Gravidez e filhos

Vídeo de menina pedindo marido levanta discussão sobre excesso dos pais

Kakigori Studio/Getty Images
Exposição da criança na internet é nociva Imagem: Kakigori Studio/Getty Images

Do UOL, em São Paulo

04/12/2015 19h38

 

Um vídeo de uma menina que aparenta ter cerca de três anos e afirma querer um marido está repercutindo nas redes sociais. Postado em três páginas do YouTube, a gravação --com duração de dois minutos e 28 segundos-- parece ter sido feita pela própria mãe da criança e tinha até sexta-feira (4) mais de 3.000 visualizações.

Durante a gravação, a mãe pergunta para criança por que ela está chorando e a menina responde que “quer um marido para não ficar para trás”. A mãe questiona insistentemente o motivo do desejo dela, afirmando que criança não tem marido e, sim, pai e mãe. A criança então responde que o pai é marido da mãe e que ela vai arranjar na escolinha um marido “pequenininho” para morar com ela.

Ao longo da filmagem, é possível ouvir a mãe rindo, enquanto a criança chora. Ao final, a menina pede à mãe que não a filme mais chorando.

Na opinião de especialistas ouvidos pelo UOL, a gravação incentiva a erotização precoce da criança, não respeita seus sentimentos, além de expor indevidamente seu corpo, sem a preocupação de preservá-la, por exemplo, da pedofilia. Veja, a seguir, o que dizem os consultores.

Quézia Bombonatto - psicopedagoga e diretora da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia)

“É preocupante ver que a mãe dá close na imagem da filha, que usa um vestido curto, quando deveria ser a primeira a preservá-la. Trata-se de uma atitude inconveniente e danosa. O vídeo começa com a menina já chorando. Não sabemos o motivo que a levou a chorar. Não sabemos o contexto nem como é sua relação com os pais. De qualquer modo, é inapropriado rir dos sentimentos da criança. Se cada vez que a criança chorar ou fizer birra a mãe ligar a câmera, estará promovendo um reforço negativo em seu comportamento. Como ela saberá lidar com seus sentimentos na fase adulta? Seria importante avaliar o motivo do choro e tentar averiguar se a criança não está se sentindo carente. Quando ela diz que “não quer ficar para trás”, o correto seria intervir e tentar descobrir a origem desse pensamento. Certamente ela reproduz o que ouviu, mas ouviu de quem e onde? Nessa hora, os pais precisam pontuar que não é necessário ter marido para ser feliz ou se sentir inteira.”

Ivete Gattás - psiquiatra infantil e coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

“Esse tipo de comportamento de expor os filhos nas redes sociais tem sido comum. É o que chamamos de ‘facebookização’ da vida. Parece que as pessoas não podem ter mais nenhum tipo de privacidade, tudo precisa ser exposto, enquanto não for compartilhado, é como se não houvesse acontecido. O problema é que não se leva em consideração que tudo aquilo que é colocado na internet não pode mais ser controlado, não tem dono. Faltou essa mãe pensar um pouco mais na segurança da filha, principalmente porque uma postagem dessas pode ser eterna e voltar à tona daqui a uns anos, criando uma situação constrangedora para a menina. A mãe passou por cima do direito da filha à privacidade. Vivemos um momento em que se promove a ‘adultização’ das crianças e a infantilização dos adultos. Pior do que isso, as crianças estão sendo erotizadas muito precocemente. É como se as pessoas achassem que pedofilia é natural. Isso começa com aquelas perguntas: quem é o seu namoradinho na escola? Com quem você vai casar? Evidentemente, nessa idade, ela não sabe o que é um marido, não tem ideia do que significa casar. Mas vê os pais tendo um relacionamento afetivo e talvez não receba deles a atenção devida. Talvez não haja espaço para ela nessa relação, e ela se sinta deslocada, por isso imagina que precisa encontrar um par também. Esse é um comportamento típico das relações triangulares. É interessante perceber que ela não pede um irmão nem um amigo, o que seria mais comum.”

Cristiane Maluf Martin, psicanalista, especialista em terapia de casais e dinâmicas de grupo

“Fiquei chocada com esse vídeo. É muito comprometedor e chega a ser cruel. A criança não tem idade suficiente para agir dessa maneira se não for estimulada por adultos. Essa é uma fase em que a criança está tendo sua personalidade estruturada, e a educação que recebe em casa é fundamental. A forma como ela está sendo exposta é bastante nociva para seu desenvolvimento. Por estar chorando, ela demonstra sofrimento, é como se estivesse pedindo socorro e o correto seria investigar o motivo que a fez ficar estressada em vez de forçar mais ainda a situação. A meu ver, ela foi incentivada pela mãe a agir de maneira ‘adultizada’. Vivemos um momento em que os pais parecem pensar primeiro na fama e depois na segurança dos filhos. Porém, ao contrário do que a mãe parece achar, o vídeo não é engraçado, mas uma atitude grave, com sérias implicações na vida da menina. Caso esse tipo de comportamento seja incentivado ao longo dos anos, ela pode vir a ter problemas de autoestima e até sofrer de depressão na adolescência ou na idade adulta. No futuro, ao ver o vídeo, ela pode, inclusive, ser alvo de rótulos nada positivos. Nesse momento em que vemos tantas notícias sobre violência e excesso de exposição infantil, os pais precisam ter mais cuidado e evitar colocar os filhos em situações de risco. Acredito que a criança e, sobretudo, a família precisam de apoio psicológico para trabalhar essa dinâmica familiar, que parece estar descompensada.”

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