Gestação

Gisele Bündchen deu à luz na água; entenda esse tipo de parto

Divulgação
Gisele Bündchen e Mayra Calvette; a enfermeira acompanhou os dois partos da modelo Imagem: Divulgação

Fernanda Carpegiani

Do UOL, em São Paulo

13/05/2014 07h25

Relaxar durante o parto parece impossível? Não se você estiver dentro de uma banheira com água quente. É que a água diminui o peso da barriga, facilita a movimentação, acelera o trabalho de parto e alivia as contrações e as dores nas costas.

Para o bebê, nascer na água pode funcionar como uma transição mais tranquila para o mundo, já que ele passou nove meses "nadando" dentro do útero, mergulhado no líquido amniótico.

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Essa prática existe há muitos anos e era comum entre os índios, que faziam partos no mar e no rio. Um dos primeiros relatos oficiais é de 1983, quando o obstetra francês Michel Odent publicou um artigo na revista científica “The Lancet” contando sua experiência ao usar a água em mais de cem partos, tanto no trabalho de parto quanto no momento do nascimento.

A modelo Gisele Bündchen usou esse recurso em seus dois partos. Depois de pesquisar muito, ela decidiu ter Benjamin, 4 anos, e Vivan, 1, na banheira de sua casa.

“Vi parto no mar, na água, na floresta, no hospital e de todos os jeitos. Sabendo de mais informações sobre formas diferentes de parir, pude optar com mais segurança de qual maneira queria ter meus bebês”, disse a über model em entrevista ao programa “Parto pelo Mundo”, exibido no canal pago GNT.

Uma das acompanhantes de parto de Gisele foi a apresentadora do programa, Mayra Calvette, que é enfermeira obstetra e neonatal e visitou 25 países para saber como era o nascimento dos bebês em cada lugar.

Mayra percebeu em suas viagens que o parto na água era muito difundido no exterior. “Nos países desenvolvidos, como Inglaterra, Alemanha, Holanda e Nova Zelândia, há banheiras disponíveis em hospitais do sistema público.”

A enfermeira conta que tem feito cada vez mais partos na água. “As mulheres estão procurando mais a banheira. Elas se sentem mais seguras e confortáveis na água."

Os médicos confirmam o aumento na procura. “É uma modalidade que vem crescendo, porque traz muita satisfação para a paciente”, afirmou o obstetra Marcos Tadeu Garcia, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo.

O Ministério da Saúde ainda não tem dados sobre esse tipo de parto no Brasil, mas afirma que o cenário deve mudar em breve. Há planos de instalar banheiras nos Centros de Parto Normal, que estão sendo implantados pela Rede Cegonha, uma estratégia que apoia a mulher e o recém-nascido no momento do parto.

“Só teremos uma real estimativa da quantidade de partos na água quando os gestores começarem a monitorar esses indicadores nos Centros de Parto Natural”, informou o Ministério.

Efeito anestésico

A principal vantagem do parto na água é o seu efeito anestésico. "A imersão é uma analgesia natural bastante eficiente, que abrevia o trabalho de parto e diminui a necessidade de intervenção médica", declarou Garcia.

A ausência da gravidade e a pressão da água fazem a musculatura ficar menos contraída e, consequentemente, alivia as dores do trabalho de parto. Ficar embaixo do chuveiro também produz um efeito semelhante.

E as pesquisas comprovam esses benefícios. Um grande estudo feito, em 2004, na Suíça, comparou o parto na água e o parto terrestre de quase 10 mil mães.

As que tiveram partos na água perderam menos sangue, usaram menos anestesia e tiveram menos machucados na vagina durante o parto, a chamada laceração. O risco de infecção permaneceu igual nos dois tipos de parto e não houve casos de morte do bebê ou da mãe.

A bióloga Maria de Fátima, 31 anos, passou pelas duas experiências e conta que o parto na água foi muito mais tranquilo. “Não tem como descrever a diferença, mas é impressionante como diminui o desconforto e, principalmente, a dor nas costas”, contou a mãe de David, 5 anos, e Catarina, 7 meses.

Principais cuidados

Todas as gestantes podem usar a água durante o trabalho de parto, mas o nascimento na água só é recomendado para casos de baixo-risco, quando mãe e bebê não têm problemas de saúde. E o assunto causa polêmica entre os médicos. Alguns afirmam que há risco de infecção e afogamento do bebê.

“Os riscos são pequenos, mas existem, e a mãe precisa tomar providências para amenizá-los. Os batimentos cardíacos devem ser monitorados o tempo todo e é preciso manter a água sempre limpa”, disse o obstetra Julio Elito, professor do Departamento de Obstetrícia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Logo que nasce, o bebê continua respirando por meio do cordão umbilical por alguns segundos, o que impede que ele se afogue. “Ele só vai aspirar o líquido se já não estiver bem antes, por isso não pode ter alterações de batimentos cardíacos. Se ele demorar muito para nascer, é preciso tirar a mãe da água.”

O ideal é que a banheira seja grande, para permitir a movimentação da gestante. A temperatura da água deve ser próxima da temperatura do corpo (aproximadamente 37ºC), e o nível deve ultrapassar o útero, cobrindo toda a pélvis. A hora certa de entrar na banheira é no início do chamado período expulsivo, quando as contrações estão mais fortes e a dilatação está entre cinco e sete centímetros. Se a mulher entrar muito antes desse momento, a água pode desacelerar demais o trabalho de parto.

Foi o que aconteceu com a médica Ilka Yamashiro Murakoshi, 37 anos, mãe de Beatriz, 6 anos, e Mariana, 4. “Na minha primeira gestação, eu entrei na banheira, mas relaxei tanto que perdi a força. Já estava com dez centímetros de dilatação e nada de ela nascer. Precisei sair para conseguir empurrar.”

Na segunda gestação, ela entrou mais avançada no trabalho de parto e deu tudo certo. “Entrei na banheira com nove centímetros e dei aquela relaxada final. Foi na hora certa. Minha caçula nasceu sereia!”

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