Adolescência

Postura punitiva dos pais pode reforçar comportamento mentiroso

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A adolescência é um momento no qual o filho está se diferenciando dos pais e não quer revelar tudo Imagem: Thinkstock

Juliana Zambelo

Do UOL, em São Paulo

22/08/2013 08h05

Para muitos pais, a chegada dos filhos à adolescência, período dos primeiros passos independentes, faz com que o nível de preocupação aumente em relação ao que eles podem estar escondendo.

Segundo os especialistas consultados pelo UOL Gravidez e Filhos, a maioria dos adolescentes mente para seus pais, mas isso faz parte do processo de amadurecimento e nem sempre deve ser encarado com apreensão.

Paulo Sérgio Camargo, autor de “Não Minta para Mim! - Psicologia da Mentira e Linguagem Corporal” (editora Summus), afirma que mentir faz parte do ser humano e que todas as pessoas mentem desde crianças.

“As maiores fontes de aprendizado são as pessoas próximas, como os pais e os irmãos. E os pais ensinam a mentir quando, por exemplo, mandam o filho dizer, ao telefone, que não estão ou dizem para elogiar a comida de uma tia, mesmo que ele não tenha gostado.”

Para Monica de Oliveira Genofre, psicóloga do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo, mentir para os pais é inerente à adolescência. “É um momento no qual o filho está se diferenciando dos pais e não quer revelar tudo. Existem os que mentem mais e os que mentem menos, sobre coisas mais sérias ou menos sérias, mas faz parte dessa fase da vida.”


Mentiras comuns

As mentiras mais comuns na adolescência estão relacionadas a questões como aonde foi, com quem e o que fez. A psicóloga Luciana Maria Caetano, especialista em desenvolvimento moral e autora do livro “O Conceito de Obediência na Relação Pais e Filhos” (editora Paulinas), diz que uma mudança importante da infância para a adolescência é o surgimento da vida social do filho fora do ambiente familiar, com novos grupos.

“Os pais não devem impedir o filho de aumentar sua vivência social, porque ela é necessária. Por outro lado têm de continuar supervisionando, pois ele ainda não tem maturidade para enfrentar tudo sozinho.”

Para Luciana, a mentira está ligada à falta de confiança. Por isso, se os pais percebem que o filho não tem contado a verdade, a primeira coisa que devem fazer é se perguntar por que isso está acontecendo.

“Não existe uma relação de confiança recíproca entre pais e filho? Quando ela foi quebrada? Por que o filho acha que não pode falar a verdade para os pais? A mentira acaba sendo consequência de uma relação errada desde a infância”, diz a psicóloga.

Luciana afirma que a mentira pode acontecer também quando a relação é muito autoritária e o filho tem medo de, ao contar a verdade, ser castigado duramente. “Os pais devem tentar lembrar se já houve no passado uma situação semelhante na qual o filho foi honesto e contou uma verdade difícil e analisar como lidaram com isso. Devem se perguntar: eu acolhi, ouvi ou puni severamente?”, fala a especialista.

 

Segundo Luciana, se o jovem contar que fez algo errado em vez de mentir e não for reconhecido pela coragem de assumir o erro, vai ser muito difícil que se sinta confiante para revelar uma situação que acontecer depois.

João Ilo Coelho Barbosa, psicólogo da ABPMC (Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental), concorda que uma criação muito rígida pode levar os filhos a mentir mais. “A mentira é uma tentativa de evitar punição. Se o ambiente for muito punitivo, maior a chance de a pessoa estar escapando dessas punições mentindo”, diz o especialista.

A falta de diálogo dentro de casa é outro fator que favorece o surgimento de mentiras, criando uma rotina na qual os filhos mentem e os pais fingem que acreditam. “É uma relação confortável para ambos, porque assim pai e mãe não têm de resolver a questão do amigo indesejado ou ter uma conversa sobre sexo que pode ser constrangedora”, afirma a psicóloga Luciana.

