu tivesse continuado a morar lá, Sebastian ainda estaria vivo", conta.

De acordo com a organização Lullaby, a mais importante medida para prevenir a síndrome da morte súbita é colocar o bebê deitado de barriga para cima e não fumar perto dele.

Em 1989, foram 1.545 casos no Reino Unido. Esse número caiu para 647 em 1992, um ano depois que a campanha Back to Sleep foi lançada. Em 2014, foram 128 - uma comprovação de que a campanha funcionou.

"Foi uma das campanhas de saúde pública mais bem-sucedidas de todos os tempos", avalia Francine Bates, diretora executiva do Lullaby Trust. "A pessoas mudam de comportamento. É tão simples."

"Sem Anne Diamond isso não teria acontecido tão rapidamente. Como ela era uma celebridade, uma figura pública, as pessoas ficaram chocadas e sentidas por ela. Anne era uma jornalista de sucesso, era capaz de mobilizar a mídia e os políticos."

Novas diretrizes

A campanha fez o Reino Unido se tornar um dos primeiros países do mundo a adotar novas diretrizes sobre o sono infantil.

Francine Bates lembra que, como o NHS (o sistema de saúde britânico, na sigla em inglês) tinha "grande influência" no mundo todo, logo surgiram campanhas semelhantes nos EUA e na Europa.

Anne diz considerar a campanha "Back to Sleep" um legado de Sebastian, mas destaca: "Sei que, na verdade, não é só isso. Encontrei muitos pais que perderam os bebês, mas não conseguiram o mesmo que eu, porque seus bebês morreram na época errada. O meu morreu num momento em que um avanço ocorria."

Arquivo Pessoal/Anne Diamond
Anne Diamond fez um documentário sobre a síndrome, que foi exibido no programa "This Week", da rede ITV, em dezembro de 1991 Imagem: Arquivo Pessoal/Anne Diamond

"O que eu precisava era de alguém que se juntasse a nós e dissesse 'OK, serei a ponta de lança da campanha'", avalia. "De maneira egoísta, considero isso um legado do meu menino... Mas é o legado de muitos outros bebês pequenos e seus pais, que passaram muitos sábados diante de seu supermercado local, arrecadando dinheiro para pesquisas", acrescenta Anne.

"Vejo tudo isso de duas formas. Sinto-me incrivelmente orgulhosa da campanha e tenho muito orgulho do papel da mídia nela."

Sete conselhos para evitar a síndrome da morte súbita em bebês
- Sempre coloque o bebê para dormir de barriga para cima, nunca de bruços ou de lado
- Evite fumar durante a gravidez e perto do recém-nascido
- Não deixe o bebê ficar aquecido demais
- Use uma coberta lisa, firme e à prova d'água
- Nunca durma no sofá ou poltrona com o bebê
- Não durma na mesma cama que o bebê se você fuma, bebe, usa drogas ou está muito cansada
- Não cubra o rosto ou a cabeça do bebê quando estiver dormindo nem use roupa de cama folgada

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