Infância

Curativo especial ajuda a remodelar orelha de abano em bebês

Getty Images
É na adolescência que se sente mais fortemente os efeitos da orelha de abano na autoestima Imagem: Getty Images

Daniela Venerando

DO UOL, em São Paulo

17/08/2014 08h05

A chamada orelha de abano, aquela que se projeta exageradamente do rosto, é um problema que afeta em torno de 2% a 5% da população mundial, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. De origem genética, a alteração é perceptível já no nascimento. Até o sexto mês de vida, a modelagem do órgão pode ser parcialmente ou totalmente corrigida com curativos especiais, moldados por um médico especialista.

"No entanto, a medida é complicada na prática, e o sucesso é incerto. Recomendo a tentativa só nas primeiras quatro semanas, porque, depois desse período, a cartilagem da orelha endurece e o tratamento deixa de ser eficaz, restando somente a intervenção cirúrgica, anos depois, como alternativa para a sua correção", afirma o pediatra Victor Nudelman, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

A única consequência da orelha de abano é o prejuízo estético, que pode afetar a autoestima da criança por causa do bullying dos colegas de escola. Em função do problema, muitas meninas tentam esconder as orelhas com o cabelo e evitam prendê-lo. Já os meninos, por possuírem, geralmente, o cabelo mais curto, não têm saída e acabam sendo mais alvo de piadas.

"Os pais devem ficar atentos ao comportamento dos filhos. Por volta dos quatro ou cinco anos, a criança que tem orelha de abano talvez não seja capaz de expressar claramente o sofrimento, mas pode dizer que não quer ir mais para a escola ou que não gosta de tal amiguinho", diz Nudelmann.

Cirurgia

Quando a criança manifesta insatisfação com a aparência da orelha, os pediatras indicam a correção com uma operação chamada otoplastia. O procedimento pode ser feito a partir dos sete anos, quando o órgão já chegou ao tamanho próximo a que terá na idade adulta. A vantagem é que a criança nessa idade já tem discernimento sobre o assunto. Quando a preocupação da aparência é somente dos pais, os médicos não realizam a cirurgia.

Feita a intervenção, que dura entre uma e três horas, o paciente recebe alta no mesmo dia, sem necessidade de voltar para retirar os pontos. Em crianças, é preciso aplicar anestesia geral e, após os 15 anos, é feita apenas sedação com anestesia local.

Há dois métodos de curativo: gesso e uma faixa de atadura ao redor da cabeça. O primeiro é colocado na parte interna da orelha, sem obstruir o conduto e deve permanecer por duas semanas, sem necessidade de troca.

"A vantagem desse curativo é que o gesso mantém a forma e os detalhes da orelha operada. Além disso, o paciente não deita de lado, pois o gesso causa desconforto e, instintivamente, ele não apoia a cabeça lateralmente", explica o cirurgião plástico Juarez Moraes de Avelar, um dos principais especialistas do país em otoplastia.

Na segunda opção, a atadura fica 24 horas por dia, durante quatro dias, ao redor da cabeça. Depois disso, é usada uma faixa tipo bailarina por um mês, somente para dormir. Durante a recuperação, o paciente está proibido de praticar esportes e natação por, no mínimo, um mês, além de evitar exposição direta ao sol. Crianças devem evitar brincadeiras com risco de trauma e podem voltar à escola depois de uma semana.

Operação solidária

Para quem não pode pagar a operação, existem alternativas a exemplo do Projeto Orelhinha, que arca com 70% do custo do procedimento, que fica em torno de R$ 6.000 reais. A família precisa desembolsar pelos 30% restantes, que envolvem material e acomodação no hospital, mas o valor pode ser parcelado. Os convênios médicos não cobrem a intervenção por a considerarem de fim estético.

A ONG, que atua há quatro anos e já realizou três mil cirurgias no país, foi idealizada pelo cirurgião plástico Marcelo Assis, que trabalhou muitos anos em um hospital militar e se espantou com a demanda pela correção da orelha de abano. Segundo ele, a maior procura é por adolescentes, que se preocupam mais com a aparência e também porque o bullying fica mais intenso nessa fase.

Segundo Assis, o objetivo maior do projeto é o resgate da autoestima. "Depois da operação, a mudança é incrível. A pessoa se torna confiante e mais falante. Até o jeito de andar se modifica", fala. Com uma fila de espera de, aproximadamente, dois meses, o projeto está presente em cinco estados.

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