Bebês

Vivida no tempo ideal, fase oral impulsiona desenvolvimento

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Quando o bebê começa a engatinhar e a andar, os pais têm de ficar mais atentos com o que ele leva à boca Imagem: Thinkstock

Ludmilla Ortiz Paiva

Do UOL, em São Paulo

Mamar no seio da mãe é uma das primeiras coisas que o bebê faz assim que nasce. E o ato é o ponto de partida da fase oral, que termina por volta dos dois anos. “No começo, tudo é sucção. A boca da criança é extremamente sensível ao toque. Sugar o seio ou a mamadeira é algo prazeroso para os bebês”, afirma o pediatra Rogério Pereira da Fonseca, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Segundo o médico, as funções neurológicas que regem a coordenação motora e os sentidos de um recém-nascido são muito rudimentares. “A parte mais desenvolvida é a boca. É com ela que o bebê capta todas as sensações.”

“Essa é a fase em que a criança entende o mundo pela boca”, diz o psiquiatra Içami Tiba, autor de diversos livros sobre educação, entre os quais “Quem Ama, Educa!” (Integrare Editora).

Por volta dos quatro meses de vida, o bebê descobre a mão. “E é automático: quando descobrem a mão, levam-na à boca”, diz a pediatra Alzira Rosa Esteves, professora da disciplina de Pediatria Geral e Comunitária da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Muitos pais se preocupam com esse momento, com receio de a criança ficar viciada em chupar o dedo.

Esse é o momento de dar à criança uma chupeta, diz a pediatra Lucília Santana Faria, coordenadora médica da UTI pediátrica do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo. “A chupeta vai substituir o dedo. E a chupeta você tira. O dedo você não consegue tirar.”

Quando a criança começar a se sentar sozinha, por volta dos sete meses, é que os pais precisam ficar mais atentos com a fase oral. “As famílias têm o costume de sentar o bebê no chão, o que é normal. No entanto, deve-se prestar atenção aos objetos que estão ao redor, porque ele vai colocar na boca tudo o que encontrar.”

O perigo aumenta quando o bebê começa a engatinhar e a andar. Para evitar acidentes domésticos, Alzira diz que é recomendável lacrar portas de armários e gavetas com fita crepe ou presilhas específicas, fechar a porta do banheiro e colocar objetos decorativos fora do alcance do pequeno explorador.

Limites

Segundo o pediatra Rogério Pereira da Fonseca, com o desenvolvimento do organismo da criança, outras funções sensitivas vão ocupando o lugar da boca. “Quando começa a andar, ela passa a explorar mais o mundo. Deixa de colocar objetos na boca e passa a mexer em tudo.”

Para todos os pediatras entrevistados, não há impacto negativo no desenvolvimento se a criança estender a fase oral por mais alguns meses além dos dois anos. “Normalmente, uma criança que estende a sua fase oral é superprotegida. Às vezes é filho único. O pediatra geralmente orienta a família dessa criança a soltá-la mais, a deixá-la arriscar mais”, fala Fonseca.

Para a pediatra Lucília Santana Faria, do Sírio, o prolongamento da etapa vira algo a ser observado se for esticado demais. “A criança passa a ter transtornos alimentares, pois seu único prazer está focado na alimentação. Ela pode se tornar uma pessoa obesa, prejudicar a dentição. É um distúrbio que deve ser tratado com um psicólogo.”

“Uma criança que leva muito tempo para largar a mamadeira e a chupeta pode agir assim porque a família a trata de uma forma mais infantilizada do que o necessário”, declara Alzira, da Unifesp.

De acordo com a especialista, é a partir dos dois anos que os pais devem começar a pensar em tirar mamadeira e chupeta, mesmo que a criança faça birra. “Para não ver o filho chorar, os pais o deixam continuar com a mamadeira e não limitam os horários da chupeta. Isso é ruim, porque ele entra muito imaturo na próxima fase de desenvolvimento. Ter frustrações faz parte do desenvolvimento da criança. É preciso ser firme.”

Defesas naturais

A fase oral também é importante para o desenvolvimento do sistema imunológico da criança. Mesmo assim, deve-se ter cuidado principalmente com bebês de até um ano. Uma recomendação da pediatra da Unifesp é ferver a chupeta, a mamadeira e o mordedor no fim do dia. Se caiu no chão, lave com água e sabão.

“Em um ambiente doméstico minimamente cuidado, a criança não sofre consequência séria se a chupeta cair no chão e ela pôr na boca depois. As bactérias que estão na casa podem ser benéficas, pois ajudam o organismo a criar defesas naturais”, diz Alzira.

“Uma criança maior tem defesas imunológicas no trato digestório e lavar esses itens com água e sabão é o suficiente para que ela não contraia alguma virose”, declara o pediatra Rogério Pereira da Fonseca. O perigo é quando os objetos que elas costumam levar à boca caem na rua ou em ambientes sujos.

“Quase todas as doenças infantis são causadas por vírus. Eles ficam nas superfícies dos móveis, dos utensílios, dos brinquedos. Se você leva a criança para um ambiente público, como uma brinquedoteca  ou uma sala de espera de pediatra (que normalmente são cheias de brinquedos), o ideal é ficar atento. Não a deixe colocar os objetos na boca e, assim que ela parar de brincar, o melhor é lavar as mãos e passar álcool em gel”, diz Fonseca.

Onde mora o perigo

A maior preocupação deve ser evitar que a criança coloque objetos na boca, como partes pequenas de brinquedos. Se os pais têm certeza de que o filho engoliu uma peça de plástico, mas ele não se engasgou e não se sente mal, não há problema. A peça vai sair nas fezes nos dias seguintes.

“O plástico não aparece em radiografia. Se o objeto passou pela garganta, tudo bem. O risco é se a criança engole algo maior, que pode ficar preso na garganta e causar asfixia, ou se come baterias de brinquedos, principalmente aquelas que se parecem com pastilhas. Aquilo é ultratóxico. O estômago pode corroer o material e liberar chumbo e níquel no organismo da criança”, diz Fonseca. O indicado, nessas situações, é levar o filho para o hospital o mais rápido possível. Ajuda médica também é necessária se a criança engole moedas, objetos pontiagudos e produtos químicos, segundo Alzira.

A especialista chama a atenção para os quadros de pneumonia de repetição. Se a criança vive tendo a doença e sempre no mesmo lugar do pulmão, pode significar que ela aspirou algum objeto e que ele está alojado no órgão, sendo necessário que seja retirado.

Reflexos

Segundo Içami Tiba, a boa educação de uma criança está intimamente relacionada com a fase oral.

“É comum ouvir as pessoas dizerem que o bebê é nervoso, que chora muito e que nasceu assim, mas não é verdade. Ele foi educado assim. É importante educar o recém-nascido para ter um sono e uma alimentação de qualidade”, fala Tiba.

Segundo o psiquiatra, isso significa dar o peito apenas quando a criança estiver com fome. “Se ela parou de mamar e começou a dormir, o recomendado é colocá-la no berço. Não precisa fazer mais nada. Não acorde o bebê para ele continuar mamando. Ele vai acordar naturalmente em cerca de três horas.”

De acordo com Tiba, fazer a criança mamar mais do que ela precisa pode ter consequências no futuro. “O bebê fica sugando, sem beber nada de leite. Usa o mamilo como se fosse chiclete. Isso é gostoso, é fase oral. Assim estamos envenenando a criança de prazer.” A criança não aprende a esperar, já que tem comida quando quiser. “Ela fica nervosa e isso começa a fazer parte da personalidade dela. Pode se tornar um adulto ansioso, que quer todos os seus desejos realizados na hora.”

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