Infância

Para combater o preconceito, incentive seu filho a aceitar a diversidade desde cedo

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A criança reage ao que lhe parece diferente, mas não faz, em um primeiro momento, juízo de valor Imagem: Thinkstock

Simone Sayegh

Do UOL, em São Paulo

12/12/2012 14h58

Estranhar o diferente é uma reação comum do ser humano. Nas crianças, antes que o ato seja contaminado por juízos de valor negativo, os pais e educadores devem intervir para mostrar que é preciso aceitar as diferenças e conviver em harmonia com elas.

O psiquiatra Telmo Kiguel cita o exemplo de uma criança de colo, que, por conviver somente com pessoas parecidas com ela, pode se assustar com a presença de uma babá que seja de outra origem étnica. "É natural essa reação. Cabe a mãe introduzir com carinho a presença da profissional para mostrar que a convivência com as diferenças é segura”, diz.

Segundo o especialista, o bebê reage por medo do que lhe parece diferente. No entanto, se a mãe agir de maneira negativa com essa babá, o filho pode entender que a aparência é a razão da aversão do adulto, originando um preconceito étnico-racial. “Se os pais são discriminadores dificilmente ajudarão os filhos a não ter preconceito. Se não forem, servirão de modelo pela sua conduta e por aquilo que puderem transmitir verbalmente”, declara.

Em sua tese pelo Instituto de Psicologia da USP sobre inclusão na educação infantil, a doutora em psicologia Marcia Regina Vital escreveu que estranhar o diferente é uma reação baseada no medo de questões inconscientes e reprimidas da própria pessoa, que, de alguma forma, ela consegue identificar no outro.

O diferente pode gerar medo, insegurança, amor, rejeição, curiosidade e despertar mecanismos de defesa que, dependendo da intensidade da relação, podem levar à violência. A partir dos três anos, a criança começa a se socializar mais intensamente e tem de aprender a lidar com esses medos e a elaborar seus próprios conceitos, com base na sua carga de conhecimento e em ideias transmitidas pelos pais, amigos e educadores.

“Atitudes, falas e alguns comportamentos dos pais, mesmo sem intenção, induzem à discriminação, pois eles, muitas vezes, interiorizaram o preconceito”, afirma Marcia. Dessa maneira, a criança pode ter atitudes preconceituosas que passam despercebidas porque o adulto é indiferente à questão do preconceito ou pelo fato de ele próprio discriminar.

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    Os pais devem promover a convivência com pessoas de diferentes grupos raciais e culturais

Escola ativa

“É na escola que se estabelecem interações cotidianas por longos períodos entre pessoas de credos, costumes, culturas e origens muito distintas, por isso a instituição não pode se furtar ao papel de educadora da igualdade”, declara a pedagoga Lucimar Rosa Dias, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e autora do livro “Cada Um É de Um Jeito, Cada Jeito É de Um” (Editora Alvorada).

A busca por escolas que tenham projetos que tratem da diversidade em seus currículos –e que discutam abertamente o preconceito– também é uma maneira de promover a aceitação dentro de casa. Uma escola omissa contribui para aumentar o preconceito no pensamento infantil.

“Temos uma lei que fará dez anos em 2013 (lei 10.639, de 2003), que incluiu a história e a cultura afro-brasileira e indígena na educação básica, mas muitas escolas nada fazem para mudar o currículo e deixá-lo mais plural e menos preconceituoso”, afirma Lucimar.

Segundo a pedagoga, para combater o preconceito, a escola deveria trabalhar a orientação sexual identificando e antecipando questões entre os alunos, evitar as divisões de ações entre "coisas de meninos e de meninas" e fazer com que seus professores explicitassem, e tratassem com equilíbrio, a diversidade étnico-racial, utilizando materiais didáticos adequados.

Descompasso

Lucimar afirma que a sociedade valoriza homens sensíveis e solidários nas relações sociais, mas, na infância, os meninos são estimulados com brincadeiras agressivas.  “É como se a criança não estivesse vivendo no mesmo tempo histórico que nós.” Para a especialista, ela pensa o mundo tanto quanto os adultos e pode ser colocada em contato com questões importantes sobre as relações, tais como o preconceito.

A socióloga e professora Rita de Cassia Fazzi, da PUC de Minas Gerais, desenvolveu uma pesquisa em colégios públicos mineiros para avaliar as manifestações de preconceito racial entre crianças de oito e nove anos. No estudo, ela percebeu que os alunos elaboravam categorias raciais diferentes de acordo com a pele, aprendidas com suas famílias.

De acordo com a pesquisa da especialista, a categoria intermediária “moreno ou morena” não sofria discriminação, enquanto que a categoria “negro” era discriminada, sendo sua denominação utilizada como xingamento entre os colegas. “Os morenos xingavam os de pele muito mais escura como se não tivessem a mesma origem geográfica”, fala Rita.

Bons exemplos

Lucimar diz que o preconceito e a discriminação são construídos nos pequenos detalhes vividos no cotidiano. “Um pai que ofende com xingamentos do tipo ‘tinha de ser negro, mulher ou gay’ ensina a seus filhos a intolerância, o sexismo e a homofobia.”

A pedagoga afirma que o adulto tem de ajudar a criança a desenvolver uma nova maneira de ver o outro, por exemplo, presenteando-a com livros que tratem da diversidade de modo positivo e conversando desde cedo sobre os estereótipos.

“A literatura é uma via muito fértil, pois fala com a criança pequena sem dar receitas, abrindo portas para um mundo mais solidário”, declara Lucimar. Outra atitude que os pais devem ter é conviver com pessoas de diferentes grupos étnico-raciais e, sobretudo, ter uma postura de vida que combata hierarquias e subordinações de raça, gênero, etnia e classe social.

“Pais que não respeitam o espaço dos próprios filhos, que só dão limites por meio de gritos e tapas ou que não dão limite nenhum, não estão educando para o respeito à diversidade, pois não respeitam as diferenças em suas casas”, fala a especialista.

Se os pais constatarem uma atitude preconceituosa no filho, como agir? Com firmeza e doçura, afirma Lucimar. Independentemente da idade, é preciso coibi-la e explicar o porquê da repreensão. “Não dá para pensar que a reação violenta e rude vai construir um modo solidário e humanizador para o outro.”

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