O modelo dado pelos pais também é importante na formação do adolescente. “Se esse jovem cresceu com pais que mentiam muito, inclusive para ele, aprendeu essa forma de conviver com o outro, esse jeito de resolver conflitos pelo atalho”, declara a especialista.

Afeto e diálogo

Mesmo que os pais desconfiem que o filho esteja escondendo algo, nunca devem invadir a privacidade do adolescente atrás de provas, revistando mochilas, computador pessoal ou agenda de telefone celular, porque, ao fazerem isso, estarão quebrando ainda mais a confiança do adolescente.

Para Luciana Caetano, os adultos devem insistir em perguntar aonde o filho vai, conhecer seus amigos e ligar para seu celular para supervisionar o que ele está fazendo, mesmo que isso lhe dê fama de “chato”. E deixar claro que estarão sempre ao seu lado e que, por isso, ele pode recorrer a eles com a verdade.

“Os pais devem sempre dizer aconteça o que acontecer, faça a burrada que fizer, me conte a verdade e eu vou ficar do seu lado e ver o que posso fazer para te ajudar’”, fala a psicóloga. “Os pais que querem vigiar para pegar no flagra e punir cometem um engano grande. Ninguém consegue vigiar um adolescente por 24 horas.”

Ao descobrir uma mentira, deve-se chamar o filho para uma conversa, mas nada de sermão. "O adolescente está mentindo porque a situação mostra para ele que, se não mentir, vai sofrer, então uma punição severa pode ser a pior coisa nesse momento, porque isso vai incentivá-lo a mentir melhor da próxima vez”, diz João Ilo.

Luciana aconselha os pais a fazer perguntas ao filho, questionando o que ele está sentindo e vivendo e o que o levou a achar que precisava mentir. “A conversa com o adolescente não é igual a com uma criança, para a qual se fala ‘você não vai mais fazer isso’ e pronto. Com o jovem, as regras são negociáveis e quanto mais ele for envolvido no diálogo, melhor.”

Para Monica, expor nessa conversa afeto e preocupação também é importante para que o adolescente fique mais seguro para se abrir. Quando se tratar de mentiras mais sérias, é necessário também que o jovem se responsabilize pelo que fez. “Os pais devem fazer os filhos criarem a consciência de que as consequências de seus atos vão recair sobre eles mesmos, que, se usar drogas ou provocar uma gravidez indesejada, quem vai arcar com o resultado é ele”, diz Luciana. E, caso a mentira tenha envolvido ou prejudicado outra pessoa fora da família, ele deve fazer as reparações necessárias contando a verdade e pedindo desculpas.

Já quando se tratar de uma mentira leve, típica da idade, a atitude mais sensata dos adultos pode ser deixar passar sem pressão, de acordo com Monica. “Os pais podem saber que o filho está mentindo, mas não quer dizer que eles têm de ir atrás da verdade. Tem um momento em que as pessoas precisam de privacidade, de se opor e se diferenciar. Claro que é importante estar atento, mas nem sempre para reprimir.”

“Algo como experimentar um cigarro. Faz parte, é uma época de experimentação, e nem sempre o jovem vai contar para os pais.” Segundo a psicóloga, pais atentos vão perceber se a mentira está envolvendo questões mais sérias porque ela será acompanhada de mudanças de comportamento, como se fechar no quarto, ficar mais introspectivo ou agressivo, afastando-se da família.

Definição de valores

Um adolescente que mente muito nessa fase corre o risco de se tornar um indivíduo que busca sempre a saída pela mentira. “A adolescência é a fase da construção de personalidade e de uma hierarquia de valores, o sujeito define quais valores vai levar para a vida adulta”, afirma Luciana. “Se aprendeu a resolver conflitos por meio da mentira, pode crescer com esse valor. Essa ideia de que algumas coisas são resolvidas com maior facilidade se eu mentir, por isso a intervenção dos pais na adolescência é importante.”

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