Gravidez e filhos

Mulheres que fizeram cesárea falam sobre as duras críticas recebidas

Arquivo Pessoal
Luciana Passareli, 27 anos, escolheu ter o filho, Théo, por meio de uma cesárea Imagem: Arquivo Pessoal

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL

10/11/2015 07h15

A crescente onda em defesa do parto normal, principalmente nas redes sociais, em que grupos de mulheres trocam informações, pedem conselhos umas às outras e contam suas experiências, também é responsável por fazer vítimas. Três mulheres, cujo tipo de parto foi a cirurgia cesariana, contam as críticas que receberam por causa disso e como se sentiram.

“Fiz cesárea por opção. Nunca tive vontade nem coragem de fazer parto normal. Antes de engravidar, li muito e me empoderei para ser mãe. Acho maravilhoso o parto humanizado, mas ainda assim não tinha vontade. Conversei com meu médico sobre a cesárea e só pedi que, no dia do nascimento, ele esperasse os sinais de que o bebê estava prestes a nascer, como a bolsa romper, para então fazer a cirurgia. Ele respeitou minha decisão. Apesar de tudo ter sido como minha vontade, as pessoas me importunaram por causa da decisão. Minha irmã mais velha e algumas amigas pegaram bastante no meu pé desde o início da gravidez. Estava segura e elas ficavam falando que eu estava sendo enganada pelo médico, que era ele quem queria fazer cesárea porque era mais cômodo. Fiquei chateada. Para elas, parecia que eu não sabia o que estava fazendo. Na minha opinião, cada mulher é dona do seu corpo e cada mãe sabe o que é melhor para si e seu filho. Como aprendizagem do que passei, hoje sou mais dura a respeito de minhas escolhas. A maternidade me ensinou isso. Os palpites cansam. E não só os que têm a ver com o parto. As pessoas acham que podem se meter em tudo.”

Luciana Passareli, 27 anos, publicitária, moradora de Santo André (SP), mãe de Théo, 7 meses.

Arquivo Pessoal
Egle teve diabetes gestacional e o obstetra recomendou que ela fizesse cesárea Imagem: Arquivo Pessoal

“Fui diagnosticada com diabetes gestacional com 28 semanas de gravidez, e o obstetra disse que seria necessário realizar a cesárea com 37 semanas. Para ele, quanto antes realizássemos o parto, melhor para a criança. No ultrassom, o bebê já apresentava curva de crescimento maior do que o esperado e isso o preocupava. Queria muito ter parto normal, mas estava preparada caso não fosse possível. Amigas, colegas do trabalho e familiares sabiam que eu queria parto normal e, quando ficaram sabendo, acharam que eu precisava pedir uma segunda opinião. Muitas começaram a indicar que eu lesse artigos sobre histórias parecidas com a minha. Diziam que eu tinha de ir contra a recomendação do meu médico e trocar de profissional. Algumas começaram a tentar me convencer pelo medo. Falavam que a cesariana prejudica a amamentação, é de difícil recuperação para o corpo feminino, que faz mãe e bebê correrem mais riscos. No início, ficava com a sensação de que estava errada, fazendo um mal grave para minha história com o bebê, e dizia às pessoas apenas que não sabia o que fazer, já que estava realmente confusa. Mas depois passei a falar que era uma escolha minha seguir a orientação médica. Falava: 'tenho diabetes gestacional, o obstetra não quer assumir o risco do parto normal e não vou assumir sozinha. Ele é expert no assunto'. Quando alguém rebatia e falava que outro obstetra poderia me auxiliar com mais informações, eu explicava: 'não vou mudar de médico com 30 semanas de gestação e deixar todo o histórico para trás. Não vou atrás de uma segunda opinião, tenho de confiar'. Em uma ocasião, fui firme e disse: 'essa é uma decisão tomada. Não há o que fazer e não gostaria mais de falar sobre esse assunto, que me incomoda'. Ter de fazer a cesariana era uma página virada na minha vida, mas algumas pessoas insistiam em desvirá-la. Depois de um tempo, abandonei qualquer tipo de explicação. Dizia que andaria com uma plaquinha: 'parto cesárea, decisão tomada, não insista'."

Egle Cuzziol, 33 anos, consultora de planejamento e distribuição de veículos, de São Bernardo do Campo (SP), mãe de Mateus, 1 ano e 10 meses.

Arquivo Pessoal
Camila queria parto normal, mas acabou fazendo uma cesárea Imagem: Arquivo Pessoal

“Esperei pelo parto normal com apoio do meu marido e do obstetra até 40 semanas. Minha filha estava encaixada e eu não tinha ainda dilatação. E queria esperar. Mas tenho um problema na coluna --hérnia de disco lombar e sacral-- e nessa reta final da gravidez tive um travamento na coluna, com inflamação de nervo ciático. Não conseguia nem andar. Liguei para o obstetra. Como não podia tomar muitos remédios, tomei um para aliviar a dor um pouco e fiz duas sessões de acupuntura, mas a dor persistia. Com medo de entrar em trabalho de parto nessas condições, o médico propôs e me convenceu que, naquele cenário, o melhor era a cesárea. Ele disse que eu não aguentaria o parto natural, não conseguiria fazer a força necessária para o bebê nascer devido à dor. Minha família compreendeu a questão, mas alguns amigos reprovaram minha decisão de seguir como paciente dele. Algumas amigas defensoras do parto normal me condenaram bastante. Elas diziam que o parto é da mulher, é natural. Depois que minha filha nasceu, elas falavam que eu devia ter deixado a natureza agir. Fui chamada de fraca, elas me disseram que, na hora do parto, eu teria esquecido a dor na coluna. Fico me perguntando se alguém já sentiu a dor do nervo ciático inflamado. De tanto ser criticada, quase me convenci que tinha sido fraca. Às vezes, respondia ao que ouvia, mas percebi que não adiantava nada e acabei parando, o que foi bom, porque fez com que eu parasse de me incomodar tanto."

Camila Rodrigues Taddone, 34 anos, educadora física e psicomotricista, de São Paulo, mãe de Lara, 5 meses.

